Costa e Piketty criticam modelo europeu que aposta na austeridade

Líder do PS reuniu-se com o economista francês Thomas Piketty. Ambos defenderam a necessidade de a Europa encontrar soluções comuns para estimular o crescimento em toda a zona euro.

Thomas Piketty está em Lisboa para promover a edição em português do seu livro O Capital no Século XXI.
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Thomas Piketty está em Lisboa para promover a edição em português do seu livro O Capital no Século XXI. REUTERS/Charles Platiau

A agenda do economista francês Thomas Piketty em Lisboa confirma a filosofia anti-austeridade que defendeu ao lado do secretário-geral do PS esta segunda-feira de manhã. O académico e António Costa criticaram o modelo europeu que aposta na austeridade, assim como a atitude da França e da Alemanha, e defenderam a necessidade de políticas que estimulem o crescimento.

“Estamos a cometer um erro na Europa ao acreditarmos que podemos reduzir uma dívida pública tão grande simplesmente acrescentando austeridade a mais austeridade”, afirmou Thomas Piketty aos jornalistas no jardim do palacete da sede do PS, com o som do trânsito do Largo do Rato como banda sonora, depois de um encontro de mais de uma hora com o líder socialista ao final da manhã. Depois, o economista tinha um almoço marcado com RuiTavares (Livre/Tempo de Avançar) e o vereador lisboeta João Afonso (Movimento Cidadãos por Lisboa), e ainda um encontro com Sampaio da Nóvoa.

Citando o seu livro O Capital no Século XXI - um êxito de vendas a nível internacional e que agora está traduzido para português -, o economista realçou que, na história da dívida pública na Europa, se percebe que quando se tem uma dívida pública de 100% ou mais do PIB é impossível conseguir excedentes orçamentais (que ajudariam a reduzir a dívida) com austeridade.

“Quando se tem uma inflação zero e um nível de crescimento muito pequeno, é quase impossível reduzir uma dívida pública tão grande. Não é apenas uma questão de políticas de esquerda ou direita, é também uma questão de olhar para a história e ver as evidências”, avisa Thomas Piketty, exemplificando com os casos francês e alemão, que no pós-II guerra reduziram a sua dívida apostando no crescimento económico e apoiando-se na inflação.

O académico não se coíbe de apontar o dedo: “É um pouco estranho que agora países como a Alemanha ou a França, que nunca pagaram a sua dívida pública no período pós-II guerra mundial, andem agora a explicar a Portugal, Grécia e Espanha que tudo tem que ser pago até ao último euro, que não pode haver inflação nem reestruturação da dívida.”

O "egoísmo" francês e alemão

Piketty diz ainda que “a Alemanha e a França têm sido muito egoístas, e muito ineficazes nas suas decisões”, que ajudaram a levar a zona euro para a situação complicada em que se encontra, em especial com as altas taxas de desemprego – que dificultam a tarefa da redução da dívida. Por isso, o economista defende que os dois países “devem aceitar a sua quota parte de responsabilidade pela má situação na Europa e reorientar as suas políticas”. Em França, os erros vieram dos dois lados – da direita e da esquerda, de Sarkozy e de Hollande, aponta Piketty. “Mas o problema não é passado, é o futuro.”

António Costa haveria de corroborar a visão de Thomas Piketty, lembrando que “Portugal é um excelente exemplo de que a austeridade, de facto, não resolve o problema da dívida”. “Depois de quatro anos de austeridade, de cortes de salários, de cortes de pensões, de aumento da carga fiscal, a verdade é que temos hoje uma dívida 30 pontos percentuais acima daquela que tínhamos e com piores condições de a pagar”, descreveu o líder do PS. “A necessidade de pôr termo à política de austeridade e apostar na criação de emprego como condição essencial para relançar a economia é absolutamente essencial”, acrescentou Costa.

Mas ainda há esperança, admite o economista francês. “As novas eleições em Portugal, Espanha e Grécia podem fazer a diferença para reorientar a Europa”, embora Piketty não tenha confiança absoluta no novo modelo grego. “A questão não é dizer que a Grécia tem a solução certa para o resto da Europa. E eu não acho que tenha. Mas acho que é importante que todos os Governos da Europa tentem trabalhar com o sul da europa e com novos partidos, de forma a mudar as nossas políticas e ter melhores políticas macro-económicas como um todo.”

Costa haveria de concordar com Piketty, a quem ofereceu um exemplar em inglês do cenário macro-económico socialista apresentado na passada semana, designado “Uma década para Portugal”. “Não podemos ter uma postura meramente submissa relativamente às posições que são discutidas no Conselho Europeu. Temos que ter uma posição activa em defesa da economia e em defesa dos interesses nacionais”, defendeu o líder socialista. Que acrescentou ser preciso que o conjunto da zona euro encontre respostas para um “novo equilíbrio entre os recursos que são alocados ao pagamento da dívida, os que são alocados ao cumprimento das nossas obrigações constitucionais e os recursos que é preciso ter para fazer os investimentos estruturantes da economia”.

“É importante que Portugal e Espanha, com Itália e França, possam contribuir para convencer a Alemanha que estas decisões tomadas em 2012 não foram boas para a zona euro como um todo nem para a Alemanha”, defende Thomas Piketty, realçando que a taxa de crescimento alemã é neste momento duas vezes menor que a de Inglaterra (que está fora da zona euro).

E na comparação simples com os Estados Unidos a Europa também fica a perder: “Em 2010, tínhamos a mesma taxa de desemprego e a mesma dívida pública. Cinco anos mais tarde, temos uma recuperação económica nos EUA, uma redução da taxa de desemprego. Enquanto na Europa esta taxa aumentou muito e até mesmo hoje, num país como Portugal continuamos a ter níveis de actividade económica mais baixos do que tínhamos há 10 anos”, apontou o economista francês.