Mediatização da violência conduz a mais violência, avisa David Justino

Ex-ministro e presidente do Conselho Nacional de Educação propõe a introdução de mecanismos de auto-regulação ética dos media para evitar “esta avalanche constante de banalização da violência”.

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Não são conhecidos estudos, mas o ex-ministro e presidente do Conselho Nacional da Educação (CNE) David Justino acredita que a violência entre jovens, dentro ou fora da escola, mais visível nas últimas semanas com a exposição dos casos de dois rapazes agredidos, também é o efeito da extrema mediatização de episódios violentos na sociedade. David Justino considera que a “avalanche” de imagens chocantes que todos os dias passam nos telejornais ou são mostradas na imprensa escrita ou suportes digitais conduz a “uma banalização da violência”.

“Isso tem um impacto”, afirmou frente a uma plateia de investigadores, deputados, representantes e responsáveis de escolas e representantes sindicais, entre outros, na conferência que a comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura organizou na Assembleia da República, nesta quarta-feira, através do seu grupo de trabalho criado para reflectir sobre o fenómeno da indisciplina em meio escolar. A questão, vincou, é que o grau de violência está cada vez mais generalizado a vários níveis. E deu o exemplo dos episódios mais frequentes e mais violentos no seio da família, que são noticiados e que, ao mesmo tempo, podem ser o resultado dessa banalização exposta nos media. E apelou à introdução de “alguns mecanismos de auto-regulação ética dos media” para evitar “esta avalanche constante de banalização da violência”. “A escola não fica incólume perante isto.”

“Os problemas da indisciplina não são de hoje”, disse David Justino. “O mais grave são as expressões de indisciplina veiculadas através de uma violência chocante. E o problema grave nas nossas escolas são essas expressões, ainda que confinadas, de violência”, disse o ex-ministro da Educação do Governo de Durão Barroso, entre 2002 e 2004.

A violência entre jovens, essa sim, tem aumentado em frequência e gravidade, sobretudo nos últimos sete a oito anos, disse ao PÚBLICO, a propósito dos recentes casos conhecidos de dois rapazes agredidos, na Figueira da Foz e em Leiria: o primeiro exposto através de um vídeo divulgado com imagens de um rapaz de 16 anos a ser agredido por um grupo de rapazes e raparigas; o segundo,que envolveu um rapaz de 12 anos que era vítima de bullying e agressões dos seus colegas, dentro e fora da escola, o Colégio do Senhor dos Milagres, há vários meses. “Estes casos não aconteceram dentro da escola, mas podiam ter acontecido”, concluiu, para dizer que este problema é um problema da sociedade mas é também um problemas das escolas.

Na sala de aula e na escola

As primeiras intervenções na conferência centraram-se na indisciplina na sala de aula, que tem vindo a aumentar, ou dentro da escola. A formação de professores e pessoal não docente para lidar com a indisciplina e a estabilidade dos profissionais nos estabelecimentos onde são colocados foram outras propostas vindas de oradores ou de participantes no debate.

O mau comportamento na sala de aula é um reflexo do que se passa na sociedade, referiu Filinto Lima, director do agrupamento de escolas de Vila Nova de Gaia, sobre o problema da indisciplina e da falta de regras.

“A situação não é assim tão dramática”, disse sobre a indisciplina na sala de aula João Lopes, professor da Universidade do Minho que apresentou parte dos resultados de um estudo realizado junto de 3390 professores de vários distritos do país, juntamente com Célia Oliveira, professora da Universidade Lusófona do Porto.

O estudo que incide no Ensino Básico, Secundário e Superior, concluiu, entre outras coisas, que a maioria dos comportamentos de indisciplina não têm gravidade mas que a frequência com que acontecem é perturbadora do bom desenrolar dos trabalhos na sala de aula. “É preciso saber gerir o grupo, para além de saber ensinar”, disse João Lopes. Os dois académicos sugerem também que a indisciplina pode ser reduzida de forma substancial quando há uma aposta no rendimento académico, desde o início da formação escolar.

“Aproximar os piores dos melhores” alunos sem excluir os primeiros deve ser uma preocupação sempre presente, recomendaram. Como disse também David Justino, “a indisciplina é muito uma revolta”. Uma revolta relativamente a “alguma exclusão, a algum estigma e a um sentimento de que a escola não fez tudo o que devia ter feito” para evitar o insucesso escolar daquele aluno. Combater desde cedo o insucesso será uma forma de prevenir a indisciplina. “Podemos sempre culpar a família, o Ministério [da Educação], a austeridade, mas perceber a natureza do problema é a melhor forma de o compreender”, concluiu David Justino.