Torne-se perito

Promoção da actividade física nas crianças deve ser a “grande aposta”

Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade defende aposta na prevenção e quer que as cidades sejam mais pensadas para a prática de exercício.

Muitas crianças e encarregados de educação procuraram o projecto da Santa Casa e da Sociedade Portuguesa Para o Estudo da Obesidade
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Mais de metade das crianças bebem refrigerantes todos os dias Fernando Veludo

Crise, pobreza, desemprego e obesidade andam de mãos dadas. O alerta é deixado pelo presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), que considera que o problema “é uma doença social e a crise vai acabar por ter repercussões” na sua expansão. Para Davide Carvalho, é preciso apostar na promoção da saúde e na prevenção desta patologia, criando condições para uma vida menos sedentária nas cidades e dando uma atenção especial aos mais jovens.

“As crianças mais activas vão ser adolescentes mais activos e os estudos internacionais mostram que crianças e adolescentes mais activos são também adultos mais activos. Isto significa que a grande aposta, para vencermos a obesidade, tem de ser a promoção da actividade física nas crianças”, defendeu o também director do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Hospital de São João, no Porto. “Somos líderes europeus, com um terço das crianças com obesidade e excesso de peso, que é uma situação dramática”, acrescentou, sublinhando que, com a crise actual, prevê-se um agravamento da situação.

Aliás, o próprio relatório Portugal – Alimentação Saudável em números 2014, do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, da Direcção-Geral da Saúde, publicado em Dezembro de 2014, alertava que muitos dos problemas começam nos primeiros anos de vida, nomeadamente com a reduzida taxa de aleitamento materno exclusivo até aos seis meses. Apesar disso, no grupo de crianças até aos quatro anos, registava-se, por exemplo, um “consumo frequente de fruta, sopas e produtos hortícolas”.

Porém, há dados negativos que deitam por terra muitos destes hábitos: “Mais de metade das crianças (52%) consomem refrigerantes e néctares (colas, refrigerantes gaseificados, refrigerantes sem gás, ice tea e néctares) diariamente.” Além disso, 65% consomem bolos e doces pelo menos uma vez por dia, e 73% consomem snacks salgados (pizza, hamburger, batatas fritas e outros snacks de pacote) entre uma a quatro vezes por semana. Apesar disso, o programa nacional estima que a obesidade infantil tenha vindo a estabilizar, mas reconhece que esta percepção “necessita de confirmação futura”.

Davide Carvalho cita dados de um estudo da Organização Mundial de Saúde sobre a Irlanda, que estima já a subida de casos de obesidade naquele país devido à crise. “A Europa vive uma crise civilizacional e a obesidade é o paradigma das doenças da civilização actual. Poucas patologias traduzirão tão claramente as assimetrias. Os doentes obesos são os mais pobres, com maior taxa de desemprego e com um nível sócio-económico mais baixo. A obesidade é uma doença social e a crise vai acabar por ter repercussões, até porque o preço das calorias das gorduras é inferior ao preço das calorias dos produtos hortofrutícolas”, reforça o professor da Faculdade de Medicina do Porto.

A SPEO prepara-se para recolher novos dados sobre a prevalência destes problemas em Portugal, mas o médico antevê um agravamento do panorama registado entre 1995 e 2005. “O que aconteceu foi um aumento da prevalência da pré-obesidade e obesidade de 49,6% para 52,4%. Este aumento aconteceu sobretudo à custa da pré-obesidade, que passou de 35% para 38%, sobretudo nos homens, em que passou de 54% para 59,3%”, adiantou. Davide Carvalho considera, por isso, que é importante uma maior articulação entre a Direcção-Geral da Saúde e as Administrações Regionais de Saúde para que os centros de saúde apostem em programas de promoção da actividade física e de uma alimentação saudável. Como exemplo dá projectos semelhantes desenvolvidos na Finlândia e Suécia, que apesar de já serem países com populações bastante activas perceberam que “é preciso por vezes ensinar as pessoas a fazer exercício”.

O médico entende que as cidades, onde o carro é cada vez mais escolhido para as deslocações, devem promover melhores transportes públicos e zonas seguras para a prática de actividade física – até porque há estudos sobre a cidade do Porto que mostram que as pessoas que vivem em zonas com mais infra-estruturas perto acabam por ter menos problemas de peso. Esta vai ser, aliás, uma das ideias apresentadas neste sábado no âmbito da conferência Obecidade – Urbanismo e a Epidemia do Século XXI, que decorre no Ginásio Clube Português, em Lisboa, organizada pela SPEO, e que pretende debater ideias que permitam evitar que Portugal chegue a 2020 como a Organização Mundial de Saúde antevê, com mais de 20% dos cidadãos obesos, número que se pode aproximar dos 30% em 2030.