Crítica Cinema

De são e de louco

Um documentário tanto mais interessante quanto olha “à altura de homem” para o seu tema

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Há dois filmes em luta na nova longa-metragem de Jorge Pelicano, sucessora de um Pare, Escute, Olhe (2009) que agitou as “capelinhas” do documentário ao vencer o concurso nacional do DocLisboa.

Pára-me de Repente o Pensamento – estreado no Doc de 2014 - é, claramente, o melhor dos três filmes do realizador, mas nem por isso consegue resolver a contento a batalha no seu âmago. O centro do filme é o quotidiano dos internados no hospital psiquiátrico portuense Conde Ferreira, filmado em simultâneo “de dentro”, observando os rituais, as rotinas, as dúvidas dos internados, e “de fora”, acompanhando o actor Miguel Borges durante uma residência de três semanas no hospital. O filme é tanto melhor quanto mais contorna a presença de Borges: Pelicano dá o tempo necessário para descobrirmos a humanidade desta gente que é demasiado depressa catalogada como “diferente”, filma-os “à altura de homem”, como indivíduos cuja doença não lhes retira a sua dignidade. Mas sempre que Borges está no écrã, e mesmo sem o querer, o filme deixa de ser sobre os internados, com o actor a servir de “padrão de comparação” que volta a devolver àqueles à sua volta a ideia de serem “outros”. É como se as duas vertentes do filme, unidas por uma recorrência de “tiques” visuais (que insistem em querer “fazer cinema” quando bastaria confiar nos seus sujeitos para lá chegar), se anulassem mutuamente – e o resultado é uma oportunidade perdida, onde vemos as sementes de um óptimo filme desbaratadas numa concretização algo tentativa.