Foto

Megafone

Sevens: Um final à altura dos pergaminhos

Antes de qualquer preocupação do apuramento olímpico, é a missão imediata exigível a Portugal garantir a presença na próxima época no Sevens World Series

O facto de o Sevens se ter tornado modalidade olímpica com primeira presença nos Jogos do Rio 2016 transformou competitivamente nesta época o já tradicional Sevens World Series (SWS). E embora só os quatro primeiros qualificados tenham acesso directo ao Rio 2016, todas as outras equipas estão com os olhos postos nas qualificações regionais que qualificarão seis equipas restando um lugar a ser disputado numa repescagem mundial. E o SWS serve, naturalmente, de preparação para o objectivo de cada uma das equipas.

 

Pese o facto de Portugal não sonhar com qualquer dos quatro primeiros lugares do SWS faz, no entanto, parte do grupo de equipas que pretendem qualificar-se no apuramento regional ou, na pior das hipóteses, conseguir o apuramento através do torneio final de repescagem para o qual se qualificarão quatro equipas europeias.

 

Dito isto assim, tudo é compreensível e parece um processo sem qualquer tipo de dúvidas. Mas, no caso europeu e pelo facto de existir, em termos olímpicos, a Grã-Bretanha que engloba as equipas da Inglaterra, Escócia e Gales, as coisas não são nem fáceis, nem tão claras.

 

A Rugby Europe organiza o Grand Prix Series com três torneios - Moscovo, Lyon e Exeter - e, com o argumento de se tratar de um "Europeu", pretende - porque considera que é um direito inquestionável - que as equipas da Inglaterra, Escócia e Gales aí participem. O que parece correctíssimo.

 

E assim seria não fosse o facto de tudo levar a crer que a Inglaterra - muito graças à derrota imposta por Portugal à Austrália em Tóquio - se classificará num dos quatro primeiros lugares do SWS, classificando assim e conforme estabelecido anteriormente, a Grã-Bretanha.

 

Ora tendo a Rugby Europe considerado que o "Europeu" apuraria o primeiro classificado para o Rio 2016 - o caldo entorna-se aqui - a Inglaterra, a Escócia e Gales vão ter interferência directa numa classificação para a qual não contam por já estarem apuradas através da Grã-Bretanha. E há mais: o Rugby World é taxativo no seu documento sobre o Sistema de Qualificação - Jogos da XXXI Olimpíada - Rio 2016, escrevendo que os países já apurados não poderão participar nos torneios de qualificação regionais.     


Lê-se e pensa-se: claro como água! os três países britânicos, apurada que esteja a Grã-Bretanha, não podem jogar os três torneios europeus de apuramento para os Jogos do Rio e assim já não haverá qualquer hipótese de interferência - um qualquer país, Portugal incluído, poderia ser afastado dos lugares de acesso aos Jogos por uma equipa que não conta para o campeonato e que, como se diz por cá popularmente, não deveria rachar lenha. O que, a acontecer, traduzirá um atentado aos princípios e ética competitiva desportiva que têm por base a igualdade de oportunidades.

 

No entanto e contrariando o que deveria defender, a Rugby Europe mantém a sua posição sustentada no designado "Europeu" de que os três torneios fazem parte - e apenas pretende dar cumprimento aos ditames da World Rugby ao não permitir a participação das equipas britânicas, num propositadamente inventado - é a minha convicção - Torneio Europeu de Repescagem que se realiza em Julho. Portugal não se mostra - e bem! - conformado e mantém a sua discordância, dando conta da sua posição às diferentes instâncias internacionais a exigir a reposição dos parâmetros ajustados aos valores desportivos.

 

Havia forma de resolver o problema? Claro! bastaria que não se misturasse - por causa da particularidade Grã-Bretanha - o "Europeu" com o apuramento olímpico, fazendo torneios diferentes para apuramentos diferentes. Mas assim, como pretendem, o campeão europeu, argumentarão, pode não ir aos Jogos Olímpicos... pode e da forma que a Rugby Europe propõe, também.

 

Entrementes ao sete de Portugal outras prioridades imediatas se colocam. Entrando para as duas últimas etapas do SWS, Glasgow e Londres, na 14ª posição e com mais 8 pontos do que o Japão que ocupa a 15ª e despromovível posição, Portugal tem que garantir os pontos capazes - o que exige, no mínimo, a vitória no primeiro jogo do segundo dia de competição - para o colocarem a recato da descida. E este, antes de qualquer preocupação do apuramento olímpico, é a missão imediata exigível aos jogadores e treinadores portugueses: garantir a presença na próxima época no Sevens World Series.

 

A uma equipa que já conseguiu, esta época, empatar com a Nova Zelândia - equipa com mais títulos conquistados na variante - e vencer a Austrália - equipa candidata a um dos quatro lugares de garantem o apuramento directo para o Rio 2016 - não se pode permitir qualquer receio por ter que ultrapassar este difícil final. Esses resultados demonstraram que o sete português tem condições para ombrear com os melhores e garantir os resultados necessários, pesem embora as dificuldades sistémicas que o desporto português não profissional apresenta e que têm, naturalmente, reflexos nesta equipa, na sua preparação e na sua expressão competitiva.

 

Sem quatro jogadores habituais - Diogo Mateus, Carl Murray, José Maria Vareta e Duarte Moreira - a selecção portuguesa contará com Pedro Bettencourt e José Lima, ambos a jogar em França, a que se junta ainda o experiente Gonçalo Foro e o jovem Tiago Fernandes, recente vice-campeão europeu de sevens em Sub-19.

 

Sem terem tarefa fácil, aos jogadores portugueses exige-se que joguem de acordo com os pergaminhos de que gozam e que, com cabeça fria mas acções quentes, sejam capazes ter a atitude - essa pequenina coisa que provoca uma enorme diferença, como disse Winston Churchill* - capaz de aproveitar as oportunidades que o seu jogo de passes permite criar. E para isso será necessário a disponibilidade mental que permita o apoio permanente com convergência imediata sobre o portador da bola para que, ao invés da passagem pelo chão, seja possível a continuidade do movimento pelo jogo de passes. Se a estas capacidades de que já deram provas em mais do que uma ocasião - mas, diga-se, a que tem faltado a constância que permita a sustentabilidade de resultados - juntarem a necessária capacidade defensiva norteada pela resiliência individual de só ceder depois de colocar o adversário no chão, o sete de Portugal sairá destas duas últimas etapas em posição de retorno na próxima época. Que é o que esperámos!

 

* Passam hoje, 8 de Maio, 70 anos sobre a vitória dos Aliados que terminou com a barbárie assassina do nazismo alemão. Lembrar Winston Churchill é uma pequena justiça a todos aqueles que se bateram pela Liberdade.