Opinião

O grande reformador

Mariano Gago fez o que fazem os grandes reformadores.

Era um debate na esplanada da faculdade, aí por volta de 1993, e Mariano Gago era um dos convidados. Na altura o movimento anti-propinas era forte entre os estudantes mas contava com pouca solidariedade entre as gerações mais velhas, as que tinham a idade que hoje têm aqueles estudantes que encheram a esplanada para ouvir o físico e professor, então já bem conhecido pelo seu Manifesto para a Ciência em Portugal.

Mariano Gago foi generoso ao aceder àquele debate e polido a responder às perguntas, mas não facilitava — ou seja, não se moldava ao auditório. Nós estávamos sedentos de que nos dissessem o que queríamos ouvir; ele concordava conosco em parte, e na outra parte obrigava-nos a pensar.

Não fazíamos ideia de que ali estava o que viria a ser o governante mais importante para a nossa geração. Quando Guterres o nomeou Ministro da Ciência foi uma boa surpresa. E depois foi a revolução, uma revolução ao retardador de cujos efeitos só nos daremos completamente conta daqui a umas décadas.

Portugal teve alguns importantes reformadores na educação. Alguns, de Verney a António Sérgio, foram reformadores em potência, que influenciaram mas não governaram. Outros tiveram a possibilidade de concretizar as suas ideias. Mariano Gago pertenceu a esse grupo restrito. A sua ação política ficará para a história do conhecimento no nosso país como ficou a de Pombal ou Passos Manuel.

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No fim da mesma década vi diretamente o impacto dessa ação. Foi em Paris, na residência estudantil portuguesa da Cidade Internacional Universitária. Éramos das humanidades e das ciências, físicos e historiadores, músicos e antropólogos, biólogos e economistas. A maior parte com bolsa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, fazendo mestrados e sobretudo doutoramentos. Vínhamos das ilhas e do continente, do litoral e do interior, de Trás-os-Montes e do Algarve e das ex-colónias. Acima de tudo, e talvez pela primeira vez de forma tão clara na história do país, éramos filhos de taxistas ou bancários, agricultores ou médicos, operários fabris ou gestores de empresas. Uma elite não elitista.

Claro que nem tudo estava por fazer antes de Mariano Gago. As universidades portuguesas já eram então bem melhores do que se pensava e dizia, ou aquela geração não se teria adaptado tão agilmente às melhores universidades do mundo. E não ficou tudo feito depois de Mariano Gago: depois de doutorados, muitos destes cientistas e estudiosos não puderam encontrar em Portugal a melhor forma de render o seu potencial. E claro que nem tudo o que Mariano Gago fez foi consensual ou mesmo positivo, da implementação do processo de Bolonha a uma certa insistência nos modelos excessivamente especializados e competitivos das ciências exatas. E claro que não o fez sozinho: na política como na academia, Mariano Gago teve aliados.

Ele fez o que fazem os grandes reformadores. O país deu um pulo, tanto na investigação científica de ponta como na disseminação da cultura científica. Do edifício que temos de construir, ele cavou alicerces, levantou paredes e traves mestras. Esse edifício, é verdade, está hoje em risco, mas há uma geração inteira para o defender.

Não haverá melhor homenagem para ele do que continuar a sua obra.

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