A espionagem é um lugar íntimo em Mai Jia

O escritor chinês chega ao Ocidente com a marca de fenómeno num romance onde a espionagem aparece ao serviço de um olhar profundo sobre a intimidade de alguém que vive na diferença. Entre silêncios e códigos, Cifra é um thriller pouco convencional onde se tenta chegar perto da verdade do homem e da civilização através do entretenimento

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A opinião da crítica divide-se: dos aplausos entusiásticos – Economist ou New York Times e Telegraph – ao texto impiedoso da London Review of Books

Mai Jia acredita que a missão da literatura é mais elevada do que a da política, uma afirmação que pode ser lida como arriscada, vinda de um escritor que vive na China e não é um dissidente do regime comunista.

O Ocidente começou a ouvir falar dele no ano passado, quando o seu primeiro romance foi publicado em inglês. Já tinha então seis livros editados e 15 milhões de exemplares vendidos no seu país, além de adaptações para cinema e televisão e uma colecção de afirmações capazes de o apresentar fora de fronteiras como alguém com enorme auto-estima e vontade de ser conhecido como escritor universal.

Apresentado como autor de espionagem, um executante inovador da arte do thriller psicológico, Mai Jia, nome literário de Jiang Benhu, prefere uma designação mais abrangente. “O jogo de espionagem é apenas uma capa [para o que faz]. Eu escrevo sobre pessoas", disse numa entrevista publicada em 2012 na Time Out de Pequim. “Pessoas que sofrem de alienação do trabalho: o seu espírito, o seu destino, a sua dor interior e amor. É com isso que estou preocupado”, acrescentou o escritor que tem sido comparado a vários autores nas muitas tentativas, mais ou menos maliciosas, de traduzir esse “fenómeno” chinês para a literatura ocidental: John Le Carré, Dan Brown, Jorge Luis Borges, Franz Kafka. Entre eles, Mai Jia elege um: Borges, o seu herói literário, e conta que passou um dos três anos ao serviço do exército chinês no Tibete a ler um único livro: O Livro de Areia.

Um enigma
Mai Jia permanece para o Ocidente um enigma quase tão bem guardado quanto aqueles que descreve nos seus livros onde não faltam referências aubiográficas. Natural de uma aldeia nas montanhas do Leste da China, nasceu Jiang Benhu em 1964, numa família com tudo para desagradar ao Partido Comunista Chinês. Nela, havia proprietários rurais, cristãos e gente de direita. A infância não terá sido fácil. Nas poucas entrevistas que deu e que foram traduzidas, salienta que essas dificuldades foram determinantes para a sua vontade de ser escritor. Solitário, começou cedo a registar a vida em diários e essa tarefa ganhou outra dimensão a partir dos 17 anos, idade com que se alistou no exército como modo de “limpar” o seu passado familiar e escapar à pobreza em que vivia. Serviu numa unidade de inteligência militar durante 17 anos, uma experiência determinante para construir a figura de Rong Jinzhen, o solitário genial, protagonista de Cifra, o livro que lhe demorou dez anos a escrever e o lançou em 2002 como um dos escritores de maior sucesso na China. Era o primeiro volume de uma trilogia dedicada ao mundo das cifras matemáticas e da simbologia e foi o seu romance mais discreto. Seria, no entanto, de todos os livros de Mai Jia aquele que a Penguin escolheu traduzir para inglês e, daí, para o universo literário fora da China. A tradução que chega a Portugal parte dessa edição inglesa, escolhida como padrão.  

É uma história de desajuste pessoal e génio, de confronto entre verdade e o que é tido como verdade; a verdade esquiva que cada um persegue, característica de uma sociedade dominada por complexos sistemas de segurança e gestão de dados. O fenómeno é global, diz Mai Jia, que neste livro se socorre de números e palavras para chegar próximo do que é a inteligência sabendo, como refere uma das suas personagens, que estar próximo da inteligência é o mais longe que se pode alguma vez conseguir. 

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Mas o escritor tenta a abordagem. Conhece os meandros do universo cifrado e persegue a função do cérebro nessa busca da verdade ocultada. Através de personagens invulgares, pormenores grotescos, aprofunda o enigma da inteligência com recurso a detalhes bizarros numa tentativa de reconstituição do que há de mais humano na ordem e no caos. O livro é construído para tornar o leitor refém dessa perseguição. Há que seguir até ao fim, à página 400 do romance, sem perder o fôlego, e Mai Jia domina essa arte de alimentar o vício. Mas será só isso, habilidade narrativa?

Nas páginas da London Review of Books, Sheg Yun, professora de ciências sociais na universidade de Xangai, questionava a escolha da Penguin em colocar Mai Jia no seu catálogo ao lado de outros escritores chineses tidos como de referência como Qian Zhongshu (1910-1998), Lu Xun (1881-1936) ou Eileen Shang (1920-1995) e era dura na apreciação do trabalho do escritor. No artigo que intitulou de Sniffle, quase onomatopeia para um grande lamento, chamava-lhe plagiador, alguém com talento literário questionável, um best-seller no seu entender em nada merecedor do prestigiado Mao Dun Prize que ganhou em 2008 — disse que era como se Dan Brown ganhasse o Booker —, um nome pouco representativo do que de melhor se faz nas letras da China. No fundo, afirmava que pouco se sabe no Ocidente acerca de uma literatura muito prolífica mas difícil de traduzir, que quase sempre precisa de duplas de intérpretes para avaliar as nuances de construção da linguagem e da cultura, um trabalho exigente que todos os tradutores se referem o de uma quase escrita para que possa ser entendido.

O contágio
A história de Cifra começa em 1873, no dia em que o mais jovem da sétima geração da família Rong, ricos comerciantes de sal da província de Jiangman, foi mandado para os EUA para estudar esoterismo e ajudar a avó a interpretar os sonhos que a atormentavam. A avó morreu antes que ele pudesse pisar o novo continente, mas chagado lá, e ao saber da notícia, optou por estudar matemática. Quando regressou à China sete anos depois Rong Zilai era John Lillie e “sofria agora de toda a espécie de estranhos hábitos: não tinha rabicho, usava um casaco curto em vez de uma comprida túnica de seda, gostava de beber vinho que era cor de sangue, entremeava o seu discurso com palavras que soavam como o chilrear de um pássaro ou coisa assim”, e, presságio de mudança, não suportava o cheiro a sal. “As pessoas tratavam-no como se houvesse contraído uma doença vergonhosa.” Seria o fundador de uma escola, a Academia Lillie de Matemática, no Sul da China, predecessora da “famosa” Universidade N. 

Estamos no início. As peripécias que antecederam o nascimento de Rong Jinzhen são muitas, algumas resultado da influência em Mai Jia da tradição fantástica ocidental — de Borges ou até García Marquez —, mas contadas seguindo a herança oriental, em longos encadeados líricos, e sublinham o carácter excepcional do rapaz e a rejeição que seria sujeito por parte da família e iria marcar a sua personalidade solitária e opaca. Ajudam também a contar o século XX na China, com destaques e omissões que servem a estudiosos e crítica para ajudar a construir a biografia de Mai Jia, até que ponto é um apoiante do regime chinês, até que ponto esta narrativa pode ajudar a entender a China actual. Ele tem respondido a isto de forma breve. “Na China há muitas coisas que ninguém se atreve a escrever, incluindo eu.”

Até meio do romance são raras as vezes que o leitor sente estar perante um romance de espionagem. Há segredos, cálculos, uma gestão de suspense que demora a se adensar, com o narrador a gerir a informação de forma paciente e como que num romance de formação um pouco à maneira dos que se escreviam em meados do século XX na Europa.

“O protagonista da minha história ainda não apareceu, embora vá chegar em breve. Em certo sentido, pode dizer-se que já aqui está, apenas ainda não o viram, do mesmo modo que quando uma semente começa a germinar são invisíveis os primeiros rebentos sob a superfície do solo bem regado”, lê-se na página 31, apresentadas as primeiras gerações de “eleitos” da família Rong. Há um rapaz, na sua diferença a crescer num meio ao qual tenta ajustar-se. Este elemento tantas vezes tratado na arte dá também a Mai Jia a oportunidade de elaborar sobre a fronteira entre generalidade e loucura, criando momentos de extrema angústia graças ao modo como cruza intimidade e frieza afectiva num equilíbrio sempre difícil e moldado por circunstâncias civilizacionais determinantes. E é como se a partir do íntimo de Jinzhen e de umas quantas pistas mais ou menos manipuladas por Mai Jia o leitor pudesse decifrar um código sobre o que é viver e escrever na China actual. 

Ao contrário do que acontece na China, o sucesso de Mai Jia ainda não é possível de aferir no Ocidente. A opinião da crítica, sublinhe-se, divide-se entre aplausos entusiásticos — como o da Economist ou o do New York Times e do Telegraph —, aos mais contidos por parte do Guardian até ao impiedoso texto de Yun. A questão parece estar entre conciliar bons momentos literários e a eficácia comercial, uma questão antiga no meio literário. Chega-nos como “fenómeno” com todas as implicações que o rótulo implica. Lê-se este Cifra a olhar para o meio que a permitiu ser escrita e estranhando muitos dos seus traços ocidentais sem que a grande maioria de quem o lê fora do seu país disponha das ferramentas necessárias para saber até que ponto isso é efeito da tradução ou resultado de uma globalização.

As personagens de Mai Jia foram tocadas por esse contágio com o mundo de fora, mesmo que nunca tenham saído da China ou falem uma língua estrangeira — como Mai Jia. Rong Jinzhen foi educado por um velho americano que o baptizou de “Patinho” e o acompanhou na infância no meio de silêncios cúmplices até que, na morte do velho, ele é entregue ao herdeiro da Universidade N, o Jovem Lillie, que lhe detecta uma inteligência muito acima da média numa personalidade semelhante à de um autista e o inscreve na escola onde encontra num professor estrangeiro, um aliado na construção do percurso genial que prevê para Jinzhen e oportunidade para Mai Jia deixar algumas notas mais críticas quanto ao passado recente da China. “Tem sido sempre um dos problemas que os intelectuais chineses enfrentam: considerarem uma carreira académica fundamentalmente incompatível com um cargo oficial”. É ele quem lhe traça o percurso de excepção com Mai Jia durante muito tempo a ocupar-se com a construção do universo interior do seu protagonista um homem que seria venerado na China pela sua capacidade excepcional de decifrar códigos dos principais inimigos militares do seu país. A sua vida ganha densidade a partir da investigação do narrador que percorre o Sul do país a recolher testemunhos e a entrevistar quem lidou de perto com Rong Jinzhen, o rapaz que defendeu uma tese que podia afrontar a ideologia chinesa . O seu mérito, lê-se, era "demonstrar a própria inteligência e ousadia do autor" que sugeria que "a inteligência humana deveria ser considerada como uam constante matemática e um número irracional, um número que nunca chega ao fim".

Só a meio do romance os mistérios começam a adensar-se quando Rong Jinzhen, mais uma vez guiado por uma personagem invulgar, o Coxo Zheng entra na misteriosa unidade 701 com a função de ler mensagens cifradas de estados rivais da china, nunca numerados a não se por letras, mas que podem ser os Estados Unidos ou Taiwan, por exemplo. E tudo sem que nunca Mai Jia se perca acerca do íntimo da sua personagem. Pegando na sua afirmação de que o que lhe interessa é a alma, é com se toda a trama de espionagem fosse construída para embrulhar essa essência que nunca se dissocia da própria experiência pessoal de Mai Jia, um ex-soldado que escreveu um diário com 36 volumes nos 17 anos em que esteve no exército e que gosta de dizer, como Borges disse, que podia viver simplesmente numa biblioteca.