O erro de Ed Miliband

Os britânicos, ou pelo menos a parte deles que decidiu o resultado eleitoral, desconfiaram do projecto trabalhista.

O caldo de cultura favorável à emergência de uma ruptura estava criado desde há algum tempo: a economia britânica dava sinais de enorme debilidade, os conflitos sociais tinham atingido proporções insuportáveis, o corajoso Governo trabalhista dirigido por James Callaghan estava sob fogo permanente dos sindicatos e já não conseguia assegurar o devido apoio no interior do próprio partido. Margaret Thatcher irrompeu vertiginosamente na cena política britânica impondo uma mudança radical na governação do país: promoveu o recuo do Estado social, destroçou fortíssimos sindicatos tradicionais, privatizou empresas e serviços públicos, desregulamentou o sector financeiro, flexibilizou o mercado laboral e diminuiu drasticamente a carga fiscal incidente nos rendimentos mais elevados. O pensamento político subjacente a tudo isto quase se resumia inteiramente na célebre fórmula back to basics. No fundo, tratava-se de regressar ao liberalismo económico e a uma ordem moral estritamente conservadora. Essa era a receita para desbloquear uma sociedade em estado de pré-paralisia. Exibindo um excepcional voluntarismo político (o que não deixa de ser curioso numa apologista da ordem espontânea do mercado e da sociedade, tal como preconizava o seu mentor intelectual Friedrich Hayek), a enérgica primeira-ministra superou múltiplas resistências e impôs a chamada "Revolução Conservadora". O rosto da Grã-Bretanha mudou significativamente.

É certo que Thatcher contou com a ajuda do ambiente de comoção nacional gerado pela guerra das Malvinas para superar a sua imensa impopularidade e lograr vencer as eleições no final do seu primeiro mandato. Nos anos subsequentes, porém, o Governo conservador impôs com sucesso a sua linha ideológica a um país em grande mutação. Thatcher tornou-se a heroína das classes médias ascendentes do Sul de Inglaterra e projectou-se como uma figura de expressão internacional. Durante muitos anos, e várias eleições, o Partido Trabalhista confrontou-se com o reiterado afastamento do eleitorado britânico. A razão para esses sucessivos insucessos parece-nos hoje óbvia – a revolução thatcheriana alterou o próprio enquadramento mental desta sociedade. Claro que para isso também concorreram várias transformações resultantes da revolução tecnológica que por essa época se acelerava. Havia quem, com a habitual leviandade dos oráculos de ocasião, se atrevesse a antecipar o fim do movimento trabalhista.

Em meados dos anos noventa, surgiu Blair e, com ele, o New Labour. A mudança entretanto operada no trabalhismo britânico não era de somenos: inspirado numa nova linha de pensamento concebida por alguns proeminentes teóricos políticos, de onde se destacava a figura de Anthony Giddens, o New Labour assentava num novo posicionamento ideológico que pretendia situar-se entre as velhas receitas da social-democracia histórica e o neoliberalismo então prevalecente. Acabava de chegar a “Terceira Via”, e com ela Tony Blair reconduziu um amplamente renovado Partido Trabalhista ao poder e ganhou três eleições sucessivas. A essência do blairismo resume-se em quatro orientações nucleares: respeito pelo rigor orçamental, incentivo à modernização empresarial, promoção da qualificação das pessoas e reorganização do Estado-providência. O balanço da sua acção histórica nunca foi feito com a devida objectividade, dada a forma como terminou a sua actuação em Downing Street – completamente associado a Bush na aventura iraquiana. Blair aparecia, definitivamente, como uma bête noire aos olhos de uma parte significativa da esquerda europeia, que, aliás, nunca o apreciara excessivamente.

No passado domingo, Tony Blair regressou momentaneamente ao mundo da política britânica. Publicou um artigo no Daily Telegraph relembrando a validade do axioma que eleitoralmente sempre o norteou – tudo se ganha e tudo se perde ao centro. Nesse axioma há certamente muito mais do que simples calculismo político – há também um modelo de governação para o nosso tempo. Ed Milliband, o candidato trabalhista derrotado, optou por um caminho diferente. Renegou a herança blairiana e reposicionou o partido substancialmente mais à esquerda, com um discurso insuficientemente atento às questões económicas e muito centrado na apresentação de promessas no plano social. Os britânicos, ou pelo menos a parte deles que decidiu o resultado eleitoral, desconfiaram deste caminho. Há indubitavelmente mais razões para explicar este insucesso mas esta parece-me a mais importante. Na hora da verdade, o projecto trabalhista soçobrou por um problema de credibilidade. Claro que o futuro não passará por um regresso acrítico ao blairismo e aguarda-se com expectativa a discussão que antecederá a escolha de um novo líder. Agora uma coisa ficou clara – o centro-esquerda só está em condições de ganhar eleições se associar credibilidade económica com um forte compromisso com a justiça social.

Se no nosso país há alguma ilação a retirar deste acontecimento ela é a de que António Costa andou acertadamente quando optou por fazer preceder a redacção do Programa Eleitoral do PS pela apresentação de um rigoroso documento de enquadramento económico elaborado por pessoas de inquestionável qualidade. Dado o acerto deste primeiro passo, está construída a expectativa de prossecução por um caminho alheio a cedências desajustadas e motivadas por simples atavismo ideológico.