Dinamarca quer ver-se livre das notas e moedas

O objectivo é acabar de vez com os pagamentos em dinheiro, incentivando os estabelecimentos comerciais do país a aceitar apenas transacções por cartão multibanco ou via smartphone

A Dinamarca já lidera no número de pagamentos por cartão de crédito
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A Dinamarca já lidera no número de pagamentos por cartão de crédito Nelson Garrido

A Dinamarca quer dar um passo em frente. O país, tal como a Suécia e a Finlândia, é um dos Estados onde se realizam menos transacções em dinheiro no dia-a-dia. A ambiciosa proposta do Governo dinamarquês pretende “facilitar a vida” de consumidores e vendedores, acabando com as filas de espera e diminuindo as probabilidades de furto, deixando aos retalhistas a decisão de banir, ou não, os pagamentos em dinheiro.

Durante séculos a moeda foi (e ainda é) um dos principais símbolos do estatuto soberano das entidades políticas e, mais tarde, dos Estados. Mas essa realidade parece estar a mudar. A União Europeia criou uma moeda única, em vigor desde 2002, pondo em causa o paradigma da relação moeda-soberania. A Dinamarca, que até rejeitou o Euro, quer acabar de vez com o dinheiro e tornar-se, a longo prazo, numa sociedade cash-free.

A proposta do Governo da Dinamarca, apresentada no início do mês de Maio, tem como objectivo acabar com a obrigação legal, por parte dos estabelecimentos comerciais do país, de receberem pagamentos em dinheiro, tornando essa escolha livre para os vendedores e retalhistas. O projecto não é alheio à realidade do país, uma vez que a Dinamarca já lidera no número de pagamentos por cartão de crédito por habitante, no quadro europeu, juntamente com a Suécia e a Finlândia.

Para além do número elevado de pagamentos por cartão, cerca de um terço dos dinamarqueses utiliza o MobilePay, uma aplicação para smartphones que permite a transferência de dinheiro para outros telefones ou directamente para as lojas, gerida pelo maior banco da Dinamarca, o Danske Bank.

“Estamos a negociar preços fixos como as grandes empresas”, como hipermercados, por exemplo, informou ao The Guardian Mark Wraa-Hansen, responsável do banco pela aplicação MobilePay. “Com os comerciantes mais pequenos estabelecemos um preço-fixo de 1% por cada transacção acima das 5 coroas [cerca de 70 cêntimos]: aproximadamente o mesmo preço que o pagamento por cartão de crédito”, complementou.

Com eleições marcadas para Setembro de 2015, a proposta do executivo dinamarquês surge integrada num conjunto de promessas eleitorais de crescimento económico, redução de custos e aumento da produtividade da actividade comercial do país. Apesar de ainda ter se ser escrutinada e aprovada pelo parlamento daquele país, a proposta conta já com o apoio total da Câmara de Comércio Dinamarquesa (CCD).

“A sociedade mudou tanto que já não existe a necessidade de pagamentos em dinheiro”, admitiu um porta-voz da CCD, Henrik Hytolft, à comunicação social do seu país, no dia 6 de Maio, acreditando que no caso de a proposta ser aprovada, apenas uma “pequena minoria” de dinamarqueses se sentiriam afectados.

“O nosso utilizador mais velho do MobilePay tem 104 anos”, informa Wraa-Hansen e “as nossas pesquisas demonstram que os idosos na Dinamarca preferem pagar com cartões ou smartphones”.

Segurança, rapidez e higiene
“O dinheiro tornou-se tremendamente dispendioso de levar, devido a razões de segurança”, diz Hytolft. Na verdade, a Dinamarca é um dos países com níveis de violência e furto mais baixas da União Europeia, mas a sua opinião é partilhada por uma colega da CCD, Sofie Findling Andersen.

Embora a questão da segurança seja importante, mais considerável é a rapidez das trocas comerciais. “Dependerá dos consumidores e comerciantes a decisão” de adoptar o modelo cash-free, entende Andersen, defendendo que em caso positivo, possibilitará aos consumidores “pagar mais rapidamente” e “evitar as filas de espera”. Wraa-Hansen, do Danske Bank, sugere que os consumidores poderão, através do telemóvel, “escolher o que querem comprar”, carregar accept e “simplesmente sair”, quando terminarem.

Dificuldades e riscos
Se a proposta do governo for aprovada, os vendedores poderão começar a rejeitar dinheiro a partir de 2016, informa o jornal dinamarquês The Local. A percepção geral no país aponta para que não exista grande oposição por parte dos consumidores, vendedores ou da opinião pública à nova realidade.

Ainda assim, há alguns riscos inerentes ao fim do dinheiro como forma de pagamento, nomeadamente o risco de fraude. Na vizinha Suécia, considerada a maior sociedade cash-free do planeta, os casos de fraude duplicaram na última década, segundo o Guardian. O Danske Bank optou por vincular a utilização do MobilePay ao número de segurança social de cada dinamarquês, para diminuir o risco de adulteração.

Fora da Dinamarca encontram-se adeptos do projecto, como o Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento de Capital, financiado por Bill Gates, da Microsoft, e que apoia o aceleramento da mudança em direcção aos pagamentos electrónicos. Mas também há quem não subscreva a ideia, como Carl-Ludwig Thiele, do Banco Central Alemão, que considera que a abolição do dinheiro vai contra a “soberania da escolha livre dos cidadãos sobre os seus instrumentos de pagamento”.

Tem a palavra o Folketing, o parlamento da Dinamarca.

Texto editado por Joana Amado

Notícia corrigida às 19h51 de 18/05/2015 O sistema de pagamento móvel chama-se MobilePay e não MobilePlay