Um palco que só adolescentes podem pisar

De sexta a domingo, a décima edição do PANOS volta a reunir na Culturgest, em Lisboa, actores adolescentes e textos inéditos escritos para grupos de teatro em idade escolar. Tim Etchells, Miguel Castro Caldas e Pablo Fidalgo Lareo são os autores deste ano.

Fotogaleria
Ponto da Situação
Fotogaleria
Só há uma vida...

São adolescentes em palco a fazer de adolescentes. A falar do seu tempo, das suas inquietações, de violência, das pressões para integrar um grupo, das ansiedades ligadas à afirmação de uma identidade, da construção de um ser em relação com a comunidade e com o mundo.

Desde 2006 que é assim no palco da Culturgest, desde que a instituição adaptou para Portugal o programa Connections, do londrino National Theatre, criado há 20 anos quando professores e encenadores britânicos imploraram por textos novos que pudessem entusiasmar os seus alunos.

Em Portugal, o programa chama-se PANOS (Palcos Novos Palavras Novas) e segue o modelo britânico ao encomendar textos originais a dramaturgos portugueses e ao traduzir alguns do património riquíssimo que o Connections já acumula. Este ano, na sua décima edição, o PANOS propôs a 40 grupos escolares fazerem a estreia absoluta de textos de Tim Etchells (em co-encomenda com o Connections e ainda integrado na bienal Artista na Cidade), Miguel Castro Caldas e Pablo Fidalgo Lareo. De cada peça, chegam duas versões à Culturgest, apresentadas de sexta a domingo.

Francisco Frazão, programador de teatro da Culturgest e responsável pelo PANOS, afirma ao PÚBLICO que o projecto “foi mais fácil de adaptar do que o esperado”. “Houve muita abertura por parte dos grupos de teatro escolares e juvenis para participar, conseguimos sempre ter um número muito significativo de interessados e foi sempre muito simples convencer os autores a escreverem uma peça para adolescentes”, comenta. De repente, em vez de ficarem circunscritos a criações colectivas mais ou menos inspiradas e às habituais passagens por Gil Vicente, os jovens actores podiam estar a representar textos novos de Ali Smith ou Mark Ravenhill (traduções do Connections) ou inéditos de Tiago Rodrigues, Rui Cardoso Martins, André e. Teodósio ou Gonçalo M. Tavares.

Antes da pausa
Não só esta experiência é enriquecedora para os alunos como também para os encenadores de cada grupo, aos quais é dada a possibilidade de participar num workshop com os autores, afinando abordagens possíveis para os textos. Mas parte do aliciante passa igualmente por “um equívoco” que Frazão insiste em tentar desmontar: a ideia de que o PANOS é um concurso. “Tento dizer que não, só que na cabeça dos actores adolescentes é uma espécie de cenoura. Mas a experiência é muito interessante independentemente de virem ou não ao festival.” E isto porque uma das condições para que possam tentar chegar à Culturgest, é a estreia do espectáculo nos seus palcos locais. Nesse momento de visibilidade máxima do PANOS para o exterior, no entanto, dá-se um outro efeito fundamental: observar outros espectáculos, incluindo uma outra versão da peça que trabalharam, “transforma a maneira de olhar para o teatro, para os textos e para eles próprios”, argumenta Frazão. Nem que seja para argumentarem que a sua versão é mais bem conseguida.

Desta vez, numa edição que tem como elemento comum a ausência de uma narrativa a guiar os textos, poderemos assistir a “uma imprecação permanente contra o público que é também uma espécie de diário íntimo” (Só Há Uma Vida e nela Quero Ter Tempo para Construir-me e Destruir-me, de Pablo Fidalgo Lareo), “uma típica lista do Tim Etchells em que os adolescentes constroem uma imagem do mundo a partir da dicotomia sabemos / não sabemos, que vai do quotidiano ao científico e metafísico” (Ponto da Situação) e uma proposta que estabelece “uma equivalência quase escandalosa entre um actor que recita um texto em cena e um refém do Estado Islâmico a dizer um texto com uma arma apontada à cabeça” (Diálogos, de Miguel Castro Caldas). Em palco estarão Grupo Pê da Animateatro, Grupo de Teatro Na Xina Lua, Grupo Cénico do Colégio José Álvaro Vidal, Grupo de Teatro Juvenil do Virgínio e Sexta Insónia.

Depois de domingo, o PANOS encerra para balanço durante um ano. Para se repensar e combater rotinas instaladas. Pois que não adormeça.