Nem todos são Charlie no PEN American Center

Seis das seis dezenas de autores que deveriam ser anfitriões da gala anual retiraram-se. Discordam que o prémio Liberdade de Expressão e Coragem vá para um jornal que se centrava “em provocações racistas e islamófobas”.

"Somos Charlie" foi o slogan de inúmeras manifestações e iniciativas de homenagem ao jornal depois dos ataques
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"Somos Charlie" foi o slogan de inúmeras manifestações e iniciativas de homenagem ao jornal depois dos ataques Cesar Manso/AFP

A decisão foi anunciada em Março e a gala anual da PEN está marcada para 5 de Maio, mas foi agora que a polémica estalou. Seis romancistas decidiram que não serão anfitriões literários da gala, como previsto, porque o prémio de Liberdade de Expressão e Coragem será este ano atribuído ao jornal satírico francês Charlie Hebdo.

Uma ausência pode ser apenas isso, mas não é. Os autores discordam fortemente da decisão de atribuir este prémio a uma publicação que consideram promover “uma espécie de visão secular forçada” e uma “cultura de intolerância” (escreveu Rachel Kushner num email enviado à liderança da PEN). “Um crime hediondo foi cometido, mas trata-se de um assunto de liberdade de expressão sobre o qual a PEN America se sinta moralmente superior ao ponto de pregar sermões aos outros?”, pergunta Peter Carey, outro dos que se opõe à decisão, numa troca de emails com o jornal The New York Times.

A associação internacional de escritores que trabalha para promover a literatura e a liberdade de expressão tem muitos centros espalhados pelo mundo. A gala anual do PEN American Center é uma enorme iniciativa de angariação de fundos, que acontece durante o World Voices Festival da organização e reúne em Nova Iorque dezenas de escritores de todo o mundo, mais de 800 autores, editores e doadores.

O Charlie Hebdo tornou-se, para muitos em várias partes do globo, símbolo da liberdade de expressão e das ameaças que esta enfrenta. Foi a 7 de Janeiro, durante a primeira reunião do ano, quando dois extremistas armados entraram na redacção e dispararam a matar em vingança pelos polémicos e recorrentes cartoons que a publicação dedicava a Maomé. Morreram doze pessoas, incluindo o director, alguns dos mais icónicos cartoonistas de uma geração ou um polícia que correu para tentar travar o atentado.

“Todos sabíamos que, de certa forma, esta seria uma escolha controversa”, diz ao New York Times Andrew Solomon, actual presidente da PEN. “Mas não senti que o assunto fosse necessariamente gerar estas preocupações específicas por parte destes em autores em particular.”

Para além da norte-americana Kushner e do australiano Carey, os romancistas Michael Ondaatje (canadiano nascido no Sri Lanka, já galardoado com o mesmo prémio), Francine Prose (norte-americana), Teju Cole (nigeriano-americano) e Taiye Selasi (nigeriana de origem ganesa) anunciaram que não estarão presentes na cerimónia do Museu de História Natural de Manhattan.

Num texto para o site da revista New Yorker, pouco depois dos atentados, Cole escreveu que o Charlie Hebdo reclama ofender tudo e todos mas, na verdade, nos últimos anos “se concentrou em provocações racistas e islamófobas)”. Já este mês, o cartoonista norte-americano Garry Trudeau tinha sido criticado por vários comentadores quando afirmou que “o Charlie caminhava entre o discurso de ódio ao atacar uma minoria marginalizada e sem poder com desenhos grosseiros e vulgares”.

Aplaudir Charlie
“Fiquei muito perturbado assim que soube [do prémio]”, afirma Prose, ex-presidente da PEN America, numa entrevista à Associated Press. Prose explica que defende a “liberdade de discurso sem limites” e que “deplora” os ataques de Janeiro, mas acrescenta que este prémio significa “admiração e respeito” pelo trabalho dos distinguidos. “Não me posso imaginar na audiência quando houver uma ovação de pé pelo Charlie Hebdo”, diz a escritora, uma entre as seis dezenas de pessoas que deveriam ser anfitriãs da cerimónia.

Opiniões idênticas foram entretanto manifestadas por membros da PEN que não estão envolvidos na gala. A contista Deborah Eisenberg diz que mal soube do prémio escreveu a Suzanne Nossel, directora executiva do grupo, a criticar a escolha. “O que eu questiono é o que é que a PEN está a tentar transmitir ao premiar um jornal que se tornou famoso tanto pelo terrível assassínio dos seus membros por parte de extremistas muçulmanos como pelas representações que denigrem dos muçulmanos.”

Naturalmente, nem todos os membros da PEN concordam com a posição assumida pelos seis autores que se sabe terem abandonado as funções que teriam na gala. Salman Rushdie, ex-presidente da PEN que viveu anos escondido por causa da fatwa (decreto) emitida no Irão em resposta ao seu livro Os Versículos Satânicos lamenta que os seus amigos de longa data, Carey e Ondaatje, estejam tão “terrivelmente enganados”.

“Se uma organização de defesa da liberdade de expressão como a PEN não pode defender e celebrar pessoas que foram assassinadas por fazerem desenhos, então francamente a organização não merece o seu nome”, diz Rushdie. “O que eu diria tanto ao Peter como ao Michael e aos outros é que espero que nunca ninguém os persiga.”

Afirmar os princípios
A organização sentiu-se obrigada a defender o prémio, que será recebido em Nova Iorque por Gerard Biard, chefe de redacção, e Jean-Baptiste Thoret, que chegou atrasado à reunião de 7 de Janeiro. “Não há dúvidas que para além de provocar ameaças violentas de extremistas, os cartoons do Hebdo ofenderam outros muçulmanos”, escreveu num comunicado Andrew Solomon. E ainda: “Não acreditamos que nenhum de nós tenha de apoiar todos os conteúdos do Charlie Hebdo para podermos afirmar os princípios que defendia ou aplaudir a coragem dos seus membros em defender esses princípios face a ameaças de vida ou de morte.”

“Mas, com base nas suas próprias declarações, acreditamos que a intenção do Charlie Hebdo não era ostracizar ou insultar os muçulmanos, mas rejeitar os esforços de uma pequena minoria para proibir partes consideráveis de inteiras categorias de discurso, independentemente do objecto, intenção ou relevância da expressão”, afirma ainda Solomon.

Os protestos destes romancistas são a “maior controvérsia da memória recente do PEN America Center”, escreve o diário britânico The Guardian, recordando as críticas geradas pelo convite, feito por Norman Mailer, em 1986, ao então secretário de Estado George P. Shultz para falar no Congresso Internacional da Pen.