Adriano Miranda
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Adriano Miranda

Receita pouco secreta para um clube de râguebi

A evolução do Rugby Clube da Lousã deve-se à visão de um empresário e marketeer cuja estratégia desportiva começou a definir-se há mais de 40 anos. Para o Licor Beirão, José Redondo já tinha a receita; o clube é que começou do nada.

O primeiro presidente do Rugby Clube da Lousã exerceu funções com 14 anos e o seu tesoureiro tinha 12. Estava-se então em 1973 e, sim, ambos eram ainda uns miúdos. A orientá-los, contudo, tinham na assembleia-geral um adulto cuja visão da modalidade levaria anos a concretizar-se, mas acabaria por cumprir-se como previsto: uma vez chegado do Ultramar, esse visionário trocou a empresa do pai pela docência no ensino regular, deu aulas de Educação Física para cativar os jovens da terra para o râguebi, distribuiu os mais empenhados por diferentes cargos na direcção do clube e ensinou-os assim não apenas a serem jogadores, mas também dirigentes desportivos e gestores. O mentor dessa precocidade foi José Redondo, e todos na Lousã o associam ao fabrico do Licor Beirão e à ascensão do clube que, nessa vila de dimensão modesta, soube crescer para mais de 200 atletas, conta actualmente com 86 seniores, venceu este ano o campeonato da I Divisão com 20 vitórias em 20 jogos e garantiu dessa forma a subida à Divisão de Honra, reservada aos 10 melhores da modalidade.

 

"Isto sempre foi uma questão de paixão, porque eu era um bom jogador de futebol, mas depois experimentei o râguebi e o bichinho ficou para sempre", assume aos 71 anos o fundador do clube, que em tempos foi atleta pela Académica e ganhou a 1.ª Taça de Portugal da modalidade. "Quando vim do Ultramar, decidi trabalhar para que houvesse râguebi na Lousã e, como não havia gente para isso, fui buscá-la às escolas, formei-os aqui e agora alguns desses miúdos são dirigentes nas melhores empresas da região".

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Com uma agenda intensa que se reparte entre o clube e a produção da bebida espirituosa que o Internacional Wine and Spirit Research apontou em 2014 como a mais consumida em Portugal, José Redondo tem no râguebi a sua "amante" – é assim que a esposa lhe caracteriza a devoção à modalidade -, mas procura apreciar-lhe os encantos de forma meramente platónica. "Vivi o jogo [da final do campeonato] com muita emoção, mas com a calma de alguém que sabe que, no Desporto, os resultados são como os alcatruzes da nora – há que os saber saborear pensando sempre que umas vezes subimos e outras descemos", explica. "Só isso me impede de não sofrer muito quando estou na fase descendente".

 

É com base nessa perspectiva que, por um lado, o presidente do RC Lousã anuncia para breve a ampliação no estádio com o seu nome, mas, por outro, se propõe manter a gestão do clube em moldes idênticos aos actuais. "Nenhum clube de râguebi está tão bem estruturado como o nosso e, pela experiência que tenho a nível empresarial, a gestão do clube tem estado perfeita. Rodeei-me de excelentes elementos, não só na parte desportiva, mas, sobretudo, na administrativa. É natural que os apoios aumentem, na medida em que a Divisão de Honra dará maior visibilidade ao clube, mas, se todos na Direcção tivermos 'juízo', não iremos cair na tentação de 'calçar um sapato maior do que o pé'”, antecipa.

 

O presidente da Câmara Municipal da Lousã, por sua vez, mostra-se consciente das dificuldades que se vão deparar ao clube local na Divisão de Honra, mas concorda que "não há vencedores nem derrotados à partida". Aliás, se Luís Antunes abriu as portas do Salão Nobre da autarquia a mais de 150 pessoas na madrugada de sábado para domingo, foi precisamente para homenagear "o enorme mérito" que deve ser reconhecido aos atletas da equipa sénior e aos dirigentes do clube, entre os quais o seu "timoneiro" José Redondo. "Este sucesso deve ser valorizado e vai conferir ao concelho e à marca 'Lousã' um prestígio acrescido", garante o autarca. "Todos temos noção da maior exigência com que o clube se vai deparar na próxima época, mas ninguém duvida que o seu desempenho continuará a evidenciar a mesma qualidade que até aqui".

 

Se em alguns recantos da vila a recente conquista do RC Lousã passou despercebida, há cafés em que os mais atentos já discutem prognósticos. "Ia ser mais aliciante se a Divisão de Honra passasse a ter 12 equipas, para a competição ficar mais interessante e a diferença entre os maiores e os mais pequenos não ser tão acentuada", defende Rui Nunes, ex-atleta da modalidade. "Mas o clube tem uma estrutura forte, apoia muito os jogadores e, com mais jovens sempre a aparecer, até pode ser que se aguente!".

E se José Redondo deixasse a direcção do clube? Marco Santos ri-se na sua cadeira de esplanada: "Era o fim do Lousã", argumenta. Mas Pedro Carvalho, a seu lado, rebate que isso não irá acontecer porque o detentor da receita secreta do Licor Beirão "adora râguebi e, se puder ir buscar lá fora um ou outro jogador com mais estatuto, se calhar até põe o clube a fazer uma campanha regular e surpreende muita gente".