Natural de Aveiro, Joana Caldeira Martinho é formada em Comunicação John Cairns
Foto
Natural de Aveiro, Joana Caldeira Martinho é formada em Comunicação John Cairns

Emigração: “Portugal é bonito, mas é um país de férias”

Em Oxford há mais de cinco anos, Joana Caldeira Martinho já mudou de emprego três vezes — porque quis. Gostava de regressar a Portugal, "mas não amanhã". Governo lançou em Março programa de apoio ao regresso de emigrantes. Pode o VEM fazer a diferença? O P3 foi ouvir jovens portugueses que estão lá fora

"Em cinco anos e meio em Oxford já mudei de trabalho três vezes — e de todas as vezes foi porque encontrei uma coisa melhor. Isso é uma coisa normal no Reino Unido: as pessoas não esperam ficar mais de dois anos num trabalho. Não pensam: ‘Tenho um trabalho agora, é permanente, vou ficar aqui antes que alguém me despeça.' Os jovens podem fazer a sua própria carreira.

Essa flexibilidade é uma das coisas que dificultam o meu regresso a Portugal. Aqui, no Reino Unido, se estudaste jornalismo ou biologia, as pessoas não estão à espera que sejas, necessariamente, jornalista ou bióloga. Existem tantas profissões que eu nunca tinha ouvido falar! Quando cheguei e me apercebi disso senti uma liberdade enorme. Em Portugal, pelo contrário, pensava: ‘Formei-me em Comunicação, tenho de ser jornalista ou assessora, é muito difícil arranjar trabalho nessas áreas, estou lixada’. Aqui penso: ‘Tenho capacidades que são úteis para muitos trabalhos e a minha experiência de voluntariado, o meu percurso pessoal, tudo conta para trabalhar em muitos sítios’. Existe uma possibilidade incrível dentro do mercado do trabalho que está ligada à riqueza do país.

Nunca pensei garantidamente que vinha para ficar, não estava zangada com Portugal ao ponto de não querer saber [mais do país]. Não sabia se ia resultar. Suponho que o meu plano era: se ao fim de um ano não quiser mais, volto e tento fazer a minha vida como jornalista ou assessora. Foram três coisas que se juntaram: sempre tinha tido interesse em trabalhar numa Organização Não Governamental (ONG) e em desenvolvimento internacional; não estava a ver grandes esperanças de futuro em Portugal, o mestrado não era muito interessante e percebi que seria muito difícil ter uma profissão estável como jornalista; o meu namorado da altura vivia cá e surgiu a oportunidade de não vir totalmente sozinha.

PÚBLICO -
Foto
É em Oxford, no Reino Unido, que Joana vive há cinco anos e meio Peter MacDiarmid / Reuters

Ao ver o mundo de trabalho inglês, apercebi-me que não ia arranjar um trabalho de sonho no primeiro dia ou no primeiro mês. Vim em Agosto de 2009 e só em Maio de 2010 é que tive pela primeira vez um ordenado certo, com que conseguia sustentar-me totalmente. Até aí os meus pais apoiaram-me. Nos primeiros nove meses, fiz dois estágios não remunerados em “part time” [um deles, de seis meses, na ONG Oxfam em actividades de campanha e “lobbying”]. Entretanto, arranjei um estágio remunerado em "part time" em secretariado que me ajudou a pagar as despesas. E o primeiro trabalho, em Maio de 2010, foi, precisamente, como administrativa na Oxfam. Não fiquei desiludida porque pagava bem, comparando com qualquer coisa que arranjasse em Portugal, e trabalhava com uma equipa muito interessante. Aprendi muito sobre como é que funcionam as ONG. E foi também por causa dessa posição que consegui o emprego seguinte, também na Oxfam, já na minha área — durante dois anos e meio trabalhei na comunicação do programa contra a pobreza do Reino Unido. Agora, há um ano que estou na comunicação do departamento de angariação de fundos da Universidade de Oxford.

VEM, uma boa ideia (em teoria)

Apoiar associações de portugueses no estrangeiro é uma medida que Joana sugere para impedir que os emigrantes percam o contacto

Sim, gostava de regressar a Portugal, mas não amanhã, nem no ano que vem. Tenho planos profissionais que só consigo ver desenvolvidos aqui. Quero voltar a trabalhar em ONG numa área diferente e esse mercado em Portugal é diminuto. Já me imaginei no Reino Unido até à reforma, mas já não penso tanto assim. Porque tenho saudades, porque me sinto portuguesa — é uma coisa visceral, emocional. Não sou inglesa, não quero ser inglesa. Não sei se quero ter filhos ingleses, que se sintam ingleses, que nasçam cá, falem as duas línguas; eu a falar com eles em português, eles a responderem-me em inglês, como tantas famílias que vejo no avião.

Emigrar é uma coisa boa, nem que seja por um ano, diz Joana

O mercado de trabalho é o obstáculo a voltar. Já pensei que, para o fazer e não sentir que troquei umas condições muito boas em Inglaterra por umas muito más em Portugal, teria de ser com algum empreendedorismo. Não sei o quê, não estou de todo nessa fase. Por isso, em teoria, não acho que o programa VEM [Valorização do Empreendedorismo Emigrante] seja má ideia, mas não vou fazer isso hoje, nem daqui a um ano.

Honestamente... é muito difícil atrair portugueses para Portugal quando a situação económica está como está. Embora seja de esquerda, sou muito céptica em relação à capacidade do Governo em criar algum programa que me atraísse a voltar. O que o Governo português pode criar é um país mais forte economicamente. Um país que não está a ser esmagado pela austeridade. Isso é que me entusiasmaria, não é um programa para emigrantes.

Parece que às vezes se esquece que as pessoas que estão fora não fizeram uma espécie de venda da alma ao diabo e estão a trabalhar numa coisa que detestam por muito dinheiro. Há oportunidades! Mesmo que houvesse uma empresa da minha área que me ligasse amanhã com uma oferta de trabalho, eu continuaria reticente. Porque não sei quanto tempo é que esse possível emprego iria durar, qual era a sua sustentabilidade, a sua segurança. Aqui sinto-me perfeitamente segura. Não é a recibos verdes, não é um contrato temporário. E eu não consigo imaginar que possa ter uma segurança destas num programa deste género. Aliás, não sei como é que Portugal alguma vez me poderia oferecer a segurança que sinto cá.

Um país de férias

Já não estou à espera que o meu país faça alguma coisa por mim. Portanto, se voltar, vai ser por minha causa, pelas minhas capacidades. Claro que, daqui a cinco anos, se considerar regressar, um programa como o VEM pode ajudar-me um pouco. Pode ser um começo, pode ser que comece uma certa onda de optimismo, principalmente se estes 40 ou 50 projectos que podem vir a ser lançados forem mesmo bem sucedidos. Mas duvido sempre da sustentabilidade destas iniciativas se a situação económica não melhorar.

Eu não sei se isto é um bocado dramático, mas... Noutro dia li um obituário de uma senhora de 36 anos que trabalhou com o Tony Blair e fundou uma organização não governamental (ONG), a Africa Governance Initiative. A senhora morreu aos 36 anos porque foi diagnosticada com cancro. Fez-me pensar: eu não quero chegar aos 37 anos, a dez anos de distância de hoje, ser diagnosticada com cancro, ter pensado sempre em voltar para Portugal para me sentir portuguesa outra vez e só ter um ano para o fazer. Passou-me pela cabeça e não quero mesmo que isto me aconteça. Quero viver em Portugal porque quero viver em Portugal; não quero esperar para viver em Portugal. Só que é difícil viver em Portugal. É difícil pensar qual é o preço que vou pagar se decidir voltar. O trabalho que daria voltar, criando oportunidades para mim e potencialmente para o meu companheiro que não é português. Custa-me fazer essa decisão, mas ao mesmo tempo sei que é impossível escapar.

Como vejo Portugal daqui? [Suspiro] Portugal é bonito, tem pessoas muito bonitas e tem uma forma de estar e uma personalidade muito atraentes, mas... é um país de férias."

Depoimento recolhido a partir de uma entrevista.