O maior falsificador do século começou a pendurar os seus quadros

Foi julgado como falsificador de quadros, o maior do século. Foi preso. Saiu e tornou-se artista em nome próprio. Agora prepara-se para a sua primeira exposição, em Munique, intitulada “Liberdade”.

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Wolfgang Beltracchi no documentário de 2014 "Art of the forgery" (Arte da Falsificação) DR

Até 2011, ninguém sabia quem era o alemão Wolfgang Beltracchi. Mas o mundo conhecia Max Ernst, Heinrich Campendok, Max Pechstein, Fernand Léger, André Derain. Pintores consagrados que Beltracchi “ressuscitou” ao pintar novas obras falsificadas destes autores.

Copiava-lhes o estilo, pintava aquilo que os grandes poderiam ter pintado. Com a ajuda da mulher, Helen, Beltracchi fez fortuna a falsificar o estilo de alguns dos maiores pintores do modernismo clássico. Enganou reputadas galerias de arte, como a Christie´s ou Shoteby´s, que gastaram milhões em obras que venderam depois a preços muito mais elevados. 

Terá sido o pai de Wolfgang Beltracchi a mostrar-lhe as técnicas dos velhos mestres. Aos 14 anos, já copiava Picasso. Restaurava e vendia quadros para pagar as contas até que lhe disseram que conseguiria que lhe pagassem muito mais dinheiro se tivesse elementos humanos nas obras. Aí pensou: “Porque é que não os pinto de raiz?”, conta no documentário Art of the forgery (2014), do realizador alemão Arne Birkenstock. 

A mulher de Beltracchi, Helen, numa fotografia falsificada

Durante 36 anos, fez mais do que isso. Para enganar o mercado da arte, Beltracchi e a mulher inventaram a história de uma coleccionadora - a própria avó de Helen -  que durante o nazismo teria comprado obras ao famoso galerista alemão Alfred Flechtheim. Nunca descurando os detalhes: revelaram fotografias em papel dos anos 30 onde a mulher de Beltracchi se fazia passar pela avó, posando junto aos quadros falsificados. Beltracchi confirma ter pintado mais de 300 obras, muitas das quais estão ainda por encontrar e identificar como sendo falsas. Muitas estarão pendurados nas paredes dos maiores museus do mundo. Para Beltracchi, não era apenas possível tal fraude. Era fácil. No documentário, há mesmo uma cena em que Beltracchi pinta uma tela e atira: “acho que consigo pintar qualquer coisa”. O interlocutor avança:

- “Vermmer?”

“Sim, esse também”.

- “Rembrandt?”

“Qualquer um dele”.

- “Leonardo?” [Da Vinci]

“Claro. Ele não é difícil. De todo”.

No filme, Beltracchi é apresentado com uma rock-star. O falsificador dos falsificadores que acredita que as suas cópias são melhores que os originais. Numa entrevista recente à BBC, diz que a única coisa que fez de mal foi assinar com um nome que não era o seu. As pinturas, essas, não tinham nada de errado. Onde falhou o perfeccionista Beltracchi? Nenhum detalhe no estilo, nenhum desvio no traço, nenhum percalço nos temas. A viúva de Max Ernst chegou a descrever a floresta que o marido pintou num dos quadros como a mais bela de sempre. Mas tinha sido Beltracchi a pintá-la.

O que o denunciou? Tinta. Uma análise química ao quadro Rotes Bild mit Pferden, de Heinrich Campendonk, datado de 1914, revelou que Beltracchi utilizou um pigmento – branco titânio – que não existia à data que os quadros teriam sido pintados. Foi condenado a seis anos de prisão. A mulher, Helen, a quatro. 

Na prisão, Beltracchi pintou retratos de outros presos. Foi libertado em Janeiro de 2015 e acaba de inaugurar a primeira exposição em nome próprio em Munique, na galeria Art room9. No texto de apresentação da exposição, intitulada Liberdade, a galeria escreve que Beltracchi pinta agora “livre das antigas restrições" de ter que manter a similitude das obras dos grandes pintores. A exposição inclui 24 obras e ainda não tinha inaugurado e já a galeria recebia telefonemas de todo o mundo com propostas de compra. A obra mais cara custa perto de 80 mil euros. Agora, o mundo já sabe quem é Wolfgang Beltracchi.