Crítica Livros

Encurralados

A crise está no centro do segundo romance de Pedro Vieira, uma deriva pelo presente de uma geração precária

O olhar de Pedro Vieira sobre o seu tempo e o seu lugar é inconformado
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O olhar de Pedro Vieira sobre o seu tempo e o seu lugar é inconformado Pedro Cunha/Arquivo

O segundo romance de Pedro Vieira (Lisboa, 1975) entra para o lote ainda muito breve dos títulos escritos em reacção à crise económica e social deste início do século XXI. Em 2013, David Machado publicava Índice Médio de Felicidade (D. Quixote), um retrato dramático do desemprego contado a partir de um protagonista cuja vida entra numa espiral ruinosa a partir do momento em que perde o emprego. No final de 2014, Alexandra Lucas Coelho criava, em O Meu Amante de Domingo (Tinta-da-China), uma personagem feminina guardiã de uma imensa revolta contra um tempo castrador de identidades, déspota no modo como dita destinos. Com O Que Não Pode Ser Salvo, Vieira surge agora comum candidato ambicioso ao retrato literário de uma época, também feito a quente, sem o distanciamento que muitas vezes a literatura exige para uma reflexão mais profunda Mas, deixando de lado a questão pertinente de se saber como estes livros resistirão ao seu tempo, sem eles não teríamos a angústia e a raiva, a frustração e a vontade de abanar convenções só possíveis de captar quando estas emoções estão a moer os seus autores.

Pedro Vieira aposta num retrato abrangente de um país refém de medos, incapaz de se libertar do fantasma de um ditador, um “país pobre com uma boa rede de fibra óptica”, “cheio de gente em desespero mas sem vontade de partir a loiça, de partir a fibra, no lugar da primavera dos árabes o outono dos orgulhosamente sós”. É uma escrita crítica, cheia de uma ironia ácida, onde cada palavra encontra o seu lugar num intrincado jogo de sentidos que os leitores que já tinham lido Vieira no seu romance de estreia, Última Paragem, Massamá — sobre a vida num subúrbio da linha de Sintra —, não estranham. O olhar do escritor sobre o seu tempo e o seu lugar é inconformado e sustenta-se numa observação detalhada de costumes, na atenção à linguagem e à circunstância que determina cada existência mais ou menos ficcionada, mas sempre colada a um real que é o que sobretudo lhe interessa captar. As personagens que compõem o triângulo em que assenta este romance foram pensadas para alinhar um puzzle que pretende representar o país em várias frentes e assim restituir-lhe toda a complexidade fundadora das grandes questões deste livro: precariedade social, conformismo, desespero calado, cinismo de sobrevivência, e o amor e a amizade em tudo isto.

Janine, Tiago e Mateus são da mesma geração mas de universos distintos. Ela é filha de emigrantes portugueses em Paris e, com a morte do pai, forçada a viver numa terra onde se sente estranha, um Portugal que vai conhecendo aos supetões, em viagens de Verão e frases lapidares do pai, estrangeiro em França. É agora a vez de Janine se sentir imigrante numa terra de Trás-os-Montes de onde quer escapar — se não para Paris, para Lisboa. Tiago partilha as origens transmontanas de Janine. Desempregado, ou in between jobs — como prefere dizer —, vive em casa dos pais. É filho único de um casal de fachada de classe média alta, com muitas culpas acumuladas, e um cínico com ideias românticas, obcecado por Enrique Vila-Matas, sempre a citar sabedoria e com o sonho de um dia fazer um documentário. Por fim, há Mateus, habitante de um bairro problemático da margem Sul com um historial de marginalidade, filho de imigrantes cabo-verdianos, trabalhador-estudante à procura de melhorar a sua condição e às voltas com o preconceito e o que parece um destino pré-determinado — até que conhece Janine no emprego num call-center e fica seu amigo. Os três funcionam numa relação de ciúme e sedução que Pedro Vieira quer construir a partir da tragédia de Otelo, de Shakespeare, adaptando-a à actualidade e a uma escrita contaminada pelos meios em que se expressa, dominada pelas variantes usadas nas redes sociais, o grande meio relacional da geração retratada, os “buddies do século XXI”, assim feitos pelo Facebook, e em que a voz do narrador se dilui, às vezes confundindo-se com ela, outras assumindo tom de comando, mas quase sempre cáustica.

O artifício do narrador que vai piscando o olho às personagens e interagindo com o leitor é bem doirado. Como as frases trabalhadas para serem certeiras, condensarem uma sabedoria que resulta de uma apurada observação das gírias de rua e das cibernéticas, do pop, da rua, do rap, da taberna e da aldeia. Tudo num ritmo feroz, sem pausas. “… pode ser que te deixes enfeitiçar, sugestionar, os olhos verdes de Janine feitos espiral, como a do Vertigo, lembras-te, adoras o Vertigo o James Stewart e a mulher que afinal até pode ser duas, a Kim Novak ou a Janine, loura e morena, desamparada e estrafega, adoras os clássicos as poses os festivais as curtas os Arcade Fire os Weeknd o Frank Ocean e os projectos, os brunches o multiculturalismo e o cinismo e os ciclistas urbanos, pedalar numa Tokyo cor-de-laranja de sacola de pano ao ombro, adoras os melhores sítios onde provar um gin, as tascas mais genuínas, os chineses mais ilegais (…) um bocejo, isso, estás a sentir sono, muito sono”.

Como se a precariedade fosse uma grande vertigem que se aproveita do vazio, que se alimenta dele. É isso que aquelas relações aparentam: um vácuo num sistema. Para que servem? No romance elas nunca descolam, arrastam-se em diálogos que pressupõem uma espécie de delírio. Delirantemente vazias num desenrolar da acção com algumas notas previsíveis e pouca eficácia na gestão do drama. É a falha de Pedro Vieira, a de conseguir conduzir o drama de forma a que ele não soe secundário e o resto resulte repetitivo, como que construído em função de um ritmo feroz. A trama amorosa seria a pausa necessária uma leitura contaminada — e bem — pelo imediatismo que o autor quer retratar: todos somos consumidos por jargões, pela voragem da informação que chega e é preciso digerir o mais rápido possível, sobrepondo planos. Culturais, sociais, geográficos, linguísticos, temporais — há a referência ao outro tempo em que o FMI esteve em Portugal, 1983, o ano em que os pais de Mateus chegam a Lisboa. “…Amilcar e Neda chegam a par dos senhores do Fundo, sem gravatas nem instinto rapace ao pescoço”, vão habitar “a periferia da capital uma imensa kashbah”.

O Que Não Pode Ser Salvo

 é, apesar das falhas, um retrato inovador de um tempo e das linguagens que o dominam. Um tempo muito presente de que cada leitor se sente parte. Somos nós nesta voragem.