Imaginação das crianças é uma ponte que aproxima público da arte contemporânea

Vinte crianças da Escola da Ponte foram monitoras por um dia em Serralves e deram novas interpretações às obras de arte.

Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta
O nervoso miudinho e um leve ruborizar de face eram visíveis na expressão de Clara. Do alto dos seus 11 anos, preparava-se, juntamente com mais três colegas, para guiar uma visita pela exposição de Monika Sosnowska, em Serralves. Um domingo diferente para um grupo de crianças da Escola da Ponte e para os visitantes que cruzavam as portas do Museu de Arte Contemporânea do Porto. Uma maçaneta retorcida pelas marcas dos dedos foi o ponto de partida para uma história de ódio e traição. “Um homem, que não ligava nada ao trabalho, foi despedido pelo patrão e quando chegou a casa a mulher pediu o divórcio. Com raiva, o homem foi ter com o patrão e partiu a maçaneta da porta”, começou por contar Clara aos visitantes que embarcaram nesta visita diferente. Na mesma galeria, ainda foi possível ouvir a “verdadeira história da Branca de Neve”, contada por outra criança do grupo. “Quando a madrasta ofereceu à Branca de Neve uma maçã, ela quis comer tudo de uma só vez. Depois de trincar a maçã, esta transformou-se em pedra e os dentes da Branca de Neve ficaram lá cravados. Na verdadeira história, a Branca de Neve é feia, gulosa e desdentada”, conta Vera, tendo como referência uma pequena escultura em chumbo, na qual a artista polaca deixou a marca dos seus dentes. O público, surpreendido, solta risos e faz perguntas a estas monitoras em ponto pequeno. No fim da primeira visita, a confiança já está a vencer o nervosismo. “Na escola tínhamos ensaiado com duas pessoas, aqui é muita gente, estava muito nervosa no início, mas acho que está a correr bem”, conta Clara. A aluna faz parte do grupo de 20 crianças que participou no projecto Miríade de Histórias, desenvolvido pelo serviço educativo de Serralves e pela Escola da Ponte, em parceria com a Laredo Associação Cultural (ver caixa).Com as galerias do museu salpicadas de visitantes, outros grupos de crianças dão continuidade à visita. Para pedir a palavra na escola é preciso pôr o dedo no ar e no museu não foi diferente. Com o indicador levantado, Martim, 10 anos, começa por perguntar: “Há aqui alguém claustrofóbico?”. Do lado do público, uma resposta positiva. “Esta obra é composta por 12 portas e o espaço lá dentro é apertadinho, por isso, não sei se será indicado para si”, responde o aluno. Para adensar o ambiente de mistério à volta da obra Entrance, Rafael conta que aquelas portas foram construídas para evitar um ataque de ogres, “como são muito duras, as portas poderiam proteger-nos”, explica o aluno de 10 anos.“Acreditam no que ele disse?”, pergunta Martim ao público. “A verdade é que esta obra de Monika Sosnowska nasce em memória de um labirinto mágico no qual a artista entrou quando era criança”, rebate ao colega, contando outra história. “Este labirinto tinha 12 portas, cada uma com um desafio diferente e, reza a lenda, no fim estava um baú cheio de jóias. Entrem e experienciem o labirinto mágico de Monika”, convida Martim. No fim do corredor de seis metros divido por 12 portas, a família Aguiar mostra-se surpreendida com esta visita guiada à exposição Arquitetonização. “É uma ideia fabulosa, que quebra a rigidez do museu e torna a visita mais pessoal”, diz Mário, destacando o facto de ser um projecto “com alunos da Escola da Ponte, que tem um sistema de ensino muito interessante”. A mulher, Liliana, acredita que para as duas filhas “é uma motivação para virem mais vezes ao museu e um exemplo”. “Elas podem ver que é possível ter uma postura activa”, reflecte. Maria e Benedita seguem com os pais para a oficina de esculturas em papel – a última paragem desta visita diferente.Aí, o público pode construir algo novo com base naquilo que viu. “Isso também faz parte do processo de aprendizagem”, salienta Joana Macedo, da associação Laredo. “Foram os alunos que trabalharam na escola a perspectiva deles e decidiram como é que iriam fazer a visita guiada”, explica Joana. Concentrada num recorte de papel com a filha, Elizabete Silva reconhece que “é uma forma engraçada de ver a exposição, a partir do ponto de vista deles”. “Lembro-me que quando era pequena os museus eram pesados e as visitas eram chatas. É importante que esta imagem seja contrariada”, refere a visitante.A dessacralização do museu e a aproximação do público com as obras de arte é um dos objectivos deste projecto. “Numa exposição que toca na desconstrução, nós desconstruímos o discurso museológico. O discurso das crianças é muito mais imediato e espontâneo”, salienta Miguel Horta, fundador da associação Laredo. “A criação de histórias pode ser uma maneira de introduzir as obras de arte ao público”, sublinha o responsável.A acompanhar de perto o trabalho destes monitores juniores esteve também Rita Roque, que estaria no lugar deles se este fosse um dia normal. “As pessoas descobrem as peças através das histórias deles”, indica a monitora, que também retira uma lição desta experiência: “Aprender a aproximarmo-nos da arte de outra forma e voltarmos a ser mais pequenos quando olhamos para as obras”, refere, afirmando que este género de visitas deveria acontecer mais vezes.A directora do serviço educativo de Serralves não dá, para já, garantia de continuidade do projecto, mas mostra-se muito satisfeita com o culminar desta Miríade de Histórias. “As crianças criaram um ambiente muito simpático e vivo. Desmistificaram as obras e criaram outra relação com elas. O museu pode ser um espaço de diálogo”, garante Liliana Coutinho.No fim da actividade, ninguém se lembrava daquele nervoso miudinho e as galerias do museu já se pareciam mais com as salas lá da escola. “Algumas pessoas acreditaram mesmo nas nossas histórias, conseguimos criar aquele ambiente de suspense e curiosidade”, conta Carlos. Já Martim não tem dúvidas: “Podia ser guia de um museu”.