Crítica

As cicatrizes alemãs

O que torna Petzold mais interessante é o facto de o seu grande modelo ser colhido no clássico americano, de que ele é hoje, e no melhor sentido da palavra, um dos principais “reprodutores”.

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A pouco e pouco, mas sempre discreto, sem se tornar “troféu” para os festivais, Christian Petzold vai-se afirmando como um dos nomes cruciais do cinema europeu contemporâneo.

As suas observações sobre a história alemã – como no precedente Barbara, sobre a RDA – são de uma finíssima subtileza que foge sempre ao óbvio, e esse é mais uma vez o caso deste Phoenix, olhar sobre a Alemanha saída da II Guerra, prestes a renascer das cinzas como a grande “fénix” da Europa.

O que torna Petzold ainda mais interessante é o facto de o seu grande modelo, formal e narrativo, ser quase integralmente colhido no clássico americano, de que ele é hoje, e no melhor sentido da palavra, um dos principais “reprodutores” (e mesmo na América só um nome, o de James Gray, vem rapidamente ao espírito quando se trata de evocar este entendimento do “clássico” como um vocabulário ou uma gramática). Qualidades que se espraiam maravilhosamente neste assombrado (e por vezes assombroso) relato de uma mulher que “vive duas vezes”, entre ecos múltiplos (de Hitchcock aos rubble films do pós-guerra, do film noir a Fassbinder), e com uma protagonista que hoje, e só pelos Petzolds, é uma das grandes actrizes europeias de cinema, Nina Hoss.