O Acordo Ortográfico: rejeitar o absurdo

Considero inaceitável que a Associação de Professores de Português não se pronuncie sobre os malefícios que a adopção desta ortografia tem causado em todos os ciclos de ensino.

Como escreveu Vitorino Magalhães Godinho em artigo publicado no Jornal de Letras (n.º 978, de 26 de Março de 2008; artigo diga-se absolutamente ignorado pelo Governo, pelo Presidente da República e pela maioria dos agentes culturais): em 1990 decidiu-se "enterrar sem apelo nem agravo o ruim defunto". Mas volvidos pouco mais de quinze anos, eis que o ruim defundo ressuscitou. Tal sucedeu no mesmo lapso de tempo em que se introduziu para confusão de alunos, pais e professores e lucro de uns quantos teóricos da linguística e editoras escolares a famigerada TLEBS, que, tal como o Acordo Ortográfico, e apesar da contestação, não foi eliminada do ensino do Português. Estes dois factos TLEBS e novo Acordo Ortográfico são sintomáticos da indigência que campeia na educação.

Pois bem, o Acordo. Como professor de Português e de Literatura Portuguesa, considero inaceitável que a Associação de Professores de Português não se pronuncie sobre os malefícios que a adopção desta ortografia tem causado em todos os ciclos de ensino. Tem-se ensinado português da pior forma possível: apadrinhando a corrupção das palavras seja na grafia, seja nas concomitantes dimensões semântica e morfológica e fonética. Insiste-se, ao mesmo tempo, em leccionar a gramática com base numa terminologia equívoca e muitas vezes errada. Este Acordo Ortográfico e a falácia científica que é a TLEBS são a prova provada de que a Escola se transformou, salvo excepções, num campo propício para se exercer a ideologia dos burrocratas, como disse Herberto Helder...

Da escola ao jornalismo, da política à publicidade, os mais diversos dislates gramaticais fariam corar de vergonha governantes conscientes que não temos. A anglicização do nosso idioma é uma das causas que mais concorrem para o actual estado da arte. Perdeu importância a matriz grega e latina da língua e, consequentemente, perdeu-se a capacidade de compreender e apreender a ductilidade e as subtilezas do idioma de Camões. Alguns exemplos bastariam para que a Assembleia da República se dignasse a fazer letra de lei o regresso da ortografia do Acordo de 1940-45. A supressão dos acentos é apenas uma das facetas deste grave e espinhoso problema criado nos gabinetes de quem não pisou nunca a escola portuguesa. No terreno o que temos é uma realidade alarmante que nenhum governante deveria menoscabar: crianças e jovens sem quaisquer hábitos de escrita e de leitura, crianças e jovens vítimas do desemprego a que os pais estão condenados e para quem a escola, mais do que lugar das aprendizagens da língua e das ciências, é hoje, apenas e só, o lugar do massacre dos exames e sua nefasta formatação. Questionemos, pois, o Acordo: Nas palavras esdrúxulas o que justifica a supressão dos acentos? Nas palavras homógrafas, tal omissão do acento leva a erros de leitura, de entoação, e de compreensão da mensagem. Veja-se a frase: "Baudelaire pára para ouvir a fim de pensar [...]" (in M. S. Lourenço, Os Degraus do Parnaso, p.122). Se se eliminar o acento, como leremos? Há casos em que o acento esclarece quanto à abertura da vogal anterior ou quanto à distinção entre verbos e preposições. Uma coisa é "fôrma" (pão), outra é "forma" (sapato); "bésta" (arma medieval) não é "besta" (animal). (Note-se que a ausência de acentos nestas palavras foi solucionada em dicionários esclarecendo a vocalização, o que em todo o caso pode fazer incorrer os falantes em erros de pronúncia).

Um acordo bestial foi o que se conseguiu. A recepção deste Acordo merece o nosso escárnio e repúdio, sob pena de vivermos uma recessão linguística que dificilmente poderemos resolver. Veja-se que, sem acentuação, uma coisa é "pôr" e outra é "por". Por isso mesmo é preciso pôr fim à degenerescência civilizacional que grassa por este país, laboratório das experiências mais alucinantes (e alucinadas) do tecno-fascismo.

Veja-se, já agora, o uso do hífen. A sua supressão dificulta a compreensão do sentido global de lexemas. José de Almeida Moura vê bem a ilogicidade da norma defendida pelo NGDLP (Novo Grande Dicionário da Língua Portuguesa). Diz o gramático o seguinte: "Um exemplo basta para provar que o Acordo de 1990 veio complicar o que, embora complexo, se tornava claro e produtivo, porque havia regras precisas a normalizar a ortografia. A doutrina da Base XIX do texto de 1945, por motivo de clareza ou expressividade gráfica ou por ser preciso evitar má leitura manda que se empregue o hífen nos 'compostos formados com o prefixo co, quando este tem o sentido de 'a par' e o segundo elemento tem vida autónoma'." Afirma ainda José de Almeida Moura, autor do ensaio A Consolidação da Ortografia do Português Homenagem ao Velho do Restelo: "O Novo Acordo forjou 'três espécies de grafias' com esse prefixo: coautor, corréu [...] co-utente e co-herdeiro." Pondo à vista as incongruências de alguns especialistas (Malaca, sobretudo), Almeida Moura demonstra que, no caso do hífen, a aglutinação do prefixo a formas seguidas da consoante muda [h] propende à confusão: ora serve aglutinar-se como em corréu ("aglutinados em geral", diz o AO) como se abre excepção (escrevo com p, como se lê). Consulte-se o parecer de Almeida Moura e verifique-se que o Acordo de 1990 defende formas como "coocorrente", "micro-onda", "antirreligioso", "mandachuva" ("manda-chuva" no NGDLP) e "guarda-chuva", "paraquedas" ("para quedas" no NGDLP) e "conta-gotas", "hão-no" e "hão de". Outro exemplo: no Atual (manual de instruções rápidas do Acordo) grafa-se "lusoafricano" e no Acordo escreve-se "luso-brasileiro" e "afro-asiático" (Base XV,1). Podíamos não parar. As contradições são manifestas. Na verdade, temos de concordar com José de Almeida Moura: "Este Acordo é o problema, por falta de conhecimento [da língua] e pela adulteração radical dos seus sistemas ortográficos, que reflectem traços culturais próprios da história dos povos que a falam e escrevem."

A corrupção está, de facto, em curso: vai sendo frequente verem-se lexemas deste género: "eurosiático", "geoistória", "gastrenterite", "protoistória". E a questão é que a supressão das consoantes mudas acaba por conduzir a grafias como "Istória", já que os alunos foram levados a simplificar de tal modo que tudo, na grafia, na morfologia e na sintaxe passou a ser relativo. Irrevogável, por exemplo, já não quer dizer irrevogável... De facto, se se escreve como se fala, qual o problema de escangalhar a expressão escrita? Mais: Não é pedagógico aceitar-se que haja dualidade de grafia em situações como "Português" (disciplina escolar e etnónimo) e "português" (língua). E que dizer da generalização de minúsculas em lexemas que designam povos, dias da semana, estações do ano? Também quanto às consoantes duplas generalizou-se o absurdo: "interceptar", "acepção", "recepção", "receptor" perdem o p que leva à abertura da vogal anterior e, lendo-se mal, o próprio sentido dos lexemas se desvanece... O que é, pergunto, um recetor? Na oralidade como se lerão receção e recessão?... Pode ler-se em alguns casos a consoante dita muda, mas a grafia da dupla consoante evita que o aluno escreva e diga "intercessão" (assim mesmo escrito) ou "intercetar"… Alguém que escreva no currículo que está "ato" para desempenhar determinada função não estará "apto", provavelmente, a escrever uma "ata" (quero dizer: "acta"). Como desatar os nós desta camisa de forças ortográfica? Como será quando, nos Exames Nacionais de 4.º, 6.º, 9.º e 12.º anos, os alunos se virem confrontados com a oscilação de grafia no próprio enunciado dessas provas?

Em rigor, como lembra José de Almeida Moura, no parecer publicado no Boletim n.º 35 / 2008 da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, e a que nos reportamos, citando Mariana Yaguello: "Uma reforma no sentido de uma ortografia fonética poria o problema da escolha de uma norma, escolha essa que beneficiaria os grupos dominantes. É esse um dos principais obstáculos a uma reforma ortográfica."

Professor e crítico literário

 

P.S.: Por lapso não imputável ao autor, este artigo surgiu inicialmente com o título "rejeitar o abuso" quando, na verdade, era "rejeitar o absurdo". Foi já feita a devida correcção.