Tem algum familiar com demência? Portugal já tem oito "Cafés Memória"

Começa a funcionar este sábado, em Algés, mais um local de encontro para pessoas com problemas de memória ou demência, seus familiares e cuidadores.

A crise económica pode levar familiares de idosos a pedirem a interdição destes com o objectivo de aceder ao seu património
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A crise económica pode levar familiares de idosos a pedirem a interdição destes com o objectivo de aceder ao seu património Daniel Rocha

A mãe começou por “fazer muitas depressões”. Com o passar do tempo, foi-se tornando evidente a crescente falta de memória. “Está sempre a perguntar a mesma coisa”, suspira a filha, Lídia Piedade. Seguiram-se várias consultas em psiquiatras e em neurologistas. Submeteram-na a uma multiplicidade de avaliações e de exames, incluindo ressonâncias magnéticas. Até que, por fim, o diagnóstico chegou: doença de Alzheimer, a forma de demência mais comum em Portugal e em todo o mundo. Hoje, a mãe de Lídia ainda tem “momentos de lucidez”, mas há dias em que já não conhece a própria filha.

Mesmo assim, é com um sorriso que Lídia recorda o “calvário” por que tem passado desde que a progenitora, hoje com 84 anos, começou a apresentar sinais de perda de memória: “Acho que a minha dor é grande, mas, se olhar para o lado, vejo pessoas com dores maiores”.

Lídia está a aprender a lidar com o sofrimento de assistir ao desaparecimento gradual da mulher que conhecia num local de encontro recentemente criado no Porto, o “Café Memória”, onde há pessoas que estão a passar pelo mesmo processo que ela, que sentem o mesmo que ela e a compreendem. Veio sozinha, mas, nas mesas ao lado, há pessoas que trouxeram os familiares, doentes. O ambiente é informal, os participantes espalham-se por várias mesas redondas e toda a gente conversa.

Criado em Abril de 2013 por iniciativa da associação Alzheimer Portugal e da Sonae Sierra (do universo Sonae, a proprietária do PÚBLICO), o projecto “Café Memória” visa organizar locais de encontro - onde, uma vez por mês em sessões de duas horas, se incentiva a partilha de experiências e o apoio mútuo. São espaços para pessoas com falhas de memória ou com demência (síndrome que pode ter causas diferentes), mas sobretudo para os seus cuidadores e familiares. Melhorar a qualidade de vida e o isolamento em que estas pessoas tantas vezes sem encontram é o grande objectivo da iniciativa - que pretende ainda sensibilizar a comunidade para relevância crescente do problema.

O que se oferece nos “Cafés Memória”, que têm sessões mensais de duas horas, em diferentes sábados do mês? Apoio emocional, informação útil, além de actividades lúdicas, sempre com a ajuda de profissionais de saúde ou de acção social. O que se pede? Basicamente que as pessoas falem uma com as outras, que participem nos jogos - que podem ser de memória, de associação de palavras e de orientação - e que assistam, por vezes, a sessões de esclarecimento com especialistas. 

A participação é gratuita e não é necessária marcação prévia, ainda que idealmente as sessões “não devam ter mais de 30 pessoas”, explica Catarina Alvarez, a psicóloga que coordena este projecto transplantado do Reino Unido e adaptado a Portugal, graças a vários parceiros institucionais e ao apoio de voluntários.

O distrito de Lisboa, onde a experiência arrancou, já conta com vários espaços (ver caixa). Agora, com apenas dois anos de história, o “Café Memória” vai-se ramificando. A ideia é criar uma rede em todo o país. Este sábado de manhã é dado mais um passo, com a abertura do oitavo local de encontro, no Fórum Apoio, em Algés, Oeiras. Mas não vai ficar por aqui. “Queremos abrir um em Viseu, até ao final do primeiro semestre deste ano e temos mais pedidos em carteira”, adianta a psicóloga, satisfeita com o número de participações, mais de 1500 em dois anos.

Em cada sessão estão sempre presentes dois técnicos de saúde ou de acção social e entre seis a oito voluntários, alguns dos quais são ex-cuidadores de pessoas com demência, e há sempre uma pausa durante a qual se serve café e uma fatia de bolo. Os jogos e as actividades são fundamentais. “Queremos espicaçar o espírito competitivo das pessoas e esperamos também que se divirtam”, enfatiza a psicóloga, que destaca a importância de contrariar o conjunto de “falsas crenças” que subsistem sobre a demência. “Como não há cura nem há vacinas, as pessoas pensam que não há nada a fazer”, lamenta. 

Catarina acredita que esta iniciativa pode ainda ajudar a sensibilizar a comunidade para este problema de saúde pública, que é “prioritário”. Os dados epidemiológicos apontam para a existência de 182 mil pessoas com demência em Portugal,das quais a maior parte tem doença de Alzheimeir. No entanto, frisa, “não existe ainda um plano nacional para as demências”, ao contrário do que acontece em vários países europeus. “É alarmante”, remata.

A psicóloga quer que 2015 termine com pelo menos uma dezena de “Cafés Memória” espalhados pelo país. Por enquanto, têm sido as próprias entidades a contactar os organizadores e, apesar de os recursos serem limitados, tem sido possível “dar conta do recado”. Quem pretender abrir um “Café Memória” deve pensar, primeiro, em assegurar a participação de dois técnicos (de saúde ou assistentes sociais), em ter um local adequado e parceiros, “mecenas” que garantam o funcionamento do projecto pelo menos durante um ano. 

Na sessão do Café Memória do Porto a que o PÚBLICO assistiu, o neurologista Celso Pontes, coordenador científico da Alzheimer Portugal, falou as alterações cognitivas provocadas pela demência e os diversos medicamentos que podem ser utilizados para aliviar os sintomas, uma vez que não há cura. “Nem todos os doentes respondem da mesma maneira”, avisou o neurologista. “Quando olha para o doente, o médico está a fazer artesanato".

Onde funcionam?
Os "Cafés Memória”fazem parte de um projecto mais vasto, o "Cuidar Melhor", que visa apoiar aos cuidadores de pessoas com demência, e que também é da responsabilidade da associação Alzheimer Portugal e da Sonae Sierra, além de contar com o apoio de vários parceiros como a Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação Montepio e o Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa.

O "Cuidar Melhor" inclui "workshops" para cuidadores, sessões para aprender a lidar com alterações de comportamento ou perda de mobilidade, além de apoio jurídico em três gabinetes criados para o efeito em Cascais, Oeiras e Sintra.

Em 2013, os "Cafés Memória" arrancaram com as primeiras sessões no Centro Comercial Colombo e no Cascaishopping (nos restaurantes Portugália, das 9h às 11h, no primeiro e no terceiro sábado de cada mês, respectivamente). 

Em Fevereiro de 2014, fruto da parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foram criados dois novos locais, na cafetaria do Museu de S. Roque (das 10h às 12h no segundo sábado do mês) e no Espaço Santa Casa (das 15h às 17h no quarto sábado). No ano passado, o projecto chegou ainda a Campo Maior, no Alentejo (Centro Internacional de Pós-Graduação Comendador Rui Nabeiro, entre as 10h e 12h, segundo sábado).

Em Novembro, a iniciativa foi alargada ao Porto (Espaço Atmosfera M do Montepio Geral, na Rua Júlio Dinis, das 10h às 12h, segundo sábado) e também a Viana do Castelo. (Estação Viana Shopping – Restaurante Camelo, entre as 9h e as 11h, quarto sábado).