Michael Jackson
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Michael Jackson

O foleiro dos anos 80

Que legados podemos identificar com a década de 80, que iconografia pop nos assalta a memória?

Quando se olha para o passado, para a história, é comum fazerem-se análises por períodos temporais: milénios, séculos ou décadas. Em cada um desses períodos, muitas coisas aconteceram. Umas boas, outras más. Umas extraordinárias, a maioria banais. Ainda assim, é possível fazer-se uma caracterização genérica de cada um desses períodos, baseando-nos naquilo que foi mais marcante em cada uma dessas épocas.

Não é por acaso que se fala do séc. XX como o século das guerras e dos genocídios, dada a quantidade de gente morta por causa desses eventos. Ou dos séculos V ao XV como a Idade Média, marcada pelo feudalismo, pelo obscurantismo, pelo fanatismo religioso e pela Inquisição, ou do séc. XVIII como o século da revolução industrial e das luzes, em que o iluminismo e a racionalidade passaram a vigorar.

Se pensarmos em décadas, e ilustrarmos com o séc. XX, podemos falar dos “loucos” anos 20, pontificados pelo "charleston" e pelo fervilhar cultural de Berlim, as fotografias a preto e branco e os filmes mudos, ou lembrarmo-nos dos estimulantes anos 60, marcados pela guerra do Vietname, pelos Beatles, pelo Maio de 68 e pelo movimento "hippy".

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Gabriel Leite Mota é investigador e docente universitário doutorado em Economia da Felicidade pela Universidade do Porto

Na prática, quando fazemos estas análises temporais, aquilo que mais sobressai de cada um dos períodos é a sua moda, o seu estilo musical e literário, as suas tendências políticas e alguns eventos extraordinários. Entendamo-nos mais uma vez. Em todas as décadas, ou séculos, dão-se múltiplos acontecimentos, muitas vezes contraditórios. Mas podemos, sempre, encontrar os traços grossos que distinguem cada um desses espaços temporais.

Assim raciocinando, nessa lógica caricatural, que legados podemos identificar com a década de 80, que iconografia pop nos assalta a memória?

A resposta a esta pergunta leva-me a concluir que há muito, nos anos 80, de pífio e insidioso.

A moda, não podia ter sido mais azeiteira: poupas inomináveis, algumas cabeleiras compridas só atrás, permanentes de caracóis forçados, casacos e calças justas de cabedal, enchumaços e combinações esdrúxulas de cores.

Os tops musicais, insuportáveis: “disco sound”, música “às bolinhas” com uma orquestração típica muito artificial, órgãos foleiros e batidas repetitivas e minimais. Enfim, baladas pirosas (coisas como “I want to know what love is”) e uma pop fútil e inconsequente (vejam-se, por cá, os “Heróis do Mar” ou, lá por fora, coisas fascinantes como Rick Astley) marcaram, indelevelmente, a cena musical dos anos 80, da qual Madonna e Michael Jackson eram os deuses.

Se pensarmos em coisas mais sérias e relevantes, a década de 80 foi o começo do mal maior que hoje nos assola. É que, nessa década, pontificaram duas sinistras figuras da política mundial: um fantoche (Ronald Reagan) e uma déspota (Margaret Thatcher). Ambos encetaram o processo de desmantelamento da social-democracia e de implantação da selvajaria neoliberal (com a desregulamentação dos mercados financeiros e da globalização). Esse foi o tempo em que os "hippies" desapareceram para que surgissem os "yuppies", uma boa metáfora para os sinais do tempo (fenómeno bem retratado na série “Family Ties”).

Enfim, uma análise distanciada permite concluir que, para o que de bom possa ter havido nessa década (como o nascimento do hip-hop, o desenvolvimento dos computadores pessoais ou a queda do muro de Berlim), muito houve de fútil e perigoso a se sobrepor.

Ou, então, não, e sou só eu que, não tendo sido toldado pela subjectividade de quem viveu a primavera das suas vidas durante esse período, não acredito que os anos 80 tenham sido uma grande coisa.

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