Entrevista

Há civilizações antigas acampadas na música de Colleen

Durante um par de noites, em Lisboa e Braga, a francesa Colleen mostrará a que pode soar a viola da gamba enxertada num contexto pop. Na linha da frente estará Captain of None, disco inspirado numa Jamaica remota.

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Na cabeça da francesa Cécile Schott, então com 16 ou 17 anos, havia espaço para umas quantas melodias que fossem capazes de rastejar por entre várias paredes de distorção e ruído, emergindo radiosas no meio desse som espesso e denso. Os temas de Sonic Youth, My Bloody Valentine e Pixies valiam-lhe por esse teste à melodia, à faculdade de essa melodia ainda brilhar depois de ensopada em guitarras maciças e processadas por amplificadores com o botão de volume atraído pelo limite. Era como se nos grupos que ia descobrindo procurasse versões mais extremas da sua primeira paixão – os Beatles. Torna-se por isso especialmente enigmático, até mesmo para Cécile, perceber o porquê de uma tão arrebatadora paixão pela viola da gamba, instrumento renascentista e barroco (hoje popular sobretudo nas mãos das reconstituições históricas do catalão Jordi Savall), nascida ao ouvi-lo ressoar no filme Todas as Manhãs do Mundo, de Alain Corneau.

Talvez tenha sido, afinal, cativada pelo tom trágico da história de Monsieur de Sainte-Colombe, regressado a casa certo dia para se deparar com a morte súbita da sua mulher. No processo de luto retratado no filme de Corneau, Sainte-Colombe acabaria por se isolar, numa recusa violenta do mundo, dedicando-se a criar as duas filhas e desenvolvendo uma obsessiva relação com a música através da viola da gamba. Cécile, sem um conhecimento ou interesse particulares sobre a música clássica, ficava repentinamente vidrada naquele som dolorosamente belo. “A música para a viola da gamba tem um palpitar muito contemporâneo, consegue ser muito meditativa e minimal, ao mesmo tempo que é muito rica em termos de ornamentação”, descreve ao Ípsilon a propósito desse primeiro embate. “Acho que há algo com uma ressonância profunda na viola que atrai pessoas que não são necessariamente versadas em música clássica.”

Aquilo que então prendeu Cécile foi sobretudo um som diferente de tudo quanto até então conhecia – passaria, mais tarde, por uma repetição menos ardente desse arrebatamento ao escutar o gamelão indonésio, mas esse foi um mero fogacho, um amor de Verão. Tal encantamento, admite a cantora e instrumentista que viria a assumir o nome Colleen para a sua vida musical, seria depois amplificado pela própria natureza da viola da gamba como instrumento de época. A viola não é daqueles instrumentos que se encontram pendurado no expositor de uma vulgar loja de instrumentos, não aparece numa montra como estrela evidente da família das cordas, não é tão-pouco ensinada em grande parte dos conservatórios. É uma raridade.

E como raridade que é, Cécile havia de penar uns aninhos até poder enfim apossar-se de uma viola. “Quando decidi comprar uma – ou mais precisamente encomendar uma, porque ou se compra em segunda mão ou se encomenda a um luthier –, procurei na Internet e descobri um construtor que fazia violas eléctricas”, recorda. “Achei isso interessante. Não queria uma viola eléctrica, mas gostei da ideia de um luthier com abertura de espírito suficiente para o fazer. Contactei-o e apanhei um comboio para Rouen só para conhecer alguém que talvez viesse a fazer uma viola para mim.” Ao ouvir a cópia de um modelo de finais do século XVII, percebeu que tinha encontrado o seu instrumento. É possível que Cécile não se tenha dado conta, mas o primeiro ciclo fechava-se – e abria-se um outro – ao escolher uma réplica do período que Todas as Manhãs do Mundo, ao colocar no ecrã Sainte-Colombe e Marin Marais, reproduzia.

Primeiro passo
A abordagem distinta à viola da gamba estava inevitavelmente traçada no percurso de Colleen. Atraída por um instrumento inscrito na tradição clássica europeia, os seus ouvidos aproximavam-no não tanto de Marais ou mesmo de Savall mas da sonoridade dos cordofones africanos. Era para essa geografia sonora que o seu mapa pessoal a remetia, graças a anos consecutivos de requisições de colecções de música de todo o mundo nos balcões de várias mediatecas de Paris. Já no tema inicial de Everyone Alive Wants Answers, de 2003, encontramos sons que apontam tanto para a kora como para o ngoni, mas na altura os ambientes hipnóticos e minimais de Colleen faziam-se do recurso a instrumentos como guitarra ou violoncelo sobrepostos em loop, a cuja espinha dorsal faltava ainda a viola da gamba. Essa seria a revolução do seu primeiro álbum verdadeiramente encantatório, Les Ondes Silencieuses, em que a viola se torna de tal forma nuclear que até a capa nos apresenta uma ilustração de Colleen, de costas, virada para o instrumento como novo centro da sua música.

Les Ondes Silencieuses, de 2007, é claramente o primeiro passo da sua reconstrução. Os sons de origem barroca inundam a música, graças não apenas à viola mas também à espineta (precursora do cravo). Mantendo a essência instrumental, Colleen partia em busca de uma nova identidade que procurava interpretar a mesma abordagem musical com instrumentos de época e loops que soavam agora muito mais artesanais. “Nessa altura estava a seguir uma trip mental zen japonesa”, lembra. “Algo que tinha que ver com ter tocado recentemente no Japão.” Apesar dessa coordenada asiática menos óbvia, nesse disco Cécile arriscava já largar o arco da viola e dedilhar as cordas em Blue sands, tema que representa confessamente a sua “primeira tentativa de fundir dois mundos – uma música contemporânea feita na viola da gamba e um ambiente mais africano.”

Em The Weighing Heart, após uma longa pausa, virar-se-ia novamente para África e para a Ásia Central, mas também para cantoras da folk britânica como Shirley Collins e Anne Briggs. Mas o universo musical de Colleen era então fortemente marcado pelas suas primeiras tentativas de utilização da voz. A voz (soprada daquela mesma feição que Julia Holter eleva a um exercício sublime), e a consequente e quase obrigatória utilização de palavras, colocava Colleen perante um acontecimento fulcral na sua vida e que até então nunca entrara de forma assumida na música que compunha. “Quando tinha 18 anos”, conta ao Ípsilon, “passei pela perda do meu irmão devido a suicídio. Quando comecei a fazer letras, no início de 2010, essa era uma das primeiras coisas sobre as quais queria escrever. Tentei escrever uma canção sobre o meu irmão, fiz imensas letras para essa canção específica e nunca funcionou. Não estava preparada.”

Restrito e ilusório
Passados dois anos, Captain of None permite-se finalmente destapar esse tema delicado. Só que em vez de se referir directamente à morte do irmão, agora que vai mais longe na abordagem ao formato de canção Colleen cria todo um conceito lírico montado a partir da ideia dos mistérios da cabeça e do coração. Diz ela: “Claro que quando uma pessoa se suicida isso levanta muitas questões sobre como essa pessoa se sentia quando estava viva. Sempre senti que é impossível conhecer verdadeiramente os outros. Por vezes, acho que podemos sentir que conhecemos bem alguém ou a nós mesmos, mas a vida mostra-nos que esse nosso entendimento é restrito, é ilusório.”

Entrando finalmente neste reduto de intimidade, Cécile não o faz em modo de striptease emocional. “Há diferentes formas de escrever letras para canções”, clarifica. “Admiro imenso pessoas que conseguem contar histórias, como o Townes van Zandt, cuja música é obviamente muito diferente da minha, mas que faz canções que conseguem partir-nos o coração. Eu não tenho o talento para contar pequenas histórias. Penso que escrevo de uma forma mais poética, sigo uma maneira mais abstracta de tentar retratar a realidade.” Colleen confessa-se assim feliz por nunca ter colocado o seu nome numa canção que possa satisfazer o mórbido prazer alheio de dizer em voz alta “oh, esta canção é sobre o irmão dela” ou “sim, sim, esta é sobre aquele desgosto amoroso”. Em vez de tentar partir corações, os seus temas enleiam-nos com voltas e mais voltas de loops cuja capacidade de comover se revela através dessa repetição.

PÚBLICO -
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ESTUDIO PRIMO

Captain of None, que se apresenta em concerto a 8 e 9 de Maio, na ZDB (Lisboa) e no GNRation (Braga), representa igualmente um aprimorar do encontro entre viola da gamba e voz, patrocinado pela sua redescoberta da música jamaicana. Ao passar a ocupar os ouvidos praticamente só com dub e sonoridades afins nos últimos anos, regressando a uma infância embalada por uma cassete de Lee Scratch Perry que os pais ouviam amiúde, ver-se-ia inspirada a procurar diferentes soluções para a sua música. Pouco há de reconhecivelmente jamaicano no novo álbum (saltar directamente para Eclipse para a excepção), mas “o impacto muito real” de que Colleen fala concretiza-se de facto em pormenores como a utilização de um pedal que permite à viola gerar linhas de baixo e a disseminação do delay pelos oito temas do disco. A Jamaica está nos detalhes. Está em técnicas de produção, nunca na sonoridade. Em canções como as magníficas Captain of none ou This hammer breaks estamos muito mais próximos de (como já antes referimos) Julia Holter em Loud City Song.

Caberá, ainda assim, a I’m kin o estatuto de canção mais reveladora daquilo que move Colleen. É aí que, referindo-se, entre outras coisas, a uma pequena escultura de 2.400 a.C. há muito encontrada no Iraque e pela qual se apaixonou há meia dúzia de anos, reivindica a verdade da sua música, dizendo-se parente de pessoas, culturas e civilizações antigas. Mesmo que não haja um grão de pó em cima das suas composições.