Opinião

Uma vida nova?

A ilusão que por aí se criou de que António Costa iria agora finalmente arrastar consigo uma parte da extrema-esquerda, como se as legislativas se destinassem a eleger a Câmara de Lisboa, acabou na terça-feira.

O “documento” dos doze sábios de António Costa veio demonstrar que a natureza política de Portugal não mudou desde 1974.

É bom lembrar que durante o PREC o PS foi a fronteira entre a democracia e a “revolução”; e que Mário Soares ganhou a eleição para a Constituinte com o slogan “A Europa connosco”. A base do programa de Costa, como muito boa gente já notou, também assenta na vontade de ficar na “Europa” e rejeita qualquer aventura do género Syriza que possa comprometer o nosso estatuto nessa utópica comunidade. Os portugueses viveram séculos na esperança de pertencer à “grande civilização” da França, da Inglaterra e da Alemanha; e a copiar em pormenor as modas culturais de Paris. Não se muda uma velha e venerada herança histórica com algumas cenas de histerismo na televisão.

Desde o princípio dos princípios que a distribuição na Assembleia da República não muda: 80% para os partidos do que hoje se chama “o arco da governação” e 20% para a extrema-esquerda. O que dá uma definitiva vantagem à direita (que ganhou a maioria absoluta cinco vezes), mas condena o PS a uma quase permanente menoridade (a maioria de Sócrates não passou de uma aberração passageira). A ilusão que por aí se criou de que António Costa iria agora finalmente arrastar consigo uma parte da extrema-esquerda, como se as legislativas se destinassem a eleger a Câmara de Lisboa, acabou na terça-feira. O PS escolheu o seu campo tradicional e cortou com a cauda de oportunistas, que se lhe pegara à espera de uma Secretaria de Estado, de um emprego ou de um subsídio.

Isto, claro, não nos livra de uma larga dose de demagogia até Outubro (ou Setembro), mas repõe as coisas nos seus sítios. Sucede, infelizmente, que um governo PS será por força um governo precário e fraco e num tempo de crise pode complicar a vida aos portugueses. Os partidos, de resto, no seu conjunto não têm conseguido fazer as reformas de que o país precisa, por falta de legitimidade e força. Estão corrompidos, sem um propósito ou uma visão da sociedade e do mundo; e dominados por bandos de intriguistas profissionais que eles próprios criaram. De certa maneira, a democracia parlamentar em Portugal chegou ao seu fim. Mas não com certeza a democracia em outras formas — como, por exemplo, o presidencialismo capazes de ordenar a perene balbúrdia em que vivemos e representar o eleitorado como os partidos da República de 76 já não representam.