Crítica

Um concerto com duas faces distintas

A beleza e o requinte da música “degenerada” foram o mote do segundo concerto do díptico Músicas Proibidas integrado no ciclo Música e Revolução da Casa da Música. O concerto valeu pelo interessante repertório apresentado e pela qualidade interpretativa da primeira parte.

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Remix Ensemble dr

O díptico Músicas Proibidas I e II, integrado na edição de 2015 do cicloMúsica e Revolução da Casa da Música, proporcionou a audição de um conjunto de obras de compositores germânicos que foram alvo da violenta censura que o regime Nazi promoveu, particularmente a partir da exposição Música Degenerada que se realizou em Düsseldorf no ano de 1938.

Ao nível musical a estratégia propagandística do III Reich caracterizou-se pela feroz intolerância em relação à música de compositores de origem judaica e a toda a música que apresentasse características modernas. Neste sentido o programa do concerto do passado domingo foi integralmente constituído por obras de importantes compositores germânicos judeus que foram alvo de censura e de perseguição: Alexander von Zemlinsky (1871-1942), Franz Schreker (1878-1933) e Kurt Weill (1900-1950). O repertório escolhido possibilitou a audição de um conjunto de obras pouco conhecidas do grande público mas indubitavelmente merecedoras de atenção devido à sua beleza e poder expressivo.

A soprano Ângela Alves e o Remix Ensemble proporcionaram uma interpretação segura e convincente de duas das seis canções do magnífico ciclo Op. 13, que Zemlinsky compôs sobre poemas do simbolista Maurice Maeterlinck (1862-1949). Este ciclo de canções, composto entre 1910 e 1913 originalmente para mezzo soprano e piano, alia à singeleza da linha vocal uma linguagem musical ousada e subtil, particularmente ao nível da harmonia e do contraponto. As duas canções escolhidas (a segunda e a quinta do ciclo) foram apresentadas na versão para ensemble de câmara realizada em 1921 por Erwin Stein (1885-1958) – compositor, maestro e musicógrafo vienense, também de origem judaica. Os intérpretes tiraram partido da delicada textura contrapontística, cuja orquestração faz com que a linha vocal e as linhas instrumentais se complementem e por vezes se confundam de forma subtil.

Composta em 1916 por Franz Schreker a Sinfonia de Câmara para 23 instrumentistas é reveladora da sensibilidade do compositor para o colorido sonoro de matriz impressionista. O Remix Ensemble, dirigido pelo maestro Baldur Brönnimann, produziu sonoridades coesas e equilibradas que realçaram o colorido harmónico e tímbrico da obra, tantos nas secções camarísticas como nas secções predominantemente sinfónicas. Foi igualmente eficaz o desempenho técnico e expressivo dos músicos que, numa partitura exigente, souberam respeitar as diversas oscilações de agógica, assim como as mudanças de andamento e de carácter que a partitura apresenta, sendo aqui importante referir a clareza da direcção de Brönnimann.

Na segunda parte do concerto a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música interpretou o Prelúdio ao I Acto da Ópera Os estigmatizados de Schreker e a Sinfonia nº 2 de Weill. O Prelúdio apresenta uma linguagem mais conservadora do que a Sinfonia de Câmara, aproximando-se mais do estilo de Richard Wagner e de Richard Strauss. O discurso musical é igualmente colorido e recorre com mais frequência a sonoridades sinfónicas de maior densidade. A orquestra teve dificuldade em manter o equilíbrio sonoro dos vários naipes, nomeadamente nos tutti de maior intensidade, nos quais a sonoridade dos sopros (particularmente de alguns metais) se sobrepunha facilmente à restante orquestra.

Apesar da Sinfonia nº 2 de Weill recorrer a uma orquestra mais pequena, com menos sopros e percussão, o desequilíbrio sonoro persistiu. Faltou brilho e coesão à sonoridade das cordas, assim como uma maior coordenação rítmica, particularmente no primeiro e no terceiro andamentos, mais vivos e enérgicos. Os temas desta sinfonia evocam a mordacidade, a angústia e a frieza que caracterizam algumas obras dramáticas de Weill. No sentido de sublinhar estes traços psicológicos exigia-se uma execução mais segura e rigorosa que conduzisse a uma interpretação contundente. No entanto tal não se verificou, ficando esta aquém do exigido pela partitura de Weill. A obra não é particularmente difícil do ponto de vista técnico, exige sim uma clara compreensão da dimensão psicológica/expressiva e uma execução mais cuidada e rigorosa por parte da secção de cordas, especialmente do naipe de violinos que estão frequentemente em maior destaque.