Torne-se perito Reportagem

No Museu dos Coches quando não se sabe o que se vê, inventa-se

O novo edifício do Museu dos Coches abriu este sábado ao público com filas intermináveis. O dia é de festa porque as entradas são gratuitas.

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Parte dos coches estão identificados – uma folha A4 em várias línguas resume o que está exposto à nossa frente Enric Vives-Rubio
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O elevador dá acesso ao piso onde está a colecção Enric Vives-Rubio
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No museu circulava centenas de pessoas Enric Vives-Rubio
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As pessoas andam meio perdidas, não sabem bem que circuito seguir Enric Vives-Rubio
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Tiram-se fotografias de todos os modelos expostos Enric Vives-Rubio
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O museu está sem museografia Enric Vives-Rubio

A abertura estava marcada para as 10h deste sábado e a essa hora a fila de pessoas ansiosas por conhecer o novo Museu dos Coches, junto aos jardins de Belém, em Lisboa, já dava à volta ao edifício desenhado pelo arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha. “Nunca mais vamos sair daqui”, ouvimos alguém dizer. A fila assusta mas não afasta a multidão. O calor aperta mas recorrem-se às sombras. É preciso aproveitar porque este fim-de-semana não se paga. Já lá dentro, a confusão é muita. Ouvem-se os disparos contantes de máquinas e telemóveis, regista-se tudo mesmo que não se saiba bem o que se está a ver devido à falta de museografia.

As respostas repetem-se. O museu está cheio porque é um dia especial e especial significa grátis. “Vim porque não se paga”, “estou cá porque é à bórlix”. Há expressões para todos os gostos, mas o significado é sempre o mesmo. Grande parte dos visitantes nem sabe que o edifício está pronto há mais de dois anos mas que se manteve fechado por decisão da Secretaria de Estado da Cultura, que alegou falta de capacidade económica para abrir portas. Grande parte dos visitantes não acompanhou as polémicas em torno da mudança do antigo picadeiro do Palácio de Belém para as novas instalações. Viram na televisão ou leram nos jornais que o novo museu ia abrir e isso é que interessa. Isso e não se pagar, claro.

“Tenho a certeza que se se pagasse a fila não era tanta”, diz-nos Ana Nascimento, que veio conhecer o novo Museu dos Coches desafiada pela sua amiga Amélia Gonçalves. “Se isto custou 40 milhões de euros e se também foi pago com o dinheiro dos meus impostos, então também tenho que usufruir de alguma coisa”, afirma Amélia, há mais de uma hora à espera para entrar no edifício. Ana veio dos Olivais e Amélia de Odivelas, as duas amigas aproveitaram que estavam de folga para passearem até Belém.

No museu, entram grupos de 40 a 50 pessoas, por vezes mais. A colecção está exposta no piso superior. Os 78 exemplares, mais cerca de duas dezenas de coches do que o picadeiro mostrava, dividem-se pelas duas grandes naves do edifício. É possível subir pelas escadas ou pelo elevador. “Não é preciso correr, há espaço para todos”, diz Rui Silva, funcionário do museu, hoje responsável por comandar o grande elevador. Rui recebe as pessoas com a simpatia de quem ainda está a começar um dia que vai ser longo. Dá indicações de como se deve circular no museu, “no sentido dos ponteiros do relógio”, diz onde são as casas de banho e as saídas e a todos os grupos lembra que no primeiro domingo de cada mês as visitas são grátis, como acontece em todos os museus sob alçada da Direcção-Geral do Património Cultural.

Rui nunca tinha trabalhado num museu. Trabalhava nas extintas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento do Exército e foi recolocado aqui através de um programa especial. “É diferente mas uma pessoa adapta-se”, conta, nada surpreendido com a enchente matinal. “Tínhamos tido uma formação e fomos preparados para isto, estou a gostar muito”, continua o funcionário que apenas tinha visitado o Museu dos Coches em criança. “Quero ficar aqui até à minha reforma”, diz aos 43 anos, ao mesmo tempo que nos avisa: “Isto é um mundo cá dentro, prepare-se.”

Mal entramos, saltam à vista os telemóveis e as câmaras no ar. Ouvem-se os disparos contínuos. Tiram-se fotografias de todos os modelos expostos, uma fotografia atrás da outra. Há quem nos peça até para nos desviarmos para não ficarmos na imagem ou quem nos peça o favor de os fotografar. “Estes são grandes, dá para tirar fotos boas”, ouvimos perto do coche do século XVIII que foi das filhas de D. José I, conhecido como o Coche das Infantas.

Sabemos do que se trata porque ouvimos a guia de um pequeno grupo explicar, mas a verdade é que sem a museografia torna-se difícil perceber o que vemos. Parte dos coches estão identificados – uma folha A4 em várias línguas resume o que está exposto à nossa frente –, mas com tantas pessoas a circular no museu é até difícil ler qualquer informação.

As pessoas andam meio perdidas, não sabem bem que circuito seguir. Param nas grandes janelas do edifício a olhar para a rua, comentam a fila onde já estiveram e assistem à marcha de coches que acontece à porta do edifício. Andam de um lado para o outro e, à falta de contexto, imaginam histórias. “Isto devia ser para uso privado”, “isto era de certeza para uma procissão”, “olha este devia ser uma espécie de autocarro da altura”, “aquele parece que era de um padre”.

“Não ter museologia é o anti-museu”, diz ao PÚBLICO Maria Helena, de Lisboa, contando que quis visitar o edifício para perceber se o que tinha lido nos últimos dias sobre o museu estar incompleto era verdade. “Há umas visitas guiadas que sempre orientam mas, senão, é completamente confuso”, continua. “Não se justifica, uma coisa que está pronta desde 2013 e inauguram agora desta forma...”

Para Maria Helena, a obra do Pritzker brasileiro “é muito interessante” mas confessa que não a acha adequada para abrigar o Museu Nacional dos Coches. “Hoje em dia ninguém constrói um edifício barroco mas falta qualquer coisa que faça apelo às épocas a que estas carruagens dizem respeito”, explica, defendendo que o antigo museu “se calhar tinha uma dimensão reduzida mas este tem uma dimensão demasiado grande”. “É que hoje é um dia especial e há muitas pessoas mas nos outros dias não sei.”

Maria Helena é crítica, a contrastar com a maioria das pessoas. Diz-nos que acha melhor o museu estar aberto do que não estar para logo de seguida se corrigir: “Desta forma não sei. É melhor estar aberto, sim, mas tinha de ter uma componente educativa e pedagógica para as pessoas perceberem o que estão a ver.”

O museu fecha às 18h, reabrindo neste domingo às 10h. As entradas continuam a ser grátis. A partir de segunda-feira, o bilhete para o novo edifício custará seis euros, sendo a entrada conjunta oito (com o Picadeiro). Depois da exposição completa, a entrada passará a custar oito (os dois pólos ficarão, então, nos dez euros).