Entrevista

O PP será de novo a força mais votada, mas “vai sofrer uma hecatombe”

José Pablo Ferrándiz, doutorado em Sociologia, é o principal investigador e o vice-presidente do instituto Metroscopia, que faz por sondagens semanais em Espanha e é responsável pelos inquéritos publicados no diário El País.

Foto
José Pablo Ferrándiz DR

O vice-presidente do Metroscopia recebeu o PÚBLICO na sede do instituto, num dos últimos dias da campanha para as eleições autonómicas e municipais deste domingo. Numa altura em que já não é legal publicar sondagens, a sala que ocupa todo o rés-do-chão da sede do instituto está repleta de gente ao telefone. “É uma parvoíce”, diz, sobre a proibição. “Estamos a fazer Madrid”, explica. As sondagens que não se podem publicar continuam a fazer-se e antecipam mudanças históricas no mapa político de Espanha. Domingo à noite, vão ser testadas face aos resultados.

Com tantas eleições neste domingo, há muitas disputas-chave neste ano que vai terminar com a realização de legislativas. Quais são as mais importantes?
As eleições mais emblemáticas em termos autonómicos e municipais são Madrid e Valência, sem dúvida. São e foram os grandes bastiões do PP. Em Madrid, na capital, já contamos 24 anos de maioria absoluta do Partido Popular. E esta eleição também é muito simbólica por causa das pessoas que se apresentam ao município. A candidata do PP ser Esperanza Aguirre, num momento em que estamos a discutir mudança e regeneração na política, é extraordinário, ela que anunciara que tinha abandonava a política. Madrid e Valência, para além serem estes bastiões, são as cidades e as regiões onde os casos de corrupção que envolvem o PP aconteceram em maior número, foram mais públicos e mais flagrantes.

O PP pode perder as cidades de Madrid e Barcelona. Isso era inimaginável até há muito pouco tempo.
Sim, há seis meses ninguém podia antecipar um cenário destes. Tem acontecido tudo muito depressa. Era inimaginável para muitos e alguns souberam adaptar-se melhor do que outros. Alguns pelo menos estão a tentar adaptar-se e outros, como os líderes do PP, nem percebem o que se passa e estão a cometer erros atrás de erros. Não souberam reagir.

O que parece é que tentam responder com o discurso do medo, da ingovernabilidade. Isso pode funcionar?
Nos debates de Madrid foi evidente que o discurso do medo não funciona. Esperanza Aguierre impôs ao resto dos partidos o modelo dos debates dois a dois. Penso que se vai arrepender para o resto da vida. Se tivesse havido um só debate de duas horas, ninguém se ia lembrar do que tinha acontecido e ela podia ter-se feito de vítima, seriam ‘todos contra ela’. Estes debates mostraram uma Esperanza Aguirre com um discurso excessivamente agressivo, nalguns momentos mesmo mal-educado. O que as pessoas querem é que se discutam as políticas e ela não deixou que isso se fizesse. Creio que fez uma campanha muito má e, em parte, isso deve-se às expectativas. Pensava que ia arrasar.

Tradicionalmente, as campanhas contam pouco para decidir os votos. Neste caso é diferente?
Neste caso sim, provavelmente por causa da incerteza do resultado. Nos últimos anos, as sondagens mais ou menos antecipavam o que acabava por acontecer, que era uma maioria absoluta do Partido Popular na maioria dos sítios, noutros, menos, dos socialistas. Ou seja, não havia grande incentivo sequer para acompanhar as campanhas. As pessoas pensavam ‘posso ir votar para que esta maioria seja mais ou menos ampla’, não havia mais partidos, para além da Esquerda Unida, que nunca mobiliza muito. Agora, claro, apareceu a incerteza, com as sondagens a indicarem que não vai haver praticamente maiorias absolutas. Há novos actores em jogo que vão ser determinantes na altura de formar governo. No caso de Madrid, nós fomos os únicos que demos uma aproximação, quase um empate técnico, entre o PP e Manuela Carmena [candidata da coligação Ahora Madrid, apoiada pelo Podemos]. Neste caso, até os sondagens podem ser mobilizadoras do voto.

As pessoas dizem, ‘desta vez o meu voto conta’.
É isso mesmo. Falamos de corrupção, de desemprego, da economia, claro. Mas nestas eleições o que conta mesmo é a mudança. ‘O meu voto conta e pode mudar as coisas, antes o meu voto servia para pouco’. E já não é a mudança entre PP e PSOE, é uma mudança de muitas coisas, mudança geracional, de partidos tradicionais face aos novos, é uma mudança, essa é a mudança.

O Ciudadanos surge em várias autonomias como partido que pode decidir os governos, se apoiar o PP. Não seria mais lógico, com os populares no poder e a meses das legislativas, que o partido apoiasse o PSOE?
O Ciudadanos sabe que tem um problema. As sondagens dizem que vão ser determinantes em muitos sítios para a formação de governos e os seus líderes sabem que o seu eleitorado vem essencialmente do centro-direita e principalmente do PP. O que falta saber é como é que este eleitorado interpreta os seus movimentos, o que vai preferir, o PP no poder ou uma mudança? São pessoas que antes votavam PP e que agora escolhem o Ciudadanos porque não querem mais o PP, mas também não querem que governe a esquerda. Eles terão de decidir caso a caso, mas realmente é complicado. No final do ano, há legislativas e todos os olhos estão postos em cada movimento que estes novos partidos façam.                  

Na Andaluzia, onde se votou em Março, ainda não há governo, estão todos à espera de domingo para permitirem que o PS seja confirmado na assembleia. Entre estas eleições e as legislativas é mais provável que haja bloqueios ou negociações?
Há muitas incertezas, mas o que é claro é que vem aí uma nova época política em Espanha, desconhecida dos políticos e dos cidadãos. E vamos ter de aprender todos. Aprender a viver sem maiorias absolutas, aprender a negociar, que, na verdade, é algo que os cidadãos já pediam, inquérito atrás de inquérito, há muitos anos.

E como é que isso se aprende?
Não estamos habituados, não temos esta política de negociar, de ceder para chegar a consensos. Faz falta pedagogia, que é o que os partidos nunca fizeram. Fala-se de pactos e de maiorias relativas como algo negativo. E isso afectou a opinião das pessoas, que acreditaram que negociar queria dizer ingovernabilidade e caos. É preciso que os políticos façam essa pedagogia, expliquem que não é o fim do mundo, é só política.

Mas os próprios políticos estão preparados para esta mudança?
Não, não estão. Veremos se os novos partidos, com novos políticos, conseguem promover acordos mais facilmente. Aos outros não lhes vai restar nada a não ser adaptar-se. Porque nada disto acaba aqui.

Quem faz sondagens também teve de adaptar-se. Desde que se começou a antever o possível fim do bipartidarismo, as sondagens não param de mudar. Temos uma para as eleições gerais em que PP, PSOE, Podemos e Ciudanos surgem em empate técnico e logo depois outra em que o Podemos desce de primeiro para terceiro.
Sim, muda tudo a uma velocidade incrível. A primeira sondagem que fizemos com o Podemos a surgir em primeiro foi em Novembro. E tudo tem mudado a cada sondagem. Eu não sei o que vai acontecer. O que é claro é que o Podemos e Ciudadanos vieram para ficar. É preciso esperar, ver o que acontece depois das eleições municipais e autonómicas, dar aos cidadãos a oportunidade de avaliar o que fazem os novos partidos, de verem que não vem aí o caos. O Podemos abriu o caminho para o Ciudadanos e sofreu um desgaste enorme nos últimos meses, também porque foi alvo de um escrutínio e de uma exposição gigantescas. O Ciudados apareceu como força nacional num momento bom, com as eleições muito mais próximas, e capitalizou grande parte do descontentamento em relação aos partidos tradicionais. Mas não é impossível que se produza um processo inverso e que seja o Ciudadanos que se desgaste daqui até às eleições legislativas, com o Podemos de novo a subir. Mas ambos vão chegar lá com um apoio semelhante ao PP e ao PSOE.

Os eleitores estão mais exigentes. Há pessoas que há quatro meses estavam decididas a votar no Podemos e agora já se dizem decepcionadas. O escrutínio face aos partidos aumentou?
Sim, e isso também aconteceu graças o Podemos. A grande novidade, o melhor que o Podemos fez, foi ter introduzido na agenda política uma série de temas que não interessavam aos políticos. Agora toda a gente fala de transparência, de corrupção, de primárias, de democracia interna. O PSOE teve de ir a votos e mudou de secretário-geral, a Esquerda Unida dizia que fazer primárias era uma coisa dos americanos e agora admite fazê-las. Isso aconteceu graças ao aparecimento do Podemos, no fundo graças aos cidadãos, porque o que o Podemos fez foi dar voz a um estado de ânimo que havia entre as pessoas e que o partido soube ler muito bem.

Os socialistas souberam reagir a estas mudanças?
Começando por outro lado, o único partido que não soube reagir e que pensa que não está a acontecer nada é o PP. Não tirou nenhuma lição, não mudou nada. Inicialmente, o PSOE reagiu, fez eleições primárias, substituiu Alfredo Rubalcaba por Pedro Sánchez, e parecia que o discurso e o comportamento ia mudar. Depois, tornaram-se públicos os desentendimentos de Sánchez com muitos barões, com [a líder do PS andaluz] Susana Díaz. Em Madrid, Sánchez acabou por se impor e destituiu Tomás Gómez de secretário-geral, impondo outro candidato para a comunidade, Ángel Gabilondo. Se não o tivesse feito, ia arrepender-se, e penso que se arrepende de não ter feito o mesmo nas listas para o município. Pelo menos tentou. Mas no caso do PSOE ainda falta acontecer muita coisa, vai haver primárias para eleger o candidato às legislativas.

Mesmo com a eleição de Sanchéz e com a regeneração que isso significa, o PSOE não parece conseguir capitalizar muito o desgaste do PP.
Tradicionalmente, quando perdia o PP ganhava o PSOE, mas agora o que vai acontecer é que o PP vai sofrer uma hecatombe, vai ter um colapso eleitoral, perder metade dos votos de 2011, e o PSOE vai ganhar muito pouco com isso. Nalguns sítios terá mais votos do que em 2011, noutros menos. Eles podem assumir duas linhas de interpretação, podem dizer, ‘conseguimos travar a queda, que é a visão optimista’; a pessimista é ‘quatro anos depois continuamos na mesma, sofremos uma derrota gigante em 2011 e não recuperámos’. Se Gabilondo não tivesse sido nomeado em Madrid, seria muitíssimo pior. Mas quem ganha com o desgaste do PP são o Podemos, o Ciudadanos e candidaturas como Ahora Madrid.

Que lições é que os socialistas vão tirar dos resultados?
Eles querem ser mais votados do que o Podemos para terem a iniciativa de tentar formar governos. Mas será um desastre – que pode acontecer em muitos sítios –, se ficarem em terceiro. Se isso acontecer em lugares emblemáticos, será histórico. Os socialistas eram o voto útil e agora podem deixar de sê-lo. E falamos de um partido que governou Espanha durante muitos, muitos anos.

E o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, como vai tentar vender os resultados de domingo?
Acredito que sem se mover, sem mudar a sua estratégia. Vai dizer ‘estejam tranquilos, que a economia começa a melhorar, vai correr tudo bem’. Mas dentro do partido podem começar movimentações para tentar afastá-lo antes das legislativas, já houve sinais nos últimos meses. A primeira coisa que ele vai dizer no domingo à noite é ‘somos a força mais votada em Espanha’ e é provável que isso assim seja. Mas se essa for a sua única análise depois das eleições, estará a suicidar-se.