Nuno Cardoso fartou-se de comida gourmet

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NELSON GARRIDO

Britânico, que o Ao Cabo Teatro estreia amanhã em Guimarães, é um exercício de simplicidade. A marca do encenador habitualmente tão presente nos seus trabalhos anula-se em favor do texto e dos actores.

Voltamos a Roma. Pouco mais de um ano depois de Coriolano, Nuno Cardoso faz o público regressar à capital do império, para novamente questionar a relação dos indivíduos com o poder. Este Britânico é, todavia, mais do que a continuação do espectáculo anterior; aliás, funciona como a sua antítese, característica reforçada pelas principais opções desta montagem: a marca do encenador está muito menos presente do que é habitual nas produções do Ao Cabo Teatro e é sobre os actores que assenta todo o peso da peça.

Não saímos do século XVIII, mas há seis décadas a separar o texto anterior, de Shakespeare, e o actual, de Jean Racine. Coriolano, o protagonista do espectáculo do ano passado, era um individuo "exuberante, assertivo, potente"; Nero, o homem que encontramos no poder na peça que amanhã (21h30) se estreia no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, "é uma fabricação da sua mãe", Agripina. "Nesse sentido, é o arquétipo do político e do gestor contemporâneos: gente fabricada pelos media, pela moda, que gere as coisas pelo medo e pelas suas pulsões", comenta Nuno Cardoso.

Além desta ligação possível à realidade contemporânea, importa pensar no contexto histórico em que o texto foi escrito. Racine cria Britânico pouco mais de uma década após Luís XIV subir ao poder. Naquele preciso momento, estão a ser criados os mecanismos do Estado centralizador e absolutista que governaria França e a levaria à Revolução. Britânico parece assim ser tão político como era Coriolano (2014), ou como, antes dele, tinham sido A Visita da Velha Senhora (2013), de Friedrich Dürrenmatt, e Medida por Medida, também de Shakespeare (2012), as obras anteriores do período da criação de Nuno Cardoso durante os anos da crise financeira.

O pensamento sobre a política percorre todo o espectáculo, ainda que Nuno Cardoso pretendesse que esse gesto fosse muito menos evidente do que nas criações recentes da companhia. "A encenação foi toda ela a negar", explica. Desde logo, evitando uma excessiva colagem entre o texto e a realidade actual. Além disso, há uma recusa de criar efeitos e desenhar grandes cenas, pelo que quase todos os movimentos no espectáculo são a uma escala "pequenina". Mesmo o quinto acto, o final da peça, foge da "assinatura" costumeira de Nuno Cardoso, que em condições normais colocaria todos os actores em cena. "Apetecia-me desaparecer face aos actores, face ao público, face a mensagens", confessa o director do Ao Cabo Teatro.

Cardoso diz-se cansado das "legendas" constantes que são colocadas na produção contemporânea, mediando excessivamente a relação do público com os objectos artísticos. Faz um paralelismo com a comida para explicar esta sua visão: "No meio de tanto gourmet e tanta tapa, uma pessoa esquece-se que nada tira o prazer de batatas com bacalhau cozido, dois ovos, grão-de-bico e molho verde. E um bom vinho tinto que pode ser o do vizinho." As coisas simples, no fundo.

Nos bastidores

O novo espectáculo do Ao Cabo Teatro, que depois da estreia de amanhã viaja pelo país numa digressão invulgarmente longa até 16 de Julho, no Festival de Almada (entretanto, haverá datas no Teatro Viriato, em Viseu, a 15 e 16 deste mês, no Teatro Municipal Rivoli, no Porto, a 28, e no Theatro Circo, em Braga, a 29 e 30, seguindo-se Coimbra e Vila Real em Junho), é um exercício de simplicidade. Um espectáculo sem grandes truques ou aparatos capazes de o defender de algo que possa correr mal. Sobre o palco temos pouco mais do que o texto, um clássico em verso (com tradução de Regina Guimarães), e sete actores, quase todos habituais colaboradores de Nuno Cardoso, como Mário Santos, Pedro Frias ou Micaela Cardoso - a única novidade no elenco é a jovem Leonor Salgueiro. Britânico assenta nos ombros dos intérpretes, que estão mais expostos; tudo está muito dependente do que possa ser a sua prestação. O encenador justifica a opção: "Apetecia-me fazer um espectáculo assim, como quem diz: isto é o que a gente consegue fazer."

O esforço que Nuno Cardoso colocou neste espectáculo foi sobretudo de contenção, e é por aqui que se define a antítese em relação a Coriolano. O exercício do ano passado era exuberante, com uma cenografia de grande escala, ocupando todo o palco. Já Britânico acontece num micro-palco, mais elevado em relação à boca de cena, contornado por uma imensa parede. É como se estivéssemos a espreitar para dentro do palácio do imperador.

Na peça, a acção tem lugar numa sala do palácio, que Nuno Cardoso (e o seu habitual colaborador na cenografia, Fernando Ribeiro) transformam em sala de espera de repartição pública - "Penso na Segurança Social, nas Finanças, na DGArtes, que são o meu pesadelo", explica o encenador -, com três cadeiras alinhadas e um dispensador de água que se tornou elemento comum deste género de lugares. Essa é uma opção cénica que reforça aquele que era já um dos elementos centrais da peça: o teatro de Racine é um teatro da retórica, da palavra, onde as principais acções acontecem fora de cena.

O que é público está-nos, desta feita, negado. É o avesso do que costuma ser a realidade. Ou seja, é como se estivéssemos perante os bastidores, que é onde, de facto, se tomam as grandes decisões. E isto volta a ser um pensamento sobre a política. Queira ou não Nuno Cardoso apontar-nos nesse sentido.