Retrato de Bach devolvido a Leipzig 265 anos depois

Depois da morte do compositor, o retrato viajou pela Polónia, Inglaterra e Estados Unidos. Agora, por vontade do seu último proprietário, regressará à cidade onde Bach foi sepultado.

O retrato foi pintado em 1748 e é uma cópia do original criado dois anos antes, hoje danificado por restauros mal executados
Foto
O retrato foi pintado em 1748 e é uma cópia do original criado dois anos antes, hoje danificado por restauros mal executados DR

Durante 265 anos, Johann Sebastian Bach esteve longe de casa. Não Bach propriamente dito, cujo corpo está sepultado em Leipzig, mas o retrato que imortalizou a sua imagem. Pintado por E. G. Haussmann em 1748, viajou depois da sua morte pela Polónia, Inglaterra e Estados Unidos. Dia 12 de Junho, marcando o arranque de um festival dedicado ao grande compositor do barroco, será exposto no Museu Bach de Leipzig.

A devolução acontecerá por vontade testamentária de William Scheide, que morreu em 2014 aos 100 anos de idade. O filantropo americano, membro do corpo directivo da Fundação Arquivo de Bach de Leipzig, comprara o quadro num leilão em 1952. A obra mostra o compositor já sexagenário na pose a que hoje instantaneamente o associamos (olhar austero e inquisidor e peruca sobre a cabeça, como era de rigor à época). Trata-se de uma cópia em bom estado do original pintado dois anos antes, danificado ao longo do tempo por restauros mal executados, e que se encontra desde 1913 no Museu da História de Leipzig. “O retrato, que provavelmente toda a gente viu pelo menos uma vez durante a sua vida, é um ícone da história da música”, lê-se num comunicado do Museu citado pela Reuters. O Guardian escreve que actualmente existirão no mundo, no máximo, três retratos de Bach.

Após a morte de Bach, em 1750, o retrato foi herdado pelo seu filho C. P. E. Bach. No início do século XIX passa para a posse dos Jenke de Breslau, hoje Wrocklaw, Polónia, família judaica que se mudaria na década de 1930 para Inglaterra, escapando ao terror nazi. Temendo pela segurança da sua colecção durante a II Guerra Mundial, Walter Jenke entregou o quadro aos Gardiner, que o mantiveram protegido numa propriedade rural em Dorset. Curiosamente, uma das pessoas que conviveu com o retrato em criança era John Eliot Gardiner, hoje maestro e um dos grandes especialistas mundiais na obra de Bach (e presidente do Arquivo de Bach de Leipzig).

“Passava em frente dele várias vezes ao dia durante a minha infância em Dorset, numa altura em que estava a aprender a cantar os motetos [composição sacra polifónica] de Bach”, conta Gardiner em comunicado. “É assim ao mesmo tempo comovente e apropriado ver o retrato abandonar a sua casa actual, pendurado durante os últimos 60 anos na sala-de-estar do grande estudioso e filantropo, o falecido William Scheide, e testemunhar o seu regresso a Leipzig”, concluiu.