Sismo no Nepal atingiu 90% do património do vale de Katmandu

Principais estragos estão concentrados em Patan, Katmandu e Bhaktapur. UNESCO fala em perdas irreparáveis mas também em esforço de reconstrução.

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Em Patan, o exército e a polícia protegem e vasculham os escombros Nicolas ASFOURI/AFP

O número de vítimas mortais e de feridos do sismo de magnitude 7,9 na escala de Richter que abalou o Nepal no dia 25 de Abril não pára de crescer. Surgem alguns sobreviventes nos escombros, o país tenta recompor-se e a ajuda humanitária começa a chegar. A avaliação das perdas patrimoniais está ainda só a começar, apesar de desde o início da semana se estimar que muitos dos sete locais classificados pela UNESCO como Património da Humanidade foram duramente atingidos pelo terramoto.

A avaliação preliminar da UNESCO atesta agora que os principais estragos estão no vale de Katmandu e destaca a situação das praças Durbar (o nome dado às praças fronteiras a templos no Nepal) de Patan, de Katmandu e de Bhaktapur: “Quase inteiramente destruídas”. Melhores notícias vêm de Lumbini, o local do nascimento de Buda, ou o parque Nacional de Chitwan. Na perspectiva do património natural, também o parque nacional de Sagarmatha – que abarca o Monte Evereste – foi “gravemente afectado”.

Este sábado, a agência de notícias AFP dá conta do desalento da população perante a violência do sismo, surgido após um período de guerra civil. “Sobrevivemos a uma guerra humana, mas neste caso é uma guerra da natureza contra nós”, lamenta Prakash Sharma, responsável adjunto da polícia de Patan, um dos três centros monumentais mais importantes do vale de Katmandu. Enquanto falava, admitia a sua preocupação com o risco de pilhagens de peças históricas entre os escombros.

Três dos palácios reais de Katmandu, Patan e Bhaktapur estão em ruínas, confirma a agência noticiosa, templos arrasados, estátuas em pó.  “O sismo atingiu 90% dos sítios [classificados]. É difícil avaliar as perdas”, diz o director-geral do Departamento de Arqueologia governamental, Bhesh Narayan Dahal, que está já a contabilizar as perdas e a inventariar peças recuperadas dos escombros. As autoridades estão também preocupadas com a possibilidade de terem sido roubadas peças valiosas durante os primeiros dias de confusão após a catástrofe natural.

“Absolutamente dramáticos” – é assim que a UNESCO avaliar os estragos nas jóias do vale de Katmandu, nas três povoações e seus palácios reais, templos hindus e povoamentos tradicionais. O representante da agência das Nações Unidas no Nepal, Christian Manhart, é citado pela AFP dizendo que está em contacto com o governo na inventariação dos estragos e na tentativa de evitar mais perdas na esteira do rescaldo do sismo.

É o que tentam fazer cerca de 500 polícias e soldados nepaleses nos escombros da praça Durbar em Patan, vasculhando entre as pedras há vários dias para “proteger o nosso património”, nas palavras de Sharma, e rodeados por cordões que impedem já o acesso dos transeuntes às ruínas.

Apesar de a directora-geral da UNESCO ter dito na quarta-feira em comunicado que estava “chocada com o impacto devastador na herança cultural única” do país, mencionando “danos extensos e irreversíveis” no vale de Katmandu, Christian Manhart fala já em reconstrução. Há plantas que permitirão uma reconstrução “dentro de cinco a sete anos”, diz por seu turno o responsável do Departamento de Arqueologia, de alguns destes monumentos – algo que já tinha acontecido em 1934 após um sismo igualmente violento.