Firmas de câmbio suspeitas de lavagem de dinheiro do tráfico de droga

PJ deteve esta quarta-feira cinco pessoas ligadas às duas empresas, em Lisboa. Mega-operação da Judiciária, com 150 inspectores, ainda está a decorrer. Detidos terão dissimulado vários milhares de euros.

Rita França
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Rita França

O Banco de Portugal (BdP) determinou a suspensão de todas as actividades das entidades Money One, Sociedade de Pagamento e Câmbios, e da Transfex, Instituição de Pagamentos, por suspeita de branqueamento de capitais.

A decisão do BdP surge depois de cinco pessoas ligadas à gestão destas duas empresas de câmbios terem sido esta quarta-feira detidas numa mega-operação da Polícia Judiciária por suspeita de terem dissimulado através das firmas vários milhões de euros provenientes de tráfico de droga. A investigação está a cargo da Unidade Nacional de Combate à Corrupção. Cerca de 150 inspectores estão ainda a desenvolver buscas pelo menos na área da Grande Lisboa, adiantou ao PÚBLICO fonte daquela polícia.

Em comunicado, a entidade supervisora refere ter recolhido “um conjunto de elementos de informação que indiciam fortemente estarem as sociedades a ser utilizadas, por pessoas directa ou indirectamente relacionadas com as estruturas accionistas e/ou de gestão daquelas entidades, para a circulação de fundos provenientes de origem ilícita, com o objectivo de, assim, se assegurar a integração dos mesmos no sistema financeiro e o seu subsequente branqueamento”.

A página na Internet da Money One destaca que esta sociedade opera no mercado financeiro de envio e câmbio de dinheiro há mais de 10 anos em Portugal e possui 17 lojas a nível nacional. A empresa refere ainda que trabalha "sempre em conjunto com as autoridades internacionais, estando também constantemente sob fiscalização dos departamentos bancários e auditorias externas do sector".

O PÚBLICO tentou contactar telefonicamente e pessoalmente os responsáveis da Money One e da Transfex, que ofereciam serviços de câmbios e de envio de fundos para o estrangeiro. No entanto, o número associado à morada da Money One em Lisboa está fora de serviço e não foi possível entrar em contacto com a Transfex (autorizada a operar pelo Banco de Portugal em Abril de 2013). 
Na sede da Money One, no centro de Lisboa, foi possível perceber que os funcionários da empresa continuavam a trabalhar, mas estava de portas fechadas. Já a loja sediada nos Restauradores manteve-se aberta durante a manhã, mas acabou por encerrar pelas 14h e após o PÚBLICO ter entrado nas instalações. 

O funcionário que estava no local informou estar a par da situação da empresa e aguardava futuras informações por parte dos seus superiores. Disse ainda que teve clientes durante a manhã, mas que não estava autorizado a fazer transacções, nem a dar mais informações acerca do assunto.

Já na sede da Transfex, um responsável da empresa, acompanhado por mais dois funcionários, abriram a porta do escritório mas recusaram-se a prestar qualquer declaração acerca da suspensão das suas operações ditada pelo Banco de Portugal. A Transfex tem uma operação de atendimento ao cliente mais reduzida do que a da Money One, com três lojas na área da Grande Lisboa.

Com a decisão do BdP, as duas sociedades estão impedidas de realizar quaisquer operações, como envios de fundos do e para o exterior, operações de câmbio manual ou quaisquer outras, em Portugal ou através de sucursais no exterior. "A recusa de acatamento das determinações específicas ora emitidas ou a criação, por qualquer forma, de obstáculos à sua execução fazem incorrer os autores de tais condutas na pena prevista para o crime de desobediência qualificada", refere o comunicado no site do BdP.

A suspensão manter-se-á até que o Banco de Portugal informe as instituições de pagamento visadas de que considera estarem reunidas as condições necessárias para o reinício de actividade ou até que tal suspensão seja substituída por outra medida.

Ao PÚBLICO, o Banco de Portugal explicou que “no âmbito da denominada supervisão anti branqueamento de capitais e de combate ao financiamento do terrorismo” o banco colabora activa e estreitamente, numa base regular, com a Procuradoria-Geral da República, com a Polícia Judiciária e com outras entidades que têm também por missão o combate a este tipo de criminalidade”. O BdP garantiu ainda que “nos últimos cinco anos não há qualquer registo de suspensão de actividade de outras instituições financeiras por razões exclusivamente relacionadas com a prevenção do branqueamento de capitais ou o financiamento do terrorismo”.

De acordo com as demonstrações financeiras da Transfex, a totalidade do capital social da empresa pertence, desde 31 de Janeiro, a Rui Lola. Antes de ser sócio único da empresa, este responsável partilhava o capital social com mais duas pessoas, Eduardo Martins e Luciana Martins. A empresa, gerida desde Fevereiro do ano passado por Paulo Duarte, afirma que em 2014 os resultados operacionais foram positivos na esmagadora maioria dos meses “por via do aumento da clientela, do número de operações realizadas e da diversidade dos serviços oferecidos”. 

No entanto, o arranque do ano ditou que a empresa fechasse o exercício com prejuízos (6788 euros). A má saúde financeira da empresa ficou patente em 2013, quando foi aprovada uma redução de capital para redução de prejuízos. O mesmo aconteceu nesse ano à Money One que reduziu o seu capital em 543 mil euros para cobrir prejuízos. Esta empresa conta com três sócios: Adonias Conceição de Souza, Mylitane Bernardo e José António Golim. 

Segundo os registos oficiais da empresa, os dois primeiros são sócios-gerentes desde 2014, o mesmo ano em que José António Golim cessou funções de gerência. Dos três sócios, é Adonias de Souza, com residência em São Paulo, quem tem a maior quota da Money One.

Com Seomara Pereira.