Crítica

Avalanche

Ruben Östlund põe em movimento um questionamento que não deixa ninguém incólume.

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Uma família, uma avalanche, um jeu de massacre impiedoso DR

Há qualquer coisa de “acidente de automóvel”, de voyeurismo impiedoso, em Força Maior, sobre uma família que enfrenta nas férias perfeitas a compreensão da sua imperfeição: é um jeu de massacre que o sueco Ruben Östlund filma metódica, impiedosa e frontalmente, dispondo as suas personagens como outras tantas peças num tabuleiro laboratorial — como porquinhos-da-índia usados numa experiência comportamental.

Mas o que faz Força Maior transcender a mera entomologia niilista é o modo como o formalismo do dispositivo (uma família, fechada numa estância de esqui, ao longo de uma semana) abre espaço para a revelação das personagens: é como se a avalanche que assusta todos se transformasse numa avalanche emocional, que leva toda a gente — incluindo o espectador — a pôr literalmente tudo em causa. E fá-lo na convergência de cineastas tão diferentes como Stanley Kubrick (é impossível não pensar no Shining), Michael Haneke (aqui também se fala de “brincadeiras perigosas”) e Steven Spielberg (a estância de esqui é um outro tipo de “parque jurássico”). Por onde se quiser ver, Força Maior é daqueles filmes que não se fecham.