Pôr uma obra de arte no lugar do contabilista? E por que não?

João Mendes Ribeiro fez a sua primeira obra de arquitectura industrial para receber uma empresa de componentes de automóveis, mas o proprietário decidiu ocupá-la com Chafes e Boltanski, Julião Sarmento e Andy Warhol, Baldessari e Molder. Provisoriamente.

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João Maria Gusmão e Pedro Paiva: Objectos redondos que parecem quadrangulares, 2013/ Race and gelatin mountain, 2013 NELSON GARRIDO
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João Louro, Dead end #10, 2006 NELSON GARRIDO
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Obras de Rui Chafes (no primeiro plano) e vista geral do open space com divisórias temporárias NELSON GARRIDO
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João Mendes Ribeiro fez a sua primeira obra de arquitectura industrial para receber uma empresa de componentes de automóveis
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O edifício foi construído na Adémia, uma zona “desregrada”, “descosida”, nos subúrbios da cidade de Coimbra
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No átrio da mais recente obra de arquitectura de João Mendes Ribeiro, em Coimbra, estão três peças da dupla João Maria Gusmão e Pedro Paiva. São três esculturas em bronze que ocupam toda a área do lobby que é limitada, na vertical, por grandes montras em caixilho de contraplacado de bétula – divisórias quase transparentes que criam salas de diversas dimensões sem quebrar a sensação de open space.

Uma daquelas divisões foi completamente escurecida para receber o filme Wheels 16 mm dos mesmos autores (2011), e funciona como uma das portas de entrada para a exposição de arte contemporânea Primeira Pessoa Plural. Será assim até ao fim do dia 10 de Maio, um domingo. Depois, aquela e outras obras de arte serão encaixotadas para dar lugar ao pessoal administrativo de uma convencional empresa de componentes de pintura de automóveis.

É, literalmente, isto – ali, onde está a peça Race and gelatin montain, de João Maria Gusmão e Pedro Paiva (2013), instalar-se-ão, em meados do mês o contabilista, a recepcionista e outro pessoal administrativo. No piso térreo, apagar-se-á a imagem encantatória da projecção, através de uma secção de ágata, da sombra de um elemento de vidro suspenso, que se move de uma forma quase imperceptível, criando o Inferno (2013) de Francisco Tropa. Terá de ser. Porque ali é a área comercial da empresa.

No outro extremo do edifício, o imenso armazém onde o curador Delfim Sardo criou uma linha de sentido entre obras de autores tão diversos como Rui Chafes, Christian Boltanski, Julião Sarmento, Diogo Pimentão, Andy Warhol, John Baldessari, Matt Mullican, Thomas Ruff, Cabrita Reis, Jorge Molder, Helena Almeida, Michelangelo Pistoletto, José Pedro Croft e Fernando Calhau (entre outros) passará a ser um armazém. "Ou seja, aquilo que realmente é", comenta João Mendes Ribeiro, com um sorriso.

No início do mês, o arquitecto estava nos Açores, a abrir o Arquipélago, o centro de artes contemporâneas da Ribeira Grande, desenhado com Francisco Vieira de Campos e Cristina Guedes. No sábado passado assistiu à inauguração da sua primeira obra de arquitectura industrial, que concebeu com Catarina Fortuna e Joana Brandão. E, simultaneamente, à abertura da exposição da colecção particular de arte contemporânea AA, de António Albertino e Ana Cristina, que durante três semanas coloniza aquele espaço, construído na Adémia, uma zona “desregrada”, “descosida”, nos subúrbios da cidade de Coimbra.

Ali, onde estradas e caminhos se cruzam com uma estação de venda de combustíveis e pavilhões comerciais convivem com casas habitação mais ou menos degradadas, o arquitecto quis “deixar uma imagem forte” e “formatadora do espaço público”.

O efeito foi conseguido com a construção de dois volumes de diferentes escalas, ligados por um passadiço coberto, sobreelevado em relação à rua. Os dois edifícios são percorridos por uma linha horizontal em que o betão se transforma na chapa metálica e ondulada cinzenta escura que reveste todas as superfícies superiores, incluindo as aberturas e as coberturas. Nas janelas e no passadiço entre os dois edifícios, a transparência é conferida pela mesma chapa, perfurada.

“Claro que não me passou pela cabeça que isto fosse usado como espaço museológico”, comenta o arquitecto. Está já no interior do armazém, que foi construído em cinco módulos, com coberturas de duas águas. E olha para cima, onde clarabóias, abertas a norte, atravessam horizontalmente a cobertura, cruzando-se com as fiadas de iluminação artificial que se estendem verticalmente de uma ponta à outra da nave. “Mas, curiosamente, a luz resulta – é uma luz crua, fluorescente, difusa no espaço. Além disso, a arte contemporânea funciona muito bem com o grande espaço minimal”, continua.

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Obras de Diogo Pimentão, Ângelo de Sousa e Fernando Calhau NELSON GARRIDO

É um daqueles encontros improváveis. O edifício foi construído porque António Albertino, o proprietário, precisava de novas instalações para as suas empresas; foi desenhado por Mendes Ribeiro porque o gestor é “amigo e admirador há décadas” do arquitecto; e a mostra de arte contemporânea surgiu de uma evidência do proprietário: “O espaço ficou tão bom que eu pensei: por que não?”. Uma pitada de loucura e “uma enorme generosidade”, nas palavras de Delfim Sardo, levaram António Albertino a avançar para a segunda de duas (mais que) efémeras mostras de parte das obras que o casal colecciona desde 1992.

A primeira exposição foi há três anos, quando ele festejou os 60 de idade e decidiu pedir emprestadas as ruínas de uma fábrica de porcelanas de Coimbra por apenas um fim-de-semana. Desta vez, oferece um pouco mais de tempo: o edifício de João Mendes Ribeiro estará aberto ao público das 11h às 18h entre sexta e domingo e, daqui a uma semana, nos dias 8, 9 e 10. A entrada é livre. “Claro”.

“Por que não se prolonga até ao fim do mês?”, pergunta alguém, intrigado, no frenesim da fase final de montagem da exposição. E António Albertino rápido, estupefacto, quase impaciente: “Porque as empresas têm de se instalar. Temos de trabalhar, ora essa!”.

Está a afastar do ouvido um telemóvel obsoleto que não pára de tocar. A três dias da inauguração há obras encaixotadas, funcionários que pedem decisões urgentes por causa das empresas ou do edifício ou da mostra, que o gestor vai despachando enquanto entra e sai do futuro armazém, agora quase transformado num espaço de exposição.

Box in the box”, diz João Mendes Ribeiro sobre o plano que concebeu com o curador, Delfim Sardo, para ultrapassar o primeiríssimo obstáculo, que foi “a falta de paredes” onde colocar as obras num armazém que, afinal, continua a estar destinado a componentes de reparação e pintura de automóveis.

A caixa maior é o edifício, “o contentor”, com as paredes cruas, em betão, aqui e ali cortadas pelas tubagens, pelo quadro eléctrico, pelos fios e tomadas, que provam que até a organização daqueles materiais correntes “pode ter desenho”. Dentro do armazém, contida, está agora uma estrutura provisória, construída para a exposição, que não toca nas paredes do edifício.

São paredes inteiriças, com a altura de três metros de altura, que se auto-sustentam, forradas a branco na frente, ligadas de maneira a criar três salas que acompanham a estrutura modular do edifício. Ao arquitecto seduz o verso das paredes, uma estrutura de barrotes de madeira entrelaçados, cosidos de forma elementar, com agrafos, e que se aproximam da crueza do betão, reforçando a imagem de armazém daquele espaço, que é a que restará quando a exposição acabar.

António Albertino percorre o espaço interior da estrutura móvel. Mesmo de telemóvel colado ao ouvido pára aqui e ali. Emociona-se quando contempla um acrílico sobre tela de Ângelo de Sousa, a primeira peça que ele e Ana Cristina compraram. Têm-na no apartamento onde vivem. “Há obras que resistem. Passados 25 anos continuamos a gostar de conviver com elas. Outras vão rodando, por uma ou outra razão, às vezes porque simplesmente em casa não há luz suficiente”. Dá mais uns passos, e indica: “Este Fernando Calhau, por exemplo, repara nas nuances do preto”. Aproxima o rosto da tela. “Uma casa… Por mais que se faça uma casa nunca tem esta luz”.

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Um Sopro, 1998–2001. Rui Chafes. Edifício de João Mendes Ribeiro NELSON GARRIDO

Outra das obras que tem no seu apartamento é a de Andy Warhol, que, avisa, “não é nada do que se espera ver quando se diz Andy Warhol". Está já em frente do esquisso, grafite sobre papel, com o título Male nude (1983). Adquiriu-o numa galeria, em Espanha. Diz que apesar de visitar feiras de arte, compra a maior parte das obras em galerias. E acrescenta que algumas só fazem parte da sua colecção porque, ao longo dos últimos 25 anos (“se calhar um bocado por causa das nossas personalidades”, comenta), o casal foi estreitando laços com artistas e galeristas, que já cederam obras “a preço simbólico ou a título gratuito”.

Delfim Sardo, que conhece António Albertino e Ana Cristina “há muitos anos” diz que “é rigorosamente assim”. Em relação à arte e à capacidade de mobilizar os outros. O convite para a exposição foi oferecido pelo premiado designer João Bicker, da FBA. Os arquitectos continuam a trabalhar, depois de a obra estar entregue, para que a inauguração aconteça. O curador levantou-se às 6h para mais um dia de trabalho pro bono e já passava das 15h quando, acompanhado de António Albertino, engoliu uma sandes à pressa, em jeito de almoço.

“É um pouco excêntrico, uma pessoa apaixonada. Compra porque gosta e por isso a colecção é muito diversa, flutua ao ritmo de um gosto que evolui e se modifica ao longo dos anos e em que o ponto comum, o que não se apaga, é precisamente o fascínio que ele tem por determinadas obras”, diz Delfim Sardo. Dirá, mais tarde, que apesar de terem origens muito diversas, algumas das que escolheu expor fazem parte da sua “shortist mais restrita”.

O curador já “fechou” a sala onde o dorso de Lisa Lyon (1982), de Robert Mapplethorpe, se cruza com as Cinzas de Pasolini II ( 2004), de Rui Chafes, e o Male nude de Warhol. “Ouves?!”, pergunta António Albertino, com um sorriso. Não muito longe está a caixa com as balas de chumbo que hão-de formar Seeds IV (1993), de Antony Gormley, e a fase de montagen está longe de estar terminada. Mas já ecoa algures, no imenso armazém, o som de um avião, que nasce numa escultura de Rui Toscano (From Point A To Point B, 2009) – “Ouves?”

A António agrada “a poética da viagem” sugerida pelo som; Delfim Sardo ainda procura o lugar da peça. Constroem um sentido que concilia os olhares do curador e dos coleccionadores e que, assentam no final, começará por sugerir " uma tónica de memória, que se converte num tópico sobre o peso e a gravitação, que conduz ao corpo e daí à linguagem e à aquitectura".

Quem começar a visita pelo armazém será recebido pel’ O Beijo da Sereia (2011) de Rui Chafes. Se for até dia 10 de Maio, claro. Na semana seguinte será apagada a memória da exposição, que existe para isso mesmo, para não deixar rasto. Ali, onde estão O Azul do Céu a G.B. (2000) de Jorge Molder e La Fête de Pourim de Christian Boltanski (1988), ficarão latas de tinta, solventes, resinas e outros componentes para reparação automóvel.

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