Perder uma cidade é perder a história

As cidades antigas do norte do Iraque têm vindo a ser atacadas pelos radicais islâmicos, que depois transformam os raides de destruição em vídeos-propaganda. Dois arqueólogos falam da Mesopotâmia e da importância de fazer a desconstrução crítica destas imagens. No terreno, garantem, o desastre é ainda maior.

Foto
AFP

É um território de revoluções, daquelas que ficam para a história. Foi na antiga Mesopotâmia que nasceu a escrita e que surgiram as cidades. Foi também ali, nos vales dos rios Tigre e Eufrates, que se fundaram os primeiros impérios e que se fixaram as primeiras leis. É esta região, abrangendo hoje o Iraque, parte da Síria e parte do Irão, que tem aparecido sistematicamente nas notícias por causa de ataques ao património. Sobretudo o norte do Iraque, onde o autoproclamado Estado Islâmico (EI) tem vindo a saquear cidades milenares como Hatra e Nimrud e a destruir artefactos e esculturas em museus e sítios arqueológicos.

No dia 11, os extremistas divulgaram mais um vídeo com que, alegadamente, documentam a destruição de Nimrud. Um vídeo que chega um mês depois de fontes no terreno terem informado as autoridades iraquianas de que os jihadistas tinham avançado sobre esta cidade com 3000 anos com bulldozers, arrasando várias estruturas e esmagando diversas esculturas, entre elas exemplares dos célebres lamassu – seres híbridos representados com corpo de leão ou de touro, asas de águia e rosto humano – que guardavam os templos e palácios assírios.

Não é a primeira vez que o EI recorre ao vídeo como forma de propaganda – fê-lo em Fevereiro no Museu de Mossul e outra vez quando quis mostrar a ofensiva sobre Hatra, um dos melhores exemplos das cidades fortificadas do Médio Oriente – e também não é a primeira vez que as imagens levantam dúvidas.

Sem confirmações independentes no terreno – as notícias chegam, por regra, através de fontes anónimas ou ligadas ao Partido Democrático do Curdistão (KDP) – é difícil aferir a extensão dos danos. Mesmo que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) já tenha classificado os raides dos extremistas contra estas duas cidades-Estado que formam com Nínive um triângulo de referência do mundo antigo como “crimes de guerra”.

Que a destruição tem vindo a ocorrer parece ser consensual, até porque não há quem tenha dúvidas de que o tráfico de antiguidades é uma das fontes de financiamento do EI. Mas, o que foi realmente destruído já é matéria de debate.

Os radicais que avançaram sobre estas cidades património mundial querem eliminar os vestígios do passado pré-islâmico, defendendo que a destruição de esculturas, frisos, relevos e documentos milenares ligados a este berço da civilização faz parte do seu combate contra a idolatria, proibida pelo Profeta.

O PÚBLICO falou com dois arqueólogos que fizeram parte de uma missão ibérico-síria que, entre 2005 e 2011, escavou uma garganta no Eufrates, entre a Síria e o Iraque, à procura de uma fronteira. Francisco Caramelo, professor da Universidade Nova, e Juan Luis Montero, da Universidade da Corunha, defendem uma desconstrução crítica das imagens veiculadas pelo EI e dizem que a situação no terreno é ainda mais grave do que parece. A destruição, garantem, acontece há anos e não se limita ao Iraque nem aos jihadistas. “O EI nunca vai desaparecer – vai mudar de nome, mas vai continuar lá”, diz Montero. 

Evitar manipulações
Para os dois arqueólogos é preciso ter muito cuidado com a análise dos vídeos dos radicais. No Museu de Mossul, por exemplo, terá havido uma montagem que não é imediatamente perceptível: “São introduzidas imagens de baixos-relevos que não estão lá, que não fazem parte da colecção do museu. Mas isso só quem é profundamente conhecedor daquele património é capaz de ver”, explica Francisco Caramelo. “O EI tem sido exímio no uso dos media, da imagem, e nós temos de estar preparados para evitar manipulações”, acrescenta, sublinhando que isto não implica a “desvalorização do desastre”.

Muitas informações que vão chegando, lembra Juan Luis Montero, não são verificáveis por fontes idóneas no terreno. Há interesses de parte a parte e é preciso tê-los em conta para que a propaganda de um dos lados não seja contestada pela do outro.

No caso de Nimrud e Hatra, há património integrado que não seria facilmente transportável – os touros e leões alados pesam mais de 20 toneladas -, mas há outro que é muito apetecível em termos comerciais.

Caramelo garante que o “desastre” é muito maior do que o que mostram as imagens recentes, porque resulta de um processo que se alastra há vários anos e que tem afectado centros tão ou mais significativos que Hatra e Nimrud. Refere-se, em concreto, a Mari, uma das primeiras e mais importantes cidades da Mesopotâmia, hoje em território sírio, a 15 quilómetros da fronteira com o Iraque. Mari, nas margens do Eufrates, fundada em 2900 a.C., é saqueada há um ano sem que nada seja feito. A destruição é permanente, diz, porque os sítios arqueológicos são devassados por caçadores de tesouros. E estes caçadores existem, acrescenta Montero, “porque há uma máfia organizada que assegura o tráfico” e que tem como principais mercados negros o Reino Unido, os EUA e a Suíça.

Montero escavou cinco anos em Mari e conhece bem a realidade arqueológica da Síria e do Iraque. Garante que o saque organizado não é o único responsável pela destruição e lembra que a invasão americana do país, em 2003, deixou danos irreparáveis: “Babilónia, uma das cidades mais importantes da história universal, foi transformada pelos Estados Unidos e os seus aliados num acampamento militar para quatro mil soldados. E o mundo assistiu, sem escândalo.”

Tal como esta última, Mari é uma cidade ligada ao império babilónio e a Hammurabi, o rei do célebre código – um dos mais antigos conjuntos de leis, hoje no Museu do Louvre, em Paris -, centro sofisticado em que é notória a relação que os povos desta região mantinham com a escrita, pondo-a desde logo ao serviço da difusão de procedimentos administrativos ou de textos religiosos e proféticos.

A revolução da escrita
“Sempre que um sítio é saqueado, o que se perde é a história, não é só património iraquiano, é história universal”, diz Montero, defendendo que a escrita é a maior revolução da humanidade. “A Mesopotâmia é um território de grandes experiências humanas. Só a escrita, a ideia de que se pode deixar um pensamento para o futuro, uma ideia, é absolutamente transcendental.” Primeiro usada como forma de fixar procedimentos administrativos, a escrita cedo evoluiu para a esfera do pensamento religioso e mesmo para aquilo a que hoje chamamos literatura. 

Falar de Mesopotâmia implica falar de revoluções, já que à da escrita podemos juntar a das cidades. E aqui falamos de cidade não apenas como espaço físico, mas como “construção mental”, explica o arqueólogo espanhol. “É um mundo de grande complexidade este em que a cidade e a escrita nascem.” Em que surge a ideia de Estado, acrescenta Caramelo, uma “abstracção importante” que se torna difícil de substanciar com artefactos.

“Infelizmente, não posso escavar e encontrar um Estado”, ironiza Juan Luis Montero, “nem posso perguntar a Hammurabi que ideia tem de monarquia ou para que é que serve a burocracia, mas posso e devo correlacionar isto tudo se quero pensar sobre este território”. E que território é este?

A Mesopotâmia compreende os territórios dos vales dos rios Tigre e Eufrates e seus afluentes. Política e geograficamente falando, abrange o Iraque, parte da Síria e parte do Irão, embora culturalmente, adverte Francisco Caramelo, ultrapasse as fronteiras actuais. “É um espaço de muitos encontros entre os finais do 4.º milénio a.C. e o 1.º milénio a.C..” Um mundo que é uma “simbiose” de que os assírios, e depois os babilónios, são herdeiros. E uma simbiose  que resulta em avanços notáveis na matemática e nas artes, na astronomia e noutras ciências.

“Em Nimrud está congelado o que é a civilização mesopotâmica, o período neo-assírio, que vai do século X ao VII a.C.. Era o maior império até àquele momento”, sublinha Caramelo, acrescentando que os seus domínios iam da parte ocidental do planalto iraniano ao antigo Egipto.

Apresentados como bárbaros por gregos e persas – há muita propaganda negativa na Bíblia e nos textos clássicos, defendem os dois arqueólogos – os assírios só começaram a contar a sua própria história no século XIX, quando foi decifrada a escrita cuneiforme, desenvolvida por volta de 3500 a.C.. E, desde então, têm vindo a ser definidos como conquistadores, é certo, mas também como um povo de “grande sensibilidade”.

A irmã pobre do Egipto
O saque no Museu de Mossul ou no de Bagdad é gravíssimo, reconhece Montero, mas a destruição de um sítio arqueológico como Nimrud ou Mari também, ainda que o público em geral tenda a desvalorizá-la. “Quando um sítio é destruído perdemos os objectos e os seus contextos, quando um museu é saqueado perdemos ‘apenas’ os objectos”, diz. Em qualquer dos casos, resume, perde-se conhecimento, algo que é já escasso nestes territórios, sobretudo quando comparados com o do antigo Egipto.

Mesmo a Babilónia, talvez a mais estudada das cidades da região, a do poderoso Nabucodonosor II, o rei dos célebres jardins suspensos, foi muito pouco escavada. “Sabemos que a arqueologia é um processo longo, mas quando se escavou apenas 3% da Babilónia, não podemos dizer que sabemos muito sobre a Babilónia. E se não conhecemos não podemos valorizar. A Mesopotâmia é a irmã pobre do Egipto. Ninguém sabe o que é Nimrud, mas muitos sabem o que é Abu Simbel.” E este desequilíbrio torna-se ainda mais estranho, acrescenta Caramelo, quando percebemos que, como civilização, devemos muito mais à antiga Mesopotâmia: “A própria ideia de Deus dos textos religiosos da Mesopotâmia conduz-nos à Bíblia, ao Antigo Testamento. A continuidade é muito maior.”

A continuidade pode ser maior, mas a arte, menos figurativa, e a arquitectura em terra, que deixou menos estruturas imponentes, parece afastar as pessoas deste passado colectivo. “Até a escrita cuneiforme repele quando comparada com os hieróglifos”, acrescenta este professor da Nova.

Quando hoje toma conhecimento de mais um raid de destruição dos extremistas do EI no Iraque ou lê outra notícia sobre as consequências dos bombardeamentos no património de Alepo, na Síria, Francisco Caramelo pensa, sobretudo, nos miúdos que conheceu nas escavações do Eufrates, pergunta-se o que terá acontecido às famílias que os recebiam todos os dias ao pequeno-almoço. E pensa também no espólio recolhido pela equipa, em depósito no museu local. As autoridades sírias, garante, estavam até 2011, ano do início da guerra, a trabalhar com muito empenho na protecção do património do país, mas todos os seus esforços pararam. Sabe-se que reuniram as principais colecções num mesmo local em Damasco, cuja localização não foi, como é natural, divulgada.

Antes do começo do conflito, acrescenta Montero, havia mais de 200 missões arqueológicas estrangeiras a trabalhar na Síria, muitas delas vindas do Iraque. Desde aí, muitas foram forçadas a fazer o movimento inverso e instalaram-se no Curdistão iraquiano.  A equipa de Montero e Caramelo também está, aliás, a ponderar voltar ao terreno no próximo ano e o Iraque é um dos destinos possíveis, tal como a Turquia e o Irão. Se a escolha recair sobre o Líbano ou os territórios palestinianos – outro dos cenários em cima da mesa – já não se tratará de um projecto a abranger o universo cultural mesopotâmico, mas os fenícios e o mundo do Mediterrâneo.

Sem fim à vista
Alepo foi arrasada e parte de Palmira destruída. Hatra e Nimrud terão sofrido perdas irreparáveis, mas a acção do EI, defendem, só agora começou. E é por isso que “a arqueologia do Médio Oriente vive o seu pior momento de sempre”, diz Montero. “Não há nada comparável, sobretudo porque está no começo e abrange todos os períodos. E falamos da destruição de um património único, excepcional, irrepetível.”

É ainda mais grave do que o saque autorizado conduzido pelas potências da arqueologia europeia em período colonial? “É claro que a arqueologia do objecto que se praticava no século XIX e no início do século XX fez com que cidades como Nínive e Nimrud perdessem alguns dos seus maiores tesouros assírios, que hoje estão nos museus de Paris [Louvre], Londres [Museu Britânico], Nova Iorque [Metropolitan] e Berlim [Pérgamo]. Mas aqui falamos de uma destruição completa sem fim à vista”, e que pode estender-se a outros países da região, como a Líbia.

Em Nínive e Nimrud, cidades em que predomina a arquitectura de terra, a preservação levanta ainda mais desafios do que em Hatra ou Palmira, já ligadas ao mundo clássico. Mas, quando se trata de “provocar o Ocidente” através da destruição sistemática de sítios arqueológicos que fazem parte da história universal, tanto umas como outras cumprem, sem esforço, os objectivos dos extremistas, argumentam os dois arqueólogos. “Estes bombardeamentos e saques são uma aberração que nada têm a ver com o islão nem com as populações locais, que se sentem profundamente orgulhosas do seu passado. Falamos de países com situações sociais extremamente difíceis e, que ainda assim, fazem um esforço para proteger o património”, conclui Caramelo. A Síria, lembra, pôs a deusa de Mari nos selos dos correios.