Crítica

Celebrar Billie Holiday

José James é respeitoso. Cassandra Wilson arrisca mais. Mas os resultados são convincentes.

Mesmo os mais familiarizados com Holiday não terão facilidade em reconhecer as versões de Cassandra Wilson
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Mesmo os mais familiarizados com Holiday não terão facilidade em reconhecer as versões de Cassandra Wilson

A 7 de Abril celebrou-se o centenário do nascimento de Billie Holiday, a voz que ajudou a definir a forma de cantar no jazz, sucedendo-se os tributos um pouco por todo o mundo. É nesse contexto que surgem estes álbuns por duas importantes vozes americanas. José James é respeitoso. Cassandra Wilson arrisca mais. Mas em ambos os casos os resultados são convincentes. 

Cassandra Wilson, 59 anos, possui uma tonalidade vocal muito diferente da cantora falecida aos 44 anos, mas a sua opção de reinterpretar radicalmente algumas das canções de Holiday, ou popularizadas por ela, não se deve procurar aí. Em algumas entrevistas Wilson tem dito que não desejava fazer um álbum tradicional de jazz e isso pressente-se, procurando novos ângulos na aproximação às versões clássicas de Holiday. 

Sem constrangimentos de criar uma homenagem literal, a cantora fez-se rodear de uma equipa surpreendente. Em primeiro lugar, o produtor: Nick Launay, conhecido pelo trabalho com Nick Cave e os Bad Seeds. Depois, o histórico Van Dyke Parks, criador das orquestrações, e um naipe de músicos que inclui, para além de colaboradores habituais de Wilson, nomes como Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs) e T Bone Burnett nas guitarras ou a secção rítmica dos Bad Seeds. 

Mesmo os mais familiarizados com Holiday não terão facilidade em reconhecer estas canções. As roupagens e a interpretação apontam para novas configurações, com a secção rítmica a atribuir uma tonalidade blues-rock, como em Don’t explainGood morning heartache ou Billie’s blues, enquanto as orquestrações luxuriantes envolvem baladas como You go to my headThose foolish things ou Last song (for Lester). Nesses casos a música resulta harmónica, há espaço para a respiração vocal, em sequências atmosféricas, marcadas por elegância e sobriedade, naquele que é o seu melhor disco em muitos anos. 

José James, 37 anos, é mais respeitador do cânone. Em vez da arquitectura sónica renovada, concentra-se na interpretação. O que não deixa de ser curioso. É que o americano, ao longo dos três primeiros álbuns, moveu-se pelos caminhos da soul-jazz de confluência electrónica, fazendo-se acompanhar por agentes amigos da experimentação, como Flying Lotus e Moodymann, e aos poucos foi-se tornando num cantor bem mais clássico, como acontecia no belíssimo No Beginning No Endde 2013 – o seu primeiro registo para a histórica Blue Note – e o seguinte While You Were Sleeping

Principalmente em No Beginning No End deixou-se de desejos progressistas, concebendo canções nocturnas ternas, com jazz e soul lá dentro, num disco desnudado e sereno, onde o som parecia esculpir com elegância o espaço sonoro envolvente. 

Há qualquer coisa disso aqui. Alguns clássicos de Holiday (Good morning heartacheBody and soul ou Strange fruit) são deixados quase intactos, com a voz de barítono de James a deixar-se envolver pelo ambiente narcótico e o ritmo dolente. 

Curiosamente, é quanto os músicos – o excelente pianista Jason Moran, o baixista John Patitucci e o baterista Eric Harland – se libertam de quaisquer imperativos que existe mais espaço para a reinvenção. Em particular os solos de piano (em What a little moonlight can do ou Lover man) acabam por fazer com que a música de James, através de Holiday, ganhe novas asas. 

O resto são ambientes noctívagos, onde quase se parece ouvir o ritmo cardíaco da música, num álbum de canções introspectivas, onde James se contempla a si próprio, e nós com ele, através das canções familiares de Billie Holiday.