Miopia: a culpa é da falta de sol

Em pouco mais de dez anos, a incidência desta doença entre estudantes universitários em Portugal praticamente duplicou. O facto de a população passar cada vez menos tempo ao ar livre é um dos factores que explicam o aumento da incidência deste problema de visão.

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Daniel Rocha

Estamos a ver cada vez pior. Passamos oito (ou mais) horas dentro de portas, no trabalho ou na escola; o tempo livre é escasso e muito dele é passado com os olhos postos em livros ou nos ecrãs, cada vez mais pequenos, de televisões, computadores, tablets e smartphones; e os momentos de lazer vividos ao ar livre são ainda mais raros. Esta combinação de factores explica o facto de a miopia se ter convertido numa uma epidemia global. Em Portugal, os poucos estudos existentes mostram que a doença tem crescido de forma galopante ao longo da última década entre os mais jovens.

“Esta é uma doença de países desenvolvidos”, explica o investigador da Universidade do Minho (UM) Jorge Jorge, que lidera o Laboratório de Investigação em Optometria Clínica Experimental, um dos poucos laboratórios científicos nacionais que se tem dedicado ao estudo da miopia. O aumento da prevalência desta patologia começou a ser notada em meados do século XX, com o aumento da escolaridade obrigatória. Por isso, durante muito tempo, a investigação sobre esta doença concluiu que havia uma correlação forte entre o número de horas que as crianças passavam a ler e a estudar e a existência deste problema de visão.

O que não se conhecia era a explicação para isto acontecesse. Até que, em 2008, uma equipa da Universidade Nacional da Austrália, em Camberra, mostrou que é a falta de actividade ao ar livre o principal factor que potencial o seu desenvolvimento. “A exposição à luz ajuda à libertação de dopamina, um neuro-transmissor que protege o olho”, explica Maria João Quadrado, presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO). Por outro lado, o facto de as crianças passarem muito mais tempo em actividades no interior, faz com que utilizem muito mais a visão central e menos a visão periférica, o que também contribuiu para que não haja um crescimento simétrico do globo ocular, explica a mesma responsável.

O principal foco das investigações têm sido as crianças e os jovens, porque é nestas idades que a doença de desenvolve mais. Todavia, os estudos mais recentes têm sublinhado também a existência da chamada miopia tardia, que surge em adultos, mas cujas causas são exactamente as mesmas: o contacto escasso com a luz solar.

A equipa da universidade australiana que descobriu este efeito está agora a desenvolver um novo trabalho, a partir do qual já concluiu que, para que haja um efeito protector da luz solar na saúde dos nosso olhos, será preciso passar pelo menos três horas por dia com mais de 10 mil lux (unidade de medida para a luz) de iluminação. “A iluminação nas nossas casas ou das escolas anda nos 500, 600. Valores como estes só se conseguem ao ar livre”, explica Jorge Jorge. “Se pensarmos quanto tempo por dia os nossos filhos estão ao sol ou a apanhar luz solar directa, se calhar concluímos que não estão nenhuma ou que estão menos de uma hora”, acrescenta o mesmo especialista.

São muito recentes os dados sobre a prevalência da miopia em Portugal. Um trabalho divulgado no mês passado pelo grupo de Jorge Jorge na UM mostra um “aumento brutal” da miopia entre os estudantes universitários. Nos últimos 12 anos, o número de estudantes do primeiro ano das licenciaturas da Escola de Ciências da UM que sofre de miopia praticamente duplicou, passando de uma taxa de 22%, em 2002, para 42%, quando o estudo foi repetido no ano passado.

“Este é um trabalho dedicado a uma população específica e, provavelmente, na população geral o valor será ligeiramente menor”, avisa Jorge, sublinhando, ainda assim, a “importância de perceber este aumento bastante grande” da prevalência da patologia em pouco mais de uma década.

Entretanto, este laboratório da UM começou também a estudar a miopia em populações mais jovens, em escolas da região, e encontrou um cenário de progressão gradual da incidência da doença ao longo da vida. Entre as crianças com 6 a 8 anos de idade, a prevalência de miopia é inferior a 5%, “um valor residual”, segundo Jorge Jorge. Mas, de acordo com os mesmos dados preliminares do estudo – referentes ao ano lectivo 2013/2014 –, entre os adolescentes o número de míopes sobe já para os 20%.

E este é um número que não para de aumentar nos anos seguintes, como a investigação do Laboratório de Investigação em Optometria Clínica Experimental da UM vem demonstrando. O primeiro grupo de alunos, que foi testado em 2002, foi acompanhado ao longo dos três anos de curso. A prevalência de miopia entre eles aumentou 5 pontos percentuais durante esta fase da sua vida académica, fixando-se nos 27% no final da licenciatura.

O laboratório prevê começar no próximo ano o primeiro trabalho a larga escala, que considerará toda a população portuguesa e que vai permitir traçar o primeiro retrato do estado da miopia em Portugal. Os dados destes primeiros trabalhos permitem desde já concluir que o país “está a assistir a um fenómeno que já se verifica noutros países, nomeadamente nos países asiáticos, onde tem havido uma grande incidência de prevalência da miopia”, comenta Jorge Jorge.

Um artigo publicado em Março na revista Nature alertava que esta doença estava a tomar “proporções epidémicas”. As estimativas então publicadas apontavam que, até ao final desta década, cerca de 2,5 mil milhões de pessoas de todo o mundo terão miopia – ou seja, mais de um terço da população mundial. A Organização Mundial de Saúde prevê também que reste número possa duplicar até 2050, sendo a prevalência superior nos países ditos desenvolvidos.

Neste momento, na Europa e nos Estados Unidos, cerca de metade dos jovens têm este problema, o que é o dobro dos valores que eram registados há 50 anos. Todavia, em nenhuma outra região do globo há tantos míopes como na Ásia. Há 60 anos, o número de chineses com este problema de visão não ultrapassava os 20%, hoje a patologia afecta 90% dos adolescentes. Em Seul, capital da Coreia do Sul, 96,5% dos rapazes com 19 anos têm miopia. E as taxas de prevalência estão sempre acima dos 80% em Singapura, Hong Kong e Taiwan, tendo duplicado ao longo do último meio século.

A miopia é aquilo que popularmente se descreve como ver mal ao longe. “Um olho míope é um olho mais comprido do que o normal e, por isso, a imagem é focada mais à frente, o que dificulta a visão”, explica a presidente da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, Maria João Quadrado.

Se num nível menos grave, este é um problema sem grandes repercursões na vida de uma pessoa, desde que compensado com o uso de óculos ou lentes de contacto, a partir de um terminado número de dioptrias, habitualmente oito, passa a considerar-se a miopia muito alta, à qual se "associam complicações graves”, segundo Maria João Quadrado. Cerca de 20% de míopes têm este nível elevado da doença, estando assim mais expostos ao aparecimento de cataratas, glaucoma e descolamentos de retina que, em casos extremos, podem provocar cegueira.

“Há pessoas que ficam incapacitadas de conduzir ou de desempenhar determinados tipos de profissões”, acrescenta Jorge Jorge. Por isso é que este especialista alerta para o perigo de, “dentro de 20 anos”, a miopia vir a tornar-seum “problema de saúde pública em Portugal, com custos elevados”. Neste momento, a nível mundial, são gastos cerca de 2 mil milhões de euros anuais em formas de compensação da miopia, de acordo com a Agência Internacional de Prevenção da Cegueira.

Actualmente, a forma mais comum de intervenção em caso de miopia é corrigir os seus efeitos, através de óculos, lentes de contacto ou cirurgia (laser ou implantação de lente intra-ocular). Mas a investigação dos últimos anos tem permitido abrir um novo campo com a criação de técnicas de retenção da progressão de miopia. Estes meios ópticos “têm características que impedem o crescimento do olho”, afirma Jorge Jorge. As técnicas que têm tido melhores resultados passam pelo uso de lentes de contacto que permitem moldar a imagem da retina periférica e eliminar o estímulo de crescimento que o olho até ali tinha.

Estas terapias são “ligeiramente mais caras” do que o tradicional uso de óculos e ainda desconhecidas da população, começando apenas agora a entrar em Portugal, através de algumas clínicas. Mas, estima Jorge Jorge, será possível em poucos anos que esta seja uma técnica oferecida com muita frequência, tal como já acontece em países asiáticos

Porém, antes do remédio, tem de estar a prevenção, defende o cientista. Por um lado, há uma responsabilidade que cabe às próprias famílias. “Ao fim-de-semana, em vez de levar os filhos a passear no shopping, é melhor levá-los a passear na praia ou no parque, garantindo que estão ao ar livre e recebendo o número de horas necessárias de luz solar”, defende.

Há também uma responsabilidade que é da escola. O laboratório de Jorge Jorge começou a fazer um trabalho de mapeamento das condições existentes nas escolas da região, que espera poder alargar a todo o país – se o financiamento a que se candidataram da Fundação para a Ciência e Tecnologia for aprovado. “As salas de aula precisam de ter mais luz, melhor iluminação e janelas com mais luz a entrar. Mas também é preciso aumentar o tempo dos intervalos e obrigar os alunos a irem para fora brincar, em vez de ficarem nos corredores a jogar no telemóvel”, propõe. A inspiração é um projecto-piloto lançado recentemente na China, em que existem turmas para as quais foi aumentado o número de horas de exposição solar, com a criação de uma disciplina de Ar: “Durante uma hora e meia têm que vir cá para fora. Não estão a fazer nada, estão a apanhar luz do sol”.