Opinião

A mentira da criatividade

O sentido da palavra criatividade banalizou-se. Hoje não existe anúncio de emprego para empresas ou instituições que não tenha um item a proclamar que se privilegiam pessoas criativas, com capacidade inovadora e ideias fora da caixa.

E se o mercado quer é sintomático que surjam cada vez mais pessoas apresentando-se com esse perfil. É natural que assim seja. Não existe político ou empresário que nos últimos anos não debite com aparente convicção que inovar é necessário.

Ontem um letreiro avisava-me que tinha acabado de entrar numa ‘pastelaria criativa’. Ainda olhei para o meu palmier simples a ver se tinha linhas complexas desenhadas por um designer ou se o sabor era exótico, mas não, era apenas um simples, honesto e saboroso palmier. E suspirei de alívio.

Não me interpretem mal. Ser criativo, inovador e ter ideias fora da caixa, é óptimo. Mas não existem muitas pessoas com esse perfil. E tenho sérias dúvidas que as empresas as desejem. O que temos hoje em dia é a romantização dessas noções e sua apropriação superficial, através da retórica que as envolve.

Por um lado vemos cada vez mais difundido o desígnio de que todos podemos triunfar com uma boa ideia. Na verdade celebramos aqueles que consideramos serem criativos, mas apenas a partir do resultado que produziram. A realidade é esta: a maior parte das pessoas, empresas ou instituições tem dificuldade em lidar com indivíduos realmente criativos.

Há excepções? Há, como em tudo. Mas não passam disso. E isso pressente-se logo na escola, pouco preparada para enquadrar a diferença e lidar com a criatividade – que é algo que todos podemos alcançar, mas que necessita de ser trabalhada, activada ou desbloqueada, como quisermos.

Depois existe essa fantasia de que as estruturas desejam pessoas criativas no seu seio. Na teoria, talvez. Mas se estas o forem realmente é quase certo que irão gerar incertezas. Não serão muito fáceis de enquadrar. Terão um espírito independente e critico. E necessitarão de tempo.

São pessoas que para providenciarem novas soluções terão de se colocar em causa também a si próprias. E se estiverem também ao serviço da comunidade providenciarão soluções inclusivas. Não espanta que muitas delas sejam uma tormenta para quem precisa de se reafirmar a partir dos pequenos poderes e tem de fazer pela vidinha – isto é, quase todos nós.

Nas escolas, nas instituições ou no mundo do trabalho, são as soluções já ensaiadas, ou o conforto da norma, que são aceites maioritariamente. Em parte, é por isso, que não há por aí tanta gente criativa como nos querem fazer crer. Não é fácil lidar com a rejeição, a frustração, ou a solidão, de não se ser aceite.

E também não é simples laborar com a pressão de resultados imediatos, sabendo-se da duração que é necessário para experimentar por vezes. As ideias verdadeiramente produtivas podem levar tempo. É preciso disciplina e resiliência. Coisas com pouco ‘glamour’ e que exigem enorme persistência.

No início da crise financeira muito se ouviu em Portugal que esta iria constituir uma oportunidade para as pessoas criativas.

Talvez na Islândia, mas aqui? Um país onde as universidades são vistas como meras fábricas de empregos? Onde o conhecimento é pouco partilhado? Onde os artistas são desprezados? Onde a cultura é sempre encarada como problema e nunca como fazendo parte do leque de soluções?

Mais uma vez, não me interpretem mal. As pessoas criativas são-no em que situação for. Não é isso. A questão é que a crise fez despoletar ainda mais as forças do medo e da insegurança, da burocracia e da tecnocracia, a que se agarram os que receiam a mudança e tudo o que lhes foge do controlo.

Talvez seja por isso que existem cada vez mais empresas e organizações a solicitar criativos, forma de os domesticar e de nos serem devolvidos em forma de cartão postal, gente imaculada com muita pinta, que se diz criativa, mas que nunca experimentou sair verdadeiramente do conforto da caixa.