Passos acusa PS de “dizer o que não vai fazer”

Fez duas referências elogiosas a Durão Barroso e destacou o papel de Cavaco Silva em Belém. "O lugar de Presidente da República não é um lugar qualquer", sentenciou o líder do PSD

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Passos Coelho na comemoração dos 41 anos do PSD Nuno Ferreira Santos
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Passos e Balsemão Nuno Ferreira Santos
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Durão Barroso mereceu elogios do líder do PSD Nuno Ferreira Santos
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Pinto Balsemão Nuno Ferreira Santos
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Na sessão encerramento do 41º aniversário do PSD na noite desta quarta-feira, o presidente do partido e primeiro-ministro Pedro Passos Coelho lançou um duro ataque às propostas do PS. “Dizem o que não vão fazer”, acusou no anfiteatro da Aula Magna de Lisboa.

“Dizem o que não vão fazer, não vão respeitar as regras e os compromissos que temos com a União Europeia”, disse Passos Coelho. “O PS apresentou um conjunto de economistas disponíveis para explicarem tudo”, ironizou, desvalorizando as propostas apresentadas. Retomou, mesmo, a proposta de Marco António Costa, de submeter o conteúdo programático dos 12 economistas convidados pelos socialistas à UTAO [Unidade Técnica de Acompanhamento Orçamental] para ser aquilatada a sua viabilidade técnica. Apesar das críticas generalizadas que tal iniciativa suscitou.

“O PS propôs-se fazer o que sempre faz, dar dinheiro às pessoas para a economia crescer”, sintetizou. “Quem acredita nisto?”, perguntou à plateia. “Nós preferimos ver de outra maneira, queremos investimento e emprego para a economia crescer”, afirmou.

Para testar a solidez dos seus argumentos, Passos Coelho recordou a campanha eleitoral de Manuela Ferreira Leite, em 2009, e o aumento de salários da Função Pública decretado pelo Governo socialista. Ou seja, colou a actual oposição de António Costa à governação de José Sócrates. “Manda a prudência que o futuro que se possa antecipar venha com boas notícias, o ritmo que nos propomos é o que nos protege dos solavancos, não queremos passar pelo mesmo”, disse.

A crítica aos socialistas foi intensa mas não crispada. Pedro Passos Coelho ensaiou um discurso com tons de comicidade e recurso à ironia, despertando risos e gargalhadas da plateia. “Temos uma perspectiva de futuro mais confiante, mas o PS diz que está mais optimista que nós”, atirou. “Eles dizem que a baixa da TSU é neutra, e dizem isto sem se rirem”, disparou. Para, de seguida, em voz pausada, assegurar: “não conseguimos remover a austeridade mais depressa.”

Numa intervenção de sucessivos contrapontos, enalteceu a validade da sua política. “Estamos a apostar no crescimento porque fizemos o que era preciso, a austeridade está a ser removida porque o Governo foi bem-sucedido na sua missão”, garantiu. “Propomos recuperação gradual mas segura, reformas estruturais, mais coerência e mais democracia”, equacionou. Assim posta a questão, o PSD apresenta-se como garante contra as aventuras.

Em mais de uma hora de intervenção apoiada em pequenas notas que tirou do bolso de dentro do casaco, Passos Coelho desenhou um futuro tranquilizador. “O pior já passou, não queremos repetir o exercício de cortar salários ou pensões., mas tivemos essa necessidade”, recordou. O flashback prosseguiu. “Ter mais dinheiro no bolso e viver pior pela inflação”, lembrou.

Nas palavras da Aula Magna houve espaço para outro leitmotiv. “Estamos a libertar Portugal dos seus antigos donos, o país só pode ter um dono que é o povo”, destacou. A militância laranja rejubilou com a sugestão. “Os negócios podem-se fazer em nome colectivo para que tudo fique na mesma, mas com o PSD nada fica como dantes”, continuou o primeiro-ministro. “O poder político não é usado para proteger certas classes, certos sectores, mas ainda há forças políticas que estão erradas, que insistem que o Estado deve intervir”, lamentou. Para concluir: “o poder económico tem de estar submetido às regras democráticas”.

 Exemplo prático desta via foram, para Passos, as privatizações levadas a cabo pelo seu Governo. “Privatizações sem favores políticos, as condições estão nos cadernos de encargos”, garantiu. E ilustrou com a privatização da EDP. “Diziam que ia para uma empresa europeia, para os alemães, mas foram os chineses”, recordou.

“Privatização após privatização, desmontámos o que foi dito, não há favoritos, só decidimos em função dos projectos, não vendemos as empresas públicas ao desbarato e conseguimos mais do que o dobro do que o PS tinha dito”, referiu. 

Contas feitas ao seu mandato, o primeiro-ministro está tranquilo. “Devolvemos um país que não está sob assistência externa e que reganhou a sua autonomia”, precisou. “Estamos a libertar-nos da ditadura da dívida e as gerações futuras dos erros do passado”, congratulou-se. “Estamos em bom andamento para termos em 2019 um excedente orçamental”, anteviu.

Recordou os tempos difíceis, num novo contraponto. “Não nos importámos com a impopularidade, com as eleições, só nos preocupámos com o país, não queremos devolver problemas ao país, mas resolver os problemas que têm de ser resolvidos”, insistiu.

E foi, então, que Pedro Passos Coelho surpreendeu. Falou da sua entourage, do seu gabinete, dos seus ministros. Recorda conversas com Vítor Gaspar a quem perguntava o que era preciso fazer, sugerindo a ausência de cálculos políticos. “Nunca gostei que as más notícias fossem dadas pelos outros, mas agora podemos dar boas notícias e peço aos ministros que as dêem, eu falo de responsabilidade e disciplina”, afirmou.

Como novo “homem do leme” não hesitou numa confissão: “quem chefia uma boa equipa deve dar oportunidade aos outros de brilharem, nunca teria conseguido chegar onde cheguei sem a minha entourage [no Governo] e sem os militantes  do meu partido.” Apesar de tudo, admitiu a condição de mortal. “Nunca atingiremos a perfeição, pelo menos neste mundo”, disse. Nesta visita proposta ao seio do executivo, o primeiro-ministro provocou algum frisson. “Houve pessoas no Governo que tiveram dúvidas mas esforçámo-nos”, indicou. Por momentos, a sombra de Paulo Portas pairou sobre a cidade universitária de Lisboa. Mas Passos não foi mais longe. Como foi o fundador e militante número um do PSD, Francisco Pinto Balsemão, na apresentação sintética de 12 propostas de trabalho para o século XXI. “Se o partido aceitar e vencer estes 12 desafios, demonstrará ainda mais claramente que o Partido Social Democrata existe por si próprio, independentemente das coligações que, em cada momento, histórico tenha de fazer”, disse Balsemão.

Na sua longa intervenção, Pedro Passos Coelho falou do carácter do PSD. Palavras à boleia dos acontecimentos. “O Governo nunca reagiu mal com a comunicação social, nunca ninguém nos acusou de querer pôr a comunicação social, a Polícia Judiciária ou o Ministério Público na ordem”, garantiu. E concretizou. “Não usámos a crise para nos intrometer no Estado de Direito, na Justiça e na liberdade da comunicação social, espero que este resultado dure para o futuro, que não dependa do PSD ganhar eleições”, insistiu. A plateia entendeu a mensagem e aplaudiu longamente.

Como o fez com duas referências à presença de Durão Barroso. A inicial, com a cortesia de boas-vindas ao pródigo militante regressado das funções de presidente da Comissão Europeia. A derradeira recordando os momentos difíceis da crise. “Sempre ajudou Portugal e seria uma injustiça que isso não fosse reconhecido no nosso país”, afirmou.

Ainda a descortinar se haveria mais intenção, o enigma adensou-se na militância. “Estamos preocupados com as legislativas, não com as presidenciais, mas se conseguirmos chegar onde chegámos não posso deixar de sublinhar o papel do Presidente da República, se o Governo não fosse do PSD, Cavaco Silva teria agido da mesma maneira”, disse o líder. “O lugar de Presidente da República não é um lugar qualquer”, concluiu. Mas lançou a pedra.