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Birmânia "compreende" preocupação com imigrantes mas diz que não tem culpa

Crise dos boat people" no Sudeste asiático vai ser discutida numa reunião de ministros, na Malásia.

Uma mulher rohingya, depois de ter desembarcado na Indonésia
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Uma mulher rohingya, depois de ter desembarcado na Indonésia ROMEO GACAD/AFP

O Governo da Birmânia diz “compreender a inquietação internacional” com os milhares de imigrantes que andam à deriva nos mares do Sudeste asiático, muitos da desprezada minoria muçulmana rohingya, que fogem do país, e que ninguém quer receber. Mas recusa reconhecer as suas responsabilidades na crise, apesar de muitos desses imigrantes serem parte dos 1,1 milhões de rohingya nativos do estado birmanês de Rakhine, onde vivem num verdadeiro apartheid.

Em vez de acusarem a Birmânia, estes problemas devem ser resolvidos entre parceiros regionais”, afirmou o ministro da Informação, Ye Htut, citado pela AFP. “Os países da região querem trabalhadores baratos que possam tratar como escravos, sem respeitarem os direitos humanos, e que possam matar discretamente sem que ninguém repare”, disse à Reuters Zaw Htay, um alto responsável do gabinete do Presidente.

Mas a Birmânia recusa ir à reunião de ministros de Negócios Estrangeiros marcada para esta quarta-feira, na Malásia, para discutir a situação agravada pela recente decisão tailandesa de reprimir severamente o tráfico de seres humanos, desarticulando várias redes.

Neste encontro, estarão presentes os países mais procurados por estes novos boat-people, a Indonésia e a Malásia, que já recebeu 120 mil imigrantes ilegais da Birmânia. Desde o Verão de 2012 que cerca de 140 mil pessoas da etnia rohingya fugiram da Birmânia, de acordo com a ONU, constituindo o maior êxodo na região desde a Guerra do Vietname.

Só no domingo, foram detectados pelo menos cinco navios com cerca de mil imigrantes ancorados ao largo da costa Norte da Birmânia. Aparentemente, as redes de contrabando que gerem estas rotas migratórias não arriscam prosseguir a viagem com destino à Malásia para não serem interceptados pelas autoridades, mas também não deixam os imigrantes sair dos navios.

Segundo as estimativas das Nações Unidas, nos primeiros três meses deste ano, cerca de 25 mil imigrantes do Bangladesh e da Birmânia foram transportados por traficantes.

A ONU fez um apelo humanitário aos Governos do Sudeste Asiático, sublinhando que têm obrigação de resgatar os náufragos em risco de vida no mar, e abrir os portos e fronteiras “para ajudar os mais vulneráveis que estão em necessidade”. No entanto, um porta-voz do Alto Comissariado para os Refugiados dizia que “não se observava qualquer movimento nesse sentido de nenhum Governo da região”.

O partido da Prémio Nobel birmanesa Aung san Suu Kyi – criticado por se estar a manter silencioso sobre os rohingyas – pronunciou-se nesta segunda-feira. “São seres humanos. Não podemos simplesmente mandá-los para o mar. Também têm direitos”, declarou Nyan Win, porta-voz da Liga Nacional para a Democracia, citado pela AFP.