Zuma pede desculpa pela violência xenófoba contra moçambicanos

Presidente sul-africano visita Maputo em momento “menos bom” do relacionamento bilateral. Agenda oficial está centrada nas relações económicas

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Zuma recebido por Nyusi, à chegada a Maputo SÉRGIO COSTA/AFP

Mal chegou a Maputo, Jacob Zuma quis afastar as nuvens que poderiam ensombrar a visita de dois dias que esta quarta-feira iniciou a Moçambique. “É importante para nós apresentar desculpas em nome da minoria de sul-africanos que se portaram mal”, disse, numa alusão à violência xenófoba contra imigrantes africanos, muitos deles moçambicanos, que em Abril abalou a África do Sul.

Zuma teve presente que a deslocação ocorre num momento “menos bom” do relacionamento entre os dois países, como há dias o definiu o ministro dos Negócios Estrangeiros de Maputo, Odemiro Balói, após a detenção de cerca de um milhar de moçambicanos indocumentados na África do Sul.

Recebido pelo Presidente Filipe Nyusi no aeroporto de Maputo, e, ao início da tarde, no palácio presidencial, Jacob Zuma, acompanhado por vários ministros, visita Moçambique numa altura em que, segundo o diário O País, o executivo sul-africano “não é bem visto por certos sectores de opinião” devido à onda de violência, que provocou a morte de pelo menos três moçambicanos e obrigou ao regresso de milhares, bem como às recentes detenções.

Na semana passada 947 moçambicanos foram detidos numa operação policial e quase metade foram imediatamente deportados para o país de origem. O executivo moçambicano não escondeu o desconforto. “Fomos colhidos de surpresa por esta acção do Governo sul-africano. Esperávamos que depois dos ataques xenófobos houvesse alguma acalmia e se procurassem meios e formas de resolver o problema de fundo, que é o problema da imigração ilegal”, disse, citado pela agência AIM,

Com o pedido de desculpas, reproduzido pela agência AFP, Jacob Zuma – primeiro chefe de Estado estrangeiro a visitar Maputo desde que Filipe Nyusi tomou posse, em Janeiro – quis centrar a visita na agenda que interessa à África do Sul, e interessa também a Moçambique: a cooperação e os negócios, designadamente no sector da energia.

Na véspera da chegada de Zuma a Maputo, Nyusi lembrou que se quisesse “evitar dar a cara” o Presidente sul-africano teria dito que este não é o “momento conveniente” para a deslocação e adiaria a visita.

“Queremos que os moçambicanos vejam a visita do Presidente Zuma como mais uma oportunidade para nos juntar e reflectirmos sobre a cooperação política, boa vizinhança, o grande impacto económico daquele país na nossa economia, os seus investimentos entre outros aspectos”, afirmou, também, quando na terça-feira concluiu uma visita à Tanzânia.

A presidência moçambicana divulgou uma nota de imprensa segundo a qual a visita do Presidente da África do Sul se enquadra no “contexto do fortalecimento e aprofundamento das relações de irmandade, amizade e cooperação” entre os dois países.

O relacionamento com o país vizinho, importante parceiro comercial, é muito relevante para Moçambique: na África do Sul vivem, segundo a diplomacia de Maputo, mais de dois milhões de moçambicanos, dezenas de milhares trabalham nas minas e na agricultura.

Apesar do mal-estar criado pela violênia xenófoba e deportações de emigrantes moçambicanos é um fortalecimento da cooperação e do relacionamento económico, eventualmente com novos negócios, que se deve esperar da visita de Jacob Zuma.

A África do Sul, que já é um importante cliente de energia eléctrica produzida na barragem de Cahora Bassa, precisa de aumentar as importações de gás natural e electricidade para fazer face aos graves problemas de falta de energia que estão a afectar a sua economia. E esse é um assunto que, segundo a imprensa moçambicana, não deixará de estar presente nas conversações ministeriais de Maputo.