Tochapestana em versão disco-filme: dos marinheiros a Fassbinder

Em estreia absoluta no IndieLisboa, Música Moderna – Um Disco Filme de Tochapestana apresenta este sábado o baile-turbo-punk de Gonçalo Tocha e Dídio Pestana na sua dimensão visual. Segue-se concerto.

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Música Moderna Guilherme Alves
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Nesse tema de assumida devoção por uma vida nocturna marginal em acelerada extinção – um quase mítico lugar de encontro entre marinheiros, prostitutas e toda a sorte de personagens que parecem pertencer a um mundo citadino que escorre para uma existência subterrânea –, nesse tema intitulado Pratica a tua Fé, Gonçalo Tocha e Dídio Pestana homenageiam uma série de templos de animação no lisboeta Cais do Sodré. Entre eles, os bares Chicago e Liverpool, sobre os quais o duo Tochapestana canta: “Chicago / bebo, bebo e não pago; no Liverpool / é tudo muito cool”.

Só quando filmavam o capítulo final de Música Moderna – Um Disco Filme de Tochapestana, este sábado em estreia no IndieLisboa, pelas 21h30, no Cinema São Jorge, se aperceberam, afinal, de que a sua dificuldade em localizar Chicago e Liverpool na mesma rua se devia não a uma impossibilidade geográfica mas a um simples e ardiloso estratagema do mesmo bar. Em tempos, a placa identificativa desse estabelecimento alterava-se ao sabor dos barcos. Se estavam de chegada a Lisboa marinheiros norte-americanos, a placa colocada no exterior dizia Chicago; se as ruas eram invadidas por marujos ingleses, o mesmo espaço passava a chamar-se Liverpool.

Há algum tempo que vingou Liverpool e é aí que Tochapestana assentam arraiais para as filmagens derradeiras do seu disco-filme, uma transposição para o ecrã do álbum de baile-turbo-punk editado no final do ano passado. O tema chama-se Piano-bar, balada pingada de decadência de fim de noite, própria daquela hora de engates tão ternos quanto desesperados, e de fazer inveja a qualquer Victor Espadinha ou Joe Dassin desta vida.

O Liverpool seria a escolha da dupla porque buscavam “um imaginário de espelhos, em que os clientes se podem sentar ao balcão, com sofás junto à parede, umas quantas mesas, algo muito aconchegante”, descreve Gonçalo Tocha, cantor mas igualmente realizador premiado pelos filmes É na Terra Não É na Lua e Balaou. Esse olhar cinematográfico manifesta-se quando fala ao PÚBLICO entusiasmado com a decoração do espaço: “Aqueles espelhos são completamente Fassbinder, é impressionante.”

Filmado numa tarde de Março, o vídeo de Piano-bar começa com um Liverpool “às moscas” e vai-se enchendo enquanto a canção avança para o fim. Enche-se com a presença de convidados de Tochapestana, de fãs que souberam via Facebook dos planos da gravação, mas também da clientela habitual do bar, que vai contribuindo para esta constante no imaginário do grupo de uma ficção atravessada pela mais desarmante realidade.

É difícil encontrar realidade mais palpável do que o pedido que se apressem a filmar a última cena, quando se baila romanticamente no Liverpool, porque um dos clientes encomendou uma garrafa de whiskey e está interessado em assistir a um jogo da Liga dos Campeões na televisão por cima do palco improvisado dos Tochapestana.

Uma tarde mítica

“Fomos abraçados pelo dono e pelas empregadas do Liverpool”, conta Tocha. Para o músico e realizador esta era “uma última oportunidade” de Tochapestana se inscreverem num imaginário que inspira a música dos dois e que acreditam estar a desaparecer, agora que o Cais do Sodré passou a fazer parte das recomendações oficiais de uma visita à capital. “Isto é quase um videoclip documentário”, diz Tocha. “Esse é que é o gozo. Não controlamos tudo e temos de deixar acontecer. Senão seria um desperdício total deste sítio, que tem tanta história e os seus clientes habituais. Era muito difícil não acontecer nada de especial. Toda a gente sabia que ia viver uma tarde mítica.” Uma tarde mítica que incluiu um cliente mais interessado em pequenos conflitos do que em pagar o seu consumo no bar, mas totalmente seduzido pela música dos Tochapestana, juntando-se com a sua namorada ocasional à dança lânguida captada pelas câmaras.



O disco-filme de Música Moderna começou com a modesta ambição de realizar um videoclip para cada uma das canções do álbum. Mas a meio do percurso, Tocha e Pestana perceberam que juntando material de arquivo, desde a primeira vez que experimentaram as roupas de palco em 2006, em frente ao Panteão Nacional, até à sua actuação numa concentração motard, havia uma narrativa sobre o grupo que despontava do filme. “Como esperámos muito para gravar o disco”, lembra Tocha, “tínhamos expectativas acumuladas e queria fazer uma coisa épica como se o disco não se esgotasse em si mesmo e continuasse.”

Desde o início do grupo, Tochapestana tocaram em quase todo o tipo de palcos, quase sempre com poucas ou nenhumas condições técnicas. Nalguns momentos, tiveram igualmente de superar um olhar desconfiado, de quem via no seu total empenho uma possível forma de ironia. Mas Tocha insiste na total genuinidade do projecto, lembrando os tempos em que actuaram em Berlim e eram olhados sem o filtro do contexto cultural. De certa forma, é essa experiência que pretendem agora reanimar com a exibição de Música Moderna no IndieLisboa, seguida de concerto. “A minha ideia é levar isto em pacote para o circuito de festivais internacionais”, revela Tocha. “Acho que tem tudo para funcionar assim.”