Petras Gagilas
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Sangue, gays e discriminação: uma exclusão inaceitável

A pergunta "se é homem teve contactos sexuais com homens?" serve assim apenas para excluir os dadores seguros homossexuais e não dadores de risco

Na sua crónica no "Público" de 5 de Maio de 2015 “Sangue, gays e discriminação”, João Miguel Tavares tenta justificar a exclusão dos Homens que têm Sexo com Homens (HSH) da dádiva de sangue. A premissa é incontestável: a seleção de dadores tem de ser feita com base em critérios científicos e objetivos, que ignore ideologias, tendo por objetivo adquirir sangue o mais seguro possível. A sua falha é não perceber que é exatamente por isso que não se deve excluir os HSH.

Se a solução segura fosse a exclusão dos grupos que apresentam maior risco de doar sangue contaminado, então deveríamos excluir pessoas segundo o seu género, etnia, nível de escolaridade, meio económico e eventualmente até o bairro onde vivem. Olhando para estes fatores, encontramos sempre segmentos de população para além dos HSH com (muita) maior prevalência de VIH. No entanto, nenhum desses grupos é excluído. Fazê-lo seria cientificamente incorreto e é simples perceber porquê: por exemplo, a pobreza e a falta de formação estão associadas ao menor acesso e uso de métodos de proteção sexual; no entanto, é a falta de uso desses métodos de proteção que provoca as transmissões de ISTs. Não se transmite VIH por se ser pobre ou menos formado. Logo, o correto é questionar se a pessoa se protegeu ou se expôs nos contactos sexuais, quantos parceiros teve, e não excluí-la por ser pobre, negra, ou homossexual. E essas perguntas já fazem parte dos questionários atuais, e já fazem a exclusão dos dadores de risco. A pergunta "se é homem teve contactos sexuais com homens?" serve assim apenas para excluir os dadores seguros homossexuais e não dadores de risco.

Exclusões feitas por grupos e não por comportamentos são arbitrárias: excluem os grupos que é aceitável discriminar, em vez de representarem uma seleção rigorosa e científica. São os HSH a ser excluídos, mas poderiam ser os negros, os pobres ou as pessoas com menor formação a ser o alvo.

Uma recolha de sangue segura tem de se basear numa avaliação de fatores de causalidade (comportamentos de risco) e não em médias de grupo (grupos de risco), tal como foi concluído pela comunidade científica que trabalha nesta área. A exclusão arbitrária dos HSH da dádiva de sangue não tem sustentação científica e trata os dadores homossexuais sem rigor, sem consideração e sem dignidade. E isso é inaceitável.

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