A este ritmo, mais de 30 mil pessoas podem morrer no Mediterrâneo em 2015

Líderes europeus reúnem-se esta quinta-feira para discutir crise migratória. Autoridades italianas detêm capitão do pesqueiro naufragado no domingo. O balanço dos mortos foi actualizado para mais de 800.

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Por enquanto, apenas 24 corpos da trgédia de domingo foram recuperados Darrin Zammit Lupi/Reuters

A Justiça italiana acusou um cidadão tunisino, Mohammed Ali Malek, capitão do navio de pesca que no domingo afundou nas águas do Mediterrâneo com mais de 800 imigrantes a bordo, de múltiplos crimes de homicídio por negligência e tráfico humano. Um outro tripulante da embarcação naufragada, de nacionalidade síria, foi acusado de auxílio à imigração ilegal.

Os dois homens, de 27 e 25 anos, integravam o grupo de sobreviventes do naufrágio. Foram detidos pela polícia de Catania à chegada àquela cidade siciliana, depois de terem sido identificados por um dos 28 passageiros que escaparam à tragédia. O interesse que o processo desperta é revelador do choque provocado pelo desastre – e também da nova postura prometida pelas autoridades europeias em resposta ao drama humanitário e à criminalidade organizada que alimenta o fluxo migratório do Norte de África para a costa europeia.

Na cimeira extraordinária agendada para esta quinta-feira para discutir a crise migratória no Mediterrâneo, os países deverão acertar uma estratégia para além dos passos imediatos anunciados pela Comissão Europeia após a tragédia marítima de domingo, nomeadamente a duplicação do financiamento e dos meios para a missão de vigilância e patrulhamento marítimo Tritão e o sistema de protecção de fonteiras Frontex, e criação de programas de acolhimento voluntário e realojamento de refugiados e candidatos a asilo.

A Comissão também já pediu aos Estados directamente afectados pelos desembarques – Itália, Malta, Grécia e Chipre – que identifiquem quais são as suas “necessidades imediatas” em termos de acolhimento dos imigrantes, garantindo estar disponível para fornecer kits sanitários, vacinas, medicamentos e outro tipo de material médico que se revele essencial.

A responsável pela política externa da União Europeia, Federica Mogherini, saudou a “forte reacção dos parceiros”, bem como o sentido de unidade e urgência e ainda a “vontade política” para a solução de um problema “que é de todos”. Mas apesar da solidariedade manifestada a 28 vozes, o consenso entre os chefes de Governo da União Europeia para a definição de uma política migratória comum será difícil de alcançar. Países com constrangimentos financeiros ou em contexto de campanha eleitoral defendem abordagens diferentes e porventura inconciliáveis. Como resumia a editora para a Europa da BBC, Katya Adler, “a Itália pede mais dinheiro, o Reino Unido prefere ir atrás dos contrabandistas e a Alemanha, inundada com pedidos de asilo, quer dividir a responsabilidade pelos refugiados por todos os países da União”.

Os investigadores italianos já adiantaram uma reconstituição dos acontecimentos de domingo. A traineira, com três níveis, zarpou do porto de Trípoli, na Líbia, pelas 8 horas da manhã da véspera, e lançou um pedido de socorro às 22h, quando começou a ter problemas de navegação em alto mar. Um cargueiro de bandeira portuguesa e armador alemão respondeu ao apelo e dirigiu-se para o barco em risco, a cerca de 100 da costa: terá sido a sua aproximação a precipitar o naufrágio, ou porque os passageiros se deslocaram todos para o mesmo lado, levando a embarcação a virar, ou porque o capitão do pesqueiro errou nas manobras e chocou contra o navio, abrindo um rombo que levou o barco ao fundo.

Não existe uma indicação precisa do número de pessoas a bordo do navio, mas seriam mais de 850: adultos e também crianças com idades entre dez e doze anos, desacompanhadas da família, provenientes da Gâmbia, Costa do Marfim, Somália, Eritreia, Mali, Tunisia, Serra Leoa, Bangladesh e Síria. Mulheres e crianças estariam no piso inferior do navio, e centenas de homens no piso intermédio – todos trancados e escondidos como carga clandestina. “Podemos dizer que 800 pessoas morreram”, declarou a porta-voz do alto comissariado da ONU para os Refugiados, Carlotta Sami.

Por enquanto, apenas 24 corpos foram recuperados. Os procuradores sicilianos, bem como o primeiro-ministro de Itália, Matteo Renzi, garantiram que a investigação judicial prosseguiria até serem apuradas as identidades de todos os passageiros e todas as responsabilidades pelo naufrágio, e que as buscas continuavam a tentar recuperar a embarcação e garantir “uma sepultura digna para todas as vítimas”.

Ao mesmo tempo, a guarda costeira italiana continuava a acudir a embarcações em risco no Mediterrâneo: só na segunda-feira, foram resgatados 638 imigrantes embarcados em seis botes pneumáticos, em operações de salvamento realizadas a menos de 60 quilómetros da costa líbia. Em declarações à AFP, esta terça-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Líbia, Mohamed Dayri, condenou as “acções destes passadores da morte” no Mediterrâneo, que utilizam os portos “controlados pelas milícias rebeldes que estão além da autoridade legítima das instituições do Estado”.

A Organização Internacional das Migrações estima que o número de imigrantes a morrer no mar Mediterrâneo este ano possa chegar aos 30 mil, a manter-se a actual média que aponta para uma morte a cada duas horas. Desde o início de 2015, já morreram 1750 pessoas, trinta vezes mais do que no mesmo período do ano passado. “O nosso receio é que o total de 3279 mortes registado em 2014 venha a ser ultrapassado em poucas semanas, e que em 2015 as vítimas possam chegar às 30 mil ou mais, se a tendência não for invertida”, disse o porta-voz da organização, Joel Millman.