Com o mar calmo e o cheiro a morte, milhares vão tentar chegar à Europa

Espera-se que 2015 seja pior ainda que 2014 para os migrantes que tentam chegar à Europa por mar. Desde Janeiro terão já morrido 900 pessoas, quando no mesmo período do ano passado se registaram 17 mortes.

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Alguns dos imigrantes que foram resgatados com vida nos últimos dias Guglielmo Mangiapane/Reuters

Era um dia calmo quando o barco se lançou à água de um porto na Líbia para fazer mais ou menos 300 quilómetros até ao Sul de Itália. A rota é uma das mais procuradas e uma das mais mortíferas. Não foi a única embarcação a ir; mas em menos de 24 horas, ficou em apuros. Os detalhes são escassos, mas pensa-se que a causa do naufrágio possa ter sido que ao ver um navio comercial perto, a maioria dos passageiros foi para um dos lados, levando o barco a virar-se. Quando a guarda costeira italiana chegou, resgatou 145 pessoas, levou nove cadáveres, e desde então não foram encontrados mais corpos ou sobreviventes. Podem ter morrido entre 350 e 400 pessoas.

Será um dos piores desastres no Mediterrâneo dos últimos anos, para além de dois naufrágios ao largo da ilha de Lampedusa com mais de 300 mortos cada. Mas mesmo no dia em que foi conhecida a notícia, na terça-feira à noite, saiam mais três barcos da Líbia, cada um com cerca de 380 migrantes, a maioria mulheres e crianças.

O início da época do tempo quente e mar mais calmo trouxe já pistas para o que poderá vir a ser o ano de 2015 – um ano de recordes de pessoas a tentar passar o Mediterrâneo e muitas a morrer ao fazê-lo. O ano passado já tinha ultrapassado o anterior pico de 2011, ano das chamadas Primaveras árabes: estima-se que em 2014 tenham chegado à Europa 220 mil migrantes por mar, enquanto mais de 3 mil terão morrido no Mediterrâneo.

Este ano haverá já 900 mortos, cerca de 50 vezes mais do que o ano passado no mesmo período, em que se registaram 17 mortes, notam agências de protecção de direitos humanos como a Amnistia Internacional, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), e o Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).

“As partidas não diminuem. O medo de morrer não é dissuasor”, comentava no Twitter a porta-voz do Alto-Comissariado da ONU para os refugiados na Europa do Sul, Carlotta Sami.

Tiros no mar
Uma indicação de que há cada vez mais procura de viagens foi visto pelas autoridades italianas em dois incidentes em que os traficantes de pessoas dispararam para intimidar os elementos da guarda costeira italiana após uma operação de salvamento com o objectivo de recuperar os barcos onde antes iam os imigrantes resgatados (aproximaram-se em lanchas rápidas, dispararam, e levaram os barcos consigo). “É um sinal de que estão a ficar com poucos barcos e não os querem perder”, explicou o director-executivo da agência encarregada das fronteiras da União Europeia, Frontex, Fabrice Leggeri. O facto de haver uma disposição para recurso à violência causa ainda mais preocupações quanto à segurança quer das pessoas que vão nos barcos, quer das que as resgatam.

A maioria dos imigrantes que tenta chegar à Europa de barco sabe que pode morrer. Mas quais são as alternativas? Nos países onde embarcam (a Líbia conta com muitas partidas, seguida pelo Egipto) não têm quaisquer perspectivas de trabalho, e se forem apanhados, podem ficar nas prisões locais. A BBC encontrou uma adolescente da Eritreia num centro em Misrata, Líbia, parte de um grupo que diz estar detido há sete meses. Os migrantes estão confusos. “Isto é uma prisão? Somos refugiados?” perguntam ao jornalista.

Pior do que acabar numa uma prisão local pode ser ficar nas mãos dos traficantes, que os espancam para conseguir mais dinheiro (mesmo que já tenham pago), agridem com facas ou bastões, intimidam. Muitas mulheres são violadas. Mas a outra opção pode ser ainda pior: podem ser repatriados, e muitas vezes o que os espera no seu país é morte ou tortura.

“Mesmo se houvesse uma decisão dos Governos afundar os barcos com migrantes, ainda haveria pessoas a ir de barco, porque muitos consideram-se já mortos”, disseao diário britânico The Guardian um sírio, Abu Jana (nome alterado para sua protecção), que se prepara para dentro de pouco tempo sair do Egipto para a Europa.

“Acho que mesmo que se decidissem bombardear os barcos, isso não demoveria as pessoas de ir”, comenta. No seu caso, diz, se voltasse para a Síria seria morto. Não pode viajar por meios legais porque não pode pedir um passaporte à embaixada síria no Cairo. Sem documentos, não tem qualquer hipótese de se manter no Egipto, porque não consegue trabalhar ou alugar uma casa.

Empresários e ONG lançam operações de resgate
O primeiro grande naufrágio de Lampedusa, em 2013 (pelo menos 360 mortos) marcou um debate intenso sobre a imigração e ditou o lançamento da operação italiana Mare Nostrum, que salvou 170 mil pessoas ao largo de Itália. As autoridades italianas, que gastaram durante um ano 9 milhões de euros mensais com esta operação, deram-na como terminada no Outono do ano passado, quando entrou em vigor a operação europeia Tritão, menos ambiciosa em custos, área de patrulha, e meios. Organizações de direitos humanos dizem que a diferença está já a ser vista com as mortes deste ano.

A necessidade de mais meios levou ONG e particulares a organizarem-se e irem para o mar. Os Médicos Sem Fronteiras anunciaram que vão operar um navio de Maio a Outubro para ajudar nos resgates, e dois empresários alemães, Harald Höppner e Matthias Kuhnt, decidiram comprar um barco e irem eles próprios patrulhar durante três meses as águas entre a Líbia e Lampedusa e dar o alarme caso encontrem embarcações em dificuldades.

A Comissão Europeia tem marcado para Maio um anúncio sobre a estratégia europeia para a imigração. Algumas possibilidades mencionadas têm sido a criação de centros para pedidos de asilo fora da Europa, para que os migrantes possam pedir estatuto de refugiados sem ter de passar pela viagem de mar, melhor redistribuição de responsabilidades entre os vários países europeus, e compensações para os navios comerciais que ajudem em resgates de migrantes.

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