E tudo a música levou

Os Dias da Música em Belém celebram a música que o cinema usa, cria e recria, numa programação marcada por uma enorme diversidade.

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Morte em Veneza
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Mary Poppins
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Buster Keaton
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Laranja Mecânica
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Serenata à Chuva
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Yellow Submarine

Desde cedo que o cinema chamou a música para o acompanhar, mesmo quando ainda era mudo.

Pianistas, pequenos grupos de câmara e orquestras acompanhavam as barulhentas projecções dos inícios do cinema. Ou gramofones a funcionar, com grandes êxitos da música clássica a segurar os espectadores, a dar outras dimensões às imagens, a acrescentar movimento, a dar suplementos de emoção às fitas. Em 1927, com o filme Jazz Singer e o cinema sonoro a instalar-se nas salas, o cinema descobriu a palavra dita. E até o silêncio passou a poder ser usado como elemento expressivo, quando antes parecia apenas uma ausência, uma impossibilidade técnica.

A música tinha entrado definitivamente na fita e, agora sim, se podia falar de uma "banda sonora", que afinal não mais era do que uma parte do filme, tão importante como a imagem em movimento. Música companheira das imagens, a carregá-la de emoções, mas não só: a música podia agora comentar, dizer o contrário das imagens, fazer ironias, brincar com os movimentos, sugerir crimes, criar suspense, sugerir o que pensavam ou sentiam as personagens, criar ambientes para a comédia, o terror ou a aventura.

A edição deste ano de Os Dias da Música revisita, por via da música, um pouco de toda esta história que parece continuar bem viva. Nalguns casos, propondo que ouçamos a música ao mesmo tempo que vemos imagens, excertos de filmes ou filmes inteiros musicados ao vivo. Mas para além de vários espectáculos "multimédia", há simples concertos "só para ouvir". Por um lado, dando a ouvir composições escritas propositadamente para o cinema: a Orquestra Académica Metropolitana, por exemplo, interpretará obras de Darius Milhaud, Chostakovitch e Copland, compositores de música erudita que se entusiasmaram com o cinema.

Mais tarde, de Bernard Herrmann a Mikis Theodorakis, de Nino Rota a John Williams, muitos outros compositores criaram partituras para filmes que são até, nalguns casos, mais conhecidos pela música do que por qualquer outro dos seus elementos. Concertos dedicados exclusivamente a um compositor (como o do quinteto de Richard Galliano para a música de Nino Rota) ou a vários, como é o caso do concerto de Mário Laginha ao piano, reinventando temas de Ennio Morricone a Bernardo Sassetti.

Mas também se poderá ouvir muitas obras que não foram compostas propositadamente para o cinema. Viajaram "lá para dentro" e agora voltam a sair - será que ainda são as mesmas?...

O concerto de abertura, sexta-feira à noite, com a Orquestra Metropolitana, começa com o famoso acorde de Richard Strauss (Assim Falava Zaratustra, peça que o filme 2001- Odisseia no Espaço, de Kubrick, tornou famosa), para seguir com Rachmaninov. A Orquestra Gulbenkian tocará no sábado obras emblemáticas de Beethoven e Rossini, muito usadas em filmes. E, no dia seguinte, obras de Wagner e Elgar. Na noite de sábado, João Paulo Santos dirige à frente da Orquestra Sinfónica Portuguesa a partitura de Prokofiev para Alexandre Nevsky, de Sergei Eisenstein, obra considerada por muitos um dos momentos mais fortes do encontro entre um compositor e um realizador. A Jovem Orquestra Portuguesa, dirigida por Pedro Carneiro, toca Stravinsky e Barber. O concerto de encerramento está a cargo da Orquestra Sinfónica Portuguesa, e inclui, entre outras, obras de Korngold e Bernstein, para acabar com a arqui-famosa música de John Williams para A Guerra das Estrelas, que será certamente um fecho espectacular para a festa de fim-de-semana em Belém.

No interminável mundo da música no cinema, há também lugar nos Dias da Música para muitas obras de compositores que não sonhavam que iriam ter uma nova vida no cinema, inspirando realizadores, desenhando personagens, caracterizando situações, dando novas qualidades aos espaços filmados, criando ambientes, sugerindo dramas. Mozart, muito Mozart, e Bach, imenso Bach, incluindo um concerto do Ludovice Ensemble ("Bach goes to the movies") e uma interessante proposta de Pedro Burmester, tocando ao piano obras de Bach que foram usadas por Pasolini nos seus filmes, acompanhado por excertos de filmes do realizador italiano. O piano tem aliás lugar de destaque nos Dias da Música, como é habitual. O concerto para dois pianos de Mozart será interpretado por Artur Pizarro e pelo pianista esloveno Rinhald Zhok (com a Orquestra de Câmara Portuguesa), e no dia seguinte fazem um duo com o título "Cartoons para dois pianos". António Victorino D'Almeida junta-se a Luiz Avellar (piano) e Paulo Jorge Ferreira (acordeão) para um improviso a partir de temas de O Padrinho, La Strada, Casablanca e Amélie. João Paulo Esteves da Silva fará mais um encontro improvável à volta de canções do cinema, com o cantor Ricardo Ribeiro. Stéphan Oliva propõe um recital bastante original com música do "film noir"... e não só.

Muitos outros concertos propõem escolhas menos evidentes, obras menos conhecidas ou conjugações e encontros improváveis, como os Couple Coffee interpretando canções de Um Americano em Paris, de Vincente Minnelli. Ou, noutro campo bem distinto, o trio de Francisco Sassetti, Mário Franco e Vera Morais (piano, contrabaixo e flauta) tocando temas e canções do cinema português a partir dos anos 30. Há aliás, espaço para muitas músicas diferentes, da canção ligeira à ópera (que o cinema namorou ou "engoliu" avidamente), da opereta ao jazz (Mário Laginha reaparece com a Big Band Júnior, por exemplo), da clássica à música antiga (sim, está lá também Vivaldi ou o Marin Marais de Tous les matins du monde). Tudo isto para além de projecções de filmes (de Mary Poppins à Laranja Mecânica ou de Chaplin a Visconti), conversas, actividades dos mais novos e para os mais novos, como é habitual nesta festa da música no Centro Cultural de Belém.

O que acontece quando a música sai da sala de cinema e vai para a sala de concerto? E ao contrário, quando a música que nasceu para o cinema se autonomiza como peça de concerto? Como sobrevive? Que novas vidas terá? Vai haver muitas respostas diferentes para estas questões n'Os Dias da Música, uma festa que se faz com os ouvidos. Este ano, faz-se também com os olhos - com os filmes, ou simplesmente imaginando com música.