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Olho por olho, vídeo por vídeo

Não é por acaso que, na maior parte dos estudos realizados sobre bullying, se tem concluído que as vítimas passam frequentemente a agressores

Estalou mais um caso de bullying nos meios de comunicação (que se continuam a safar com violações gritantes à ética jornalística) e, subitamente, o problema é (re-re-re-re-re-…)descoberto por pessoas, de vários quadrantes, e com níveis aproximadamente iguais de fúria. Fúria contra a geração. Ou fúria contra os pais.

Fúria contra as redes sociais. Fúria contra o YouTube. Fúria contra a escola (com “e” minúsculo, a local, a específica).

No meio dessa fúria ou, antes, como resultado dela, surgem aquilo que podem ser consideradas as propostas educativas das pessoas furiosas: mães e pais que dizem, de punho cerrado, «Se fosse o meu filho, iam ver!»; cidadãs e cidadãos anónimos que exclamam que as raparigas em questão mereciam «apanhar igual para ver se gostam»; peritos e peritas que rapidamente identificam «o que acontece quando não se dá umas boas chapadas em tempo útil».

Ou seja: a fúria contra a violência gratuita e contra a sua exibição pública resulta em apelos públicos a mais violência. A diferença, argumenta-se, é que uma violência é pedagógica e a outra é, lá está, gratuita. Esta ideia da violência pedagógica é antiga: o Código de Hammurabi, um dos mais antigos textos legais conhecidos (cerca de 1700 A.C.), já contempla essa noção através da famosa lex talionis. “Olho por olho, dente por dente”, assim reza a versão popular. Porém, com uma dose suficiente de cinismo, poderemos dizer que toda a violência é, de facto, pedagógica: é a pedagogia do medo, do ressentimento, da replicação da vingança. Não é por acaso que, na maior parte dos estudos realizados sobre bullying, se tem concluído que as vítimas passam frequentemente a agressores (quer mais tarde, quer em contextos sociais diferentes).

Assim, as pessoas que promovem o famoso «fazer-lhes o mesmo para verem o que custa» estão, queiram ou não, a validar o tipo de comportamento que vê na violência interpessoal uma forma de exercer poder – isto é, de modificar o comportamento das outras pessoas de acordo com o que nós desejamos.

(E sim, antecipando possíveis objecções: também passei por cenas bastante más de bullying na minha adolescência. E também me ferveu de morte o sangue na altura. Precisei de uns quantos anos para entender que adicionar violência a um ciclo de violência é fazer mais do mesmo.)

Esta fúria toda, na sua pressa de justiça popular, volta a deixar de lado o contexto. Não o contexto míope do «pai ausente» ou da «escola irresponsável», e muito menos o contexto fantasista dos «jogos violentos» ou da «música satânica». Falo do contexto do aumento da pobreza, do aumento do trabalho precário, da diminuição sucessiva e metódica dos apoios (financeiros e outros) sociais a quem precisa deles, falo da destruição e mecanização compulsiva do sistema educativo. Falo do aumento enorme do desemprego jovem. Falo de pessoas que estão a crescer e que, à sua volta, só vêem incertezas, becos sem saída, falta de apoio, falta de tempo, falta de acompanhamento e cada vez mais exigências a lhes serem feitas. Estas jovens, se ainda não tinham sido vítimas de bullying no passado, estão a sê-lo agora – e não acredito, porque provas não existem, que é com bullying que se combate o bullying.

No meio de tanta violência de Estado, não deve espantar-nos a violência interpessoal aumente. Mas espero que nos motive – agora sim – a lutar contra a violência de Estado. Contra a violência das instituições e do seu poder desigual – e não contra os bodes expiatórios do momento.