Um teatro com 100 anos à procura de reencontrar a cidade

Público do Theatro Circo de Braga cresceu mais de 40% no ano passado. Responsáveis querem atingir 100 mil espectadores no ano do centenário, que se cumpre esta terça-feira.

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Paulo Brandão, director artistico Nelson Garrido

Entre os elementos que fazem do Theatro Circo uma das salas mais bonitas do país há uma imensa tela pintada que cobre a boca de cena quando não há espectáculos. O que ali se vê é a representação de uma dança exótica, que combina com a exuberância da decoração dourada daquele espaço. Nada disto era desconhecido. O que não se conhecia, porém, era a aguarela de 1914, que serviu de base àquela peça. Até que, há poucos dias, um trineto de um dos fundadores do teatro de Braga enviou uma fotografia da obra por email.

Pedro Gil Almeida é um dos membros da quarta geração de herdeiros de Cândido Martins, um dos três homens que liderou a empreitada de construir um teatro na cidade de Braga, passam agora 100 anos. “Tinha ido visitar o teatro e lembrei-me que seria interessante colocar a peça à disposição para que se possa conhecer melhor a sua história”, conta ao PÚBLICO. Tal como Almeida, nos últimos dias mais de uma dezena de bracarenses tem respondido ao apelo feito pelos responsáveis daquela sala de espectáculos para que dêem a conhecer peças que possuam e que pertençam à história do Theatro Circo.

“A resposta tem sido muito positiva”, valoriza a administradora Cláudia Leite, para quem esta disponibilidade demonstrada pelos bracarenses é sinal da importância que o teatro tem para a cidade. O actor e encenadora António Durães tem, porém, uma perspectiva diferente. “O Theatro Circo é importante para a cidade na medida em que existe, mas não na medida em que é frequentado”, considera. “A esmagadora maioria das pessoas de Braga talvez tenha lá estado uma vez, ou outra, mas muitas, nenhuma”.

Também o líder do estaleiro cultural Velha-a-Branca, o principal espaço cultural independente local, Luís Tarroso Gomes, tem uma perspectiva negativa sobre a relação da cidade com a sala de espectáculos: “Braga continua sem saber o que quer para o teatro”.

Os números do último ano de actividade da sala de espectáculos bracarense parecem sugerir, porém, que alguma coisa está a mudar na cidade. Em 2014, passaram pelo Theatro Circo mais de 90 mil espectadores, o que representa um crescimento da afluência de 43%. Ao mesmo tempo, o cartão Quadrilátero – um cartão de fidelização de públicos que é partilhado com as cidades vizinhas de Barcelos, Famalicão e Guimarães – registou, em Braga, um crescimento acentuado do número de clientes, passando de 273, em 2012, para mais de 2.800. A cidade passou também a ser aquela em que o cartão é mais usado (47% do total). A expectativa dos seus responsáveis é de tal modo positiva que esperam, com os 100 anos, ultrapassar pela primeira vez a barreira dos 100 mil espectadores.

“Sem o Theatro Circo, esta seria uma cidade com menos capacidade de se relacionar com o exterior”, defende o director-artístico Paulo Brandão, convencido também de que a sala de espectáculos é incontornável para os bracarenses.

Para percebermos este debate, é preciso perceber a história do teatro de Braga. Inaugurado a 21 de Abril de 1915, passam esta terça-feira 100 anos, a obra – assinada pelo arquitecto João Moura Coutinho – foi uma iniciativa privada, que tinha começado a ser idealizada quase uma década antes. O Circo permaneceu privado até 1987, quando foi comprado pela Câmara Municipal de Braga, que promoveu também a sua renovação profunda, entre 1999 e 2006. O processo de degradação que atingiu a sala durante os anos 1980 e os sete anos de encerramento acabaram por afastar o público que, até então, era fiel.

“Tínhamos matinés de cinema ao domingo esgotadas”, afirma António Durães, que chegou a programar o Theatro Circo. A sala foi também a primeira onde muitos bracarenses viram ópera ou concertos de música clássica, “num tempo em que a cidade estava muito isolada”, recorda o actor e encenador. O teatro de Braga foi também pioneiro no cinema 3D, tendo exibido o primeiro filme nesse formato numa versão quase pré-histórica da tecnologia, em 1935.

O Theatro Circo foi ainda palco da primeira actuação de Amália Rodrigues na cidade, em 1955, e de outros espectáculos menos convencionais, como os combates de pugilismo encenados, nos anos 1950, a performance de Papuss, o jejuador, um faquir que anunciava ir fechar-se num frasco durante sete dias, no ano de inauguração da sala, ou uma “grande exposição de rosas”, que ocupou toda a plateia do teatro em 1918.

Seis dias para começar a festejar
O Theatro Circo promete que a celebração do centenário vai durar todo o ano. O resultado da recolha de material junto da população local vai dar origem a quatro exposições temáticas (em Julho e Outubro deste ano, e Janeiro e Abril do próximo), dedicadas ao teatro enquanto espaço de reorganização urbanística da cidade, à sua arquitectura e programação. Mas, antes disso, há seis dias completos de festa para começar a assinalar a efeméride, ao longo de toda esta semana.

Terça-feira, dia do aniversário, bem como no dia seguinte, o palco é do compositor português Rodrigo Leão. Seguem-se o concerto de Diabo na Cruz, no sábado, e Cheio, o espectáculo a meio caminho entre a dança e o circo que junta Filipa Francisco e Thorsten Gruetjen, no domingo – e que abre um ano de programação regular do Theatro Circo particularmente voltada para a dança.

Na agenda, haverá também espaço para artistas e instituições locais, como a cantora de jazz Cati Freitas, o pop-rock de At Fredddy’s House (ambos na sexta-feira), bem como os sons tradicionais do cavaquinho e da braguesa, por Daniel Pereira (sábado). No fim-de-semana, há também leituras de contos infantis pelos responsáveis da livraria bracarense Centésima Página. A Companhia de Teatro de Braga, a única estrutura de criação profissional da cidade e que reside no Circo, também se junta à festa, promovendo visitas encenadas ao edifício, no dia de aniversário e no fim-de-semana.

Nos seis dias de festejos dos 100 anos, há ainda espaço para dois DJ (Firmeza e Lilocox), que põem os discos a girar no sábado, bem como uma proposta radical intitulada O corte do século, com o cabeleireiro Pedro Remy, que promete fazer “uma performance que retrata a ligação do teatro ao serviço vintage de barbearia”.

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