Crítica

Petzold, o Fassbinder que viveu duas vezes

Christian Petzold reconhece-se no dilema moral do Novo Cinema Alemão, leva-o para o laboratório e faz dele a matéria humana de Phoenix

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Numa entrevista, durante o Festival de Roterdão, Christian Petzold falava da forma trivial como a História alemã vem servindo o entertainment.

A banalização figurativa de nazis e suásticas, argumentava, levou-o sempre a recusar fazer um filme histórico e, por isso, no caso de Phoenix, a eliminar a componente decorativa da reconstituição - nesse sentido, Phoenix, passando-se nas ruínas da II Guerra, não seria um filme histórico.

Isso é o que começa por ser fortíssimo aqui: a ideia de um filme, de personagens, e de um cenário que tentam falar de novo. Como se recomeçassem. Um balbuciar narrativo e figurativo recortado a partir do nada, como se tivessem sido encontrados na escuridão. Canta-se numa canção de cabaret, numa sequência de Phoenix: apontar as luzes às trevas para encontrar ali o cenário – é essa a ideia, artística e de produção, materializada através da reconstituição de época; aquilo que as luzes conseguem apanhar, identificar, recortar na noite do pós-II Guerra Mundial.

E assim Petzold coloca-se na mesma posição – de orfandade, sem referências dominantes, sem modelos na sua geração, apoiando-se no mundo anterior à catástrofe – que, há quatro décadas, fez nascer o Novo Cinema Alemão. Por estes dias, num filme que estará em competição no IndieLisboa, Une Jeunesse Allemande, de Jean-Gabriel Périot, vai ouvir-se a voz de Godard a perguntar-se, a perguntar à então República Federal Alemã: “É possível, do ponto de vista moral, fazer filmes na Alemanha, hoje?”.

Petzold leva esse dilema para o laboratório. Faz dele a matéria humana do seu filme: eis personagens que começam por reproduzir mecanicamente o vazio moral, prolongando a anestesia, o esquecimento – a alucinante sequência do encontro na estação de comboios, em que todos se simulam, e são “coreografados” como... na minha memória de espectador, como só no Martha, de Fassbinder...; eis, numa história que não por acaso tem tonalidades de fantástico, o caso de uma mulher, sobrevivente desfigurada do Holocausto, que por amor aceita transformar-se — ser mais ela –, primeiro pela cirurgia, depois pelo marido, que a traiu no passado e que, julgando-se viúvo, continua a traí-la ao querer tirar proveito daquela que (mas ele não sabe) é a própria mulher; eis, finalmente, a história de um “monstro” que ganha vida, que recupera a identidade e a voz – tudo termina com a personagem interpretada por Nina Hoss a cantar, ponto culminante de um work in progress humano.

E assim, num improvável encontro entre o Vertigo de Hitchcock com O Casamento de Maria Braun (ou outro dos títulos da Trilogia Alemã em que Rainer exercitou a sua versão do clássico de Hollywood), Christian Petzold mete-se no laboratório, constitui-se matéria para a transformação num impossível Fassbinder – que a ser assim poderia viver duas vezes – mas canta com a sua voz.