A luz como meio e limite

A luz, o corpo e o mito

O médico, investigador e artista plástico Manuel Valente Alves assina hoje o artigo da série A luz como meio e limite

A série A Luz como Meio e Limite apresenta quinzenalmente um artigo escrito por um autor oriundo dos mais diversos campos do conhecimento ou da criação artística e que se irá debruçar sobre casos particulares da sua experiência relacionados com a luz enquanto agente. O ciclo estender-se-á até Março de 2016 sob a coordenação de Pedro Lapa, professor universitário e director artístico do Museu Colecção Berardo

Coney Island, NY, USA, June 20 é o título desta fotografia, datada de 1993. Identifica apenas um lugar e uma data, um dia preciso do ano. Nada mais. Nada diz sobre a figura retratada, meio criança meio mulher, que parece emergir da paisagem através de uma luz (artificial) intensa que contrasta com a semiobscuridade do ambiente (natural) — céu nublado, mar cinzento, areia húmida — interpelando o espectador. A autora, a artista holandesa contemporânea Rineke Dijkstra, vem desenvolvendo, ao longo das duas últimas décadas, um notável trabalho plástico, com base na fotografia e no vídeo, que reflecte sobre os processos vitais de transição — a passagem da infância para a idade adulta, do comportamento singular para o padronizado, do individual para o colectivo — e a insegurança e instabilidade a eles associados, através de retratos de grande rigor formal. As figuras surgem em pose, em ambientes despojados, com iluminação controlada. Mas, apesar desta estaticidade, ressalta dos personagens uma tocante vitalidade interior — uma espécie de luz (metafísica) que parece irradiar dos corpos gerando empatia —, que reforça a ambiguidade e a indefinição ligadas aos processos de transição. O trabalho da artista revela uma extraordinária ordem intrínseca, uma sensibilidade e uma inteligibilidade que remetem para o conceito original de natureza, a physis, fundador do modelo de racionalidade ocidental inaugurado pelos gregos, e as teorias explicativas sobre a luz empreendidas por Empédocles e Aristóteles, dois dos maiores pensadores clássicos.

PÚBLICO -
Foto
Coney Island, NY, USA, June 20 (1993) Rineke Dijkstra/DR

Empédocles, filósofo grego do século V a.C., acreditava que de dentro dos olhos saíam raios luminosos que tacteavam os objectos e retornavam aos olhos com a informação dos objectos tocados, informação essa que, depois de interpretada pelo cérebro, geraria a sensação visual. Os olhos, constituídos por fogo, no seu interior, e água, terra e ar, no exterior, possuiriam poros, que permitiriam a entrada somente de partículas elementares de natureza similar às dos olhos, causando quer a sensação da luz e das cores, quer a percepção da forma dos objectos. A dimensão dessas partículas não deveria ultrapassar o diâmetro dos poros, caso contrário os objectos não podiam ser vistos, como acontecia quando se olhava algo de muito perto. Ao associar a luz ao fogo e localizando-a no olho, Empédocles integrou a visão no seu sistema interpretativo do mundo, a teoria dos quatro elementos, que vigorou no mundo ocidental durante cerca de dois milénios. Esta doutrina cosmológica baseava-se na ideia de que todos os seres naturais, animados e inanimados, são compostos por uma mistura em proporções variáveis de quatro elementos — água, ar, terra e fogo —, cujas qualidades se opunham entre si.

Um século depois, Aristóteles, médico e filósofo, formulou uma teoria da luz muito diferente. Para ele, a luz existia num meio transparente, receptáculo potencial das radiações, através do qual a cor era veiculada. Depois de observar fenómenos luminosos, como o arco-íris, Aristóteles chegou à conclusão de que a cor movia o meio transparente e este por sua vez, por ser contínuo, actuava sobre o olho gerando a sensação visual. Para Aristóteles, a luz era sobretudo uma qualidade do mundo natural.

No século XVII, Isaac Newton, físico e matemático inglês, pegou na ideia de Empédocles, analisou a luz como fenómeno em si, separado da visão, formatou-a cientificamente e propôs a teoria corpuscular da luz. Ainda no mesmo século, o físico e matemático holandês Christiaan Huygens, inspirado em Aristóteles, propôs a teoria ondulatória, pondo em causa a teoria de Newton. Durante mais de um século, a teoria de Huygens foi aceite como a melhor explicação para o fenómeno. No século XIX, a descoberta do campo electromagnético pelo físico e matemático britânico James Maxwell e, no começo do século XX, do efeito fotoeléctrico por Albert Einstein, físico alemão, vieram demonstrar que afinal ambas as teorias são válidas, depende do percurso da luz e dos obstáculos que se lhe interpõem.

O espectro de aplicações da luz, enquanto fenómeno físico, é extraordinariamente vasto, estendendo-se a quase todas as áreas da actividade humana. Na medicina, por exemplo, o conhecimento dos efeitos das radiações sobre o corpo humano — desde as radiações solares ao raio laser, passando pelo raio X — tem sido um importante factor de progresso no diagnóstico, prevenção e tratamento de muitas doenças. Mas as radiações tanto podem fazer bem como mal. Doses excessivas de raio X podem provocar cancros ou outros danos irreversíveis no corpo, e as radiações solares, indispensáveis para o crescimento e desenvolvimento ósseo saudável, através da síntese de vitamina D, também podem causar malefícios, como cancro da pele e outras doenças.

Mas a luz, além de fenómeno concreto da natureza, indispensável à vida, também alimenta o imaginário, através de alegorias, metáforas e outras expressões da linguagem popular e erudita, utilizadas quer na comunicação comum quer na criação artística e literária. O facto de a luz física ser, ela própria, parte do processo fotográfico faz com que, entre as expressões artísticas, a fotografia seja aquela em que provavelmente o real e os seus vestígios mais facilmente se ligam à imaginação. Como se pode ver nesta imagem de Rineke Dijkstra em que a ambiguidade da figura humana parece ser a matéria e a alma do fogo. Ao olhar demoradamente este retrato de uma adolescente de olhar distante, corpo húmido, pés na areia molhada da praia, com o mar calmo e o céu enevoado a servirem de fundo, veio-me à memória o mito prometeico. A jovem aqui retratada parece evocar Atena, deusa da sabedoria e das artes, filha de Zeus, deus do fogo. Depois de uma breve visita à terra, a Prometeu agrilhoado no Cáucaso, a deusa mergulha no mar Egeu, onde Ícaro, filho de Dédalo, se afogou vítima da imprudência, e no mar Negro, na praia da Ilha Branca, onde Helena, princesa de Tróia, jaz para sempre, vítima de uma paixão funesta. Prepara-se agora para regressar ao Olimpo, morada dos deuses, onde o fogo jorra em cascatas de estrelas.

Manuel Valente Alves é médico, investigador universitário e artista plástico. Tem-se dedicado ao ensino e à investigação na área da história da medicina e das suas relações com a arte e a cultura visual. Neste âmbito ensinou História da Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, comissariou mais de uma dezena de exposições institucionais e publicou mais de duas dezenas de livros, sendo o mais recente História da Medicina em Portugal – Origens, ligações e contextos (Porto Editora, 2014).