Crítica

Singularidades de uma andróide loura

A estreia na realização do romancista Alex Garland é uma primeira obra de luxo sobre a inteligência artificial

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Um jogo de xadrez sobre tabuleiro movediço: Ex Machina

O romancista Alex Garland tomou gosto ao cinema – e ao cinema de género – depois de Danny Boyle ter adaptado ao cinema em 2000 o seu best-seller A Praia.

 E o seu trabalho como argumentista desde então tem-no tornado num peculiar “autor” por interposta pessoa: com aqueles que são provavelmente os dois melhores filmes de Boyle, 28 Dias Depois (2002) e Missão Solar (2007), depois na adaptação de Haruki Marukami por Mark Romanek Nunca Me Deixes (2010) e na transposição da BD Dredd por Pete Travis (2012), Garland tem explorado uma série de visões distópicas de futuros mais ou menos próximos sobre a resiliência da humanidade pelo meio de sociedades cada vez mais complexas e tecnológicas. Com Ex Machina, Garland passa para trás da câmara com um exercício cerebral e atmosférico, uma espécie de problema matemático em forma de jogo de xadrez sobre tabuleiro movediço.

Menos filme de acção do que implacável ficção científica de lógica calculada e inquietante, Ex Machina põe em cena três personagens num retiro distante envolvidas numa espécie de quebra-cabeças de câmara cujos resultados podem ter consequências imprevisíveis para a humanidade. Um programador de talento num motor de busca global ganha um concurso interno para passar uma semana a confraternizar com o seu patrão. Mas essas “férias de sonho” escondem um desígnio muito menos inocente, porque o visionário recluso Nathan quer partilhar com Caleb o projecto secreto em que tem vindo a trabalhar longe dos olhos do mundo – Ava, um andróide dotado de inteligência artificial. Caleb torna-se no vértice de um peculiar triângulo onde nada é o que parece e a manipulação emocional é um dado adquirido, prolongando o fascínio de Garland pelo confronto do humano com os momentos-limite, com as “singularidades” que colocam em causa a própria noção do que é ser humano.

O romancista prova nesta sua estreia como realizador ser melhor cineasta do que muito pretenso estilista que por aí anda – é, obviamente, um filme muito “escrito”, mas as imagens não se limitam a ilustrar o guião, antes trabalhando em conjunto para criar uma experiência absorvente, minuciosa. Não é, aliás, por acaso que nos lembrámos repetidamente do notável Debaixo da Pele de Jonathan Glazer, com o qual Ex Machina partilha uma dimensão alienígena, uma estranheza difícil de explicar mas imediatamente inteligível visualmente, com uma notável Alicia Vikander (no papel da andróide) a remeter para a Scarlett Johansson do filme de Glazer. Ex Machina é uma primeira obra de luxo, que se inscreve numa tradição de ficção científica inteligente demasiado arredada dos ecrãs.