Torne-se perito

Günter Grass (1927-2015): Calou-se a consciência crítica da Alemanha

Prémio Nobel da Literatura, o autor de O Tambor de Lata morreu aos 87 anos. Deixa um livro inédito de contos, poemas e desenhos.

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O escritor na sua cidade natal, Gdansk, no dia em que comemorou 80 anos Wojtek Jakubowski/AFP
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Uma escultura, que em 2006 esteve em exposição nas ruas de Berlim, onde se inclui o nome de Günther Grass junto a alguns dos mais reconhecidos autores alemães Arnd Wiegmann/Reuters
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Na cerimónia de entrega do Prémio da Paz dos Livreiros alemães ao escritor turco Yasar Kemal, no final da Feira do Livro de Frankfurt em 1997 Oliver Berg
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Com José Saramago a propósito de um debate realizado em Lisboa, em Outubro de 1998 Daniel Rocha
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Na cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Literatura, em Dezembro de 1999 Anders Wiklund/Reuters
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A receber das mãos do Rei da Suécia, Carl Gustaf, o Prémio Nobel da Literatura, a Dezembro de 1999 em Estocolmo TT News Agency/Reuters
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Na Academia Sueca em 1999, a propósito do Prémio Nobel da Literatura Anders Wiklund/Reuters
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"Descascando a Cebola" é o nome da polémica autobiografia de Grass, publicada em 2006. Para além de ter recordado a sua adolescência numa Alemanha fustigada pela guerra, o escritor confessou que se alistou nas Waffen-SS, uma unidade de elite da Alemanha nazi, quando tinha 17 anos John Macdougall/AFP
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Günter Grass na Feira do Livro de Frankfurt, em 2007 Katja Lenz/AFP
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Na Feira do Livro de Frankfurt em 2009 John Macdougall/AFP
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O registo prisional de Günter Grass compilado pelas forças norte-americanas quando o escritor era um prisioneiro de guerra em Marienbad, onde se comprova que pertenceu às Waffen-SS Oliver Lang/AFP
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Günter Grass em Lisboa, no Goëthe-Institut, para uma leitura pública do primeiro capítulo da sua autobiografia "Descascando a Cebola". Novembro de 2006 Miguel Manso
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Günter Grass em Lisboa, no Goëthe-Institut, para uma leitura pública do primeiro capítulo da sua autobiografia "Descascando a Cebola". Novembro de 2006 Miguel Manso
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Günter Grass em Lisboa, no Goëthe-Institut, para uma leitura pública do primeiro capítulo da sua autobiografia "Descascando a Cebola". Novembro de 2006 Miguel Manso
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Um brinde, com a sua mulher Ute, no dia em que foi anunciado como vencedor do Prémio Nobel da Literatura Peter Mueller/Reuters
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Em 1999 no Centro Cultural de São Lourenço, no Algarve, onde Grass expôs as suas pinturas diversas vezes Nuno de Jesus
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Comemorando com um vizinho, no dia em que foi anunciado como vencedor do Prémio Nobel da Literatura Peter Mueller/Reuters
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Na sua cidade natal, Gdansk Krzysztof Mystkowski/Reuters
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Günter Grass junto ao escritor italiano Claudio Magris em Oviedo, Espanha. Em Janeiro de 2006, os escritores - reconhecidos com o Prémio Príncipe das Astúrias em 1999 (Grass) e 2004 (Magris) - marcaram presença na cerimónia de comemoração dos 25 anos deste galardão Eloy Alonso/Reuters
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Em Madrid, em 2007, para a apresentação da sua polémica autobiografia "Descascando a Cebola" Pedro Armestre
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Günter Grass com os escritores Claude Simon, Nadine Gordimer e Mario Vargas Llosa, reunidos a propósito do Congresso PEN International em 1986 Frank Micelotta/AFP
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Fotografado em 1999 junto a alguns dos seus desenhos e pinturas na sua casa em Behlendorf Rolf Rick
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Em 1997 com o também escritor Salman Rushdie, em Hamburgo Kay Nietfeld
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Com a autora sul-africana (e igualmente galardoada com o Prémio Nobel da Literatura) Nadine Gordimer, em Agosto de 1990 em Oslo Morten Hvaal/AFP
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Na Feira do Livro de Frankfurt, em 1997 Katja Lenz/AFP
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Uma escultura concebida por Günter Grass, inaugurada no final de 2014, em Gdansk Adam Warzawa/AFP
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Em Setembro de 1965 com o político Willy Brandt, que em 1969 se tornaria Chanceler alemão Heinz-Juergen Goettert/AFP
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Na sua casa, em Luebeck, no norte da Alemanha Maurizio Gambarini/AFP

O escritor Günter Grass morreu esta segunda-feira, aos 87 anos, num hospital de Lübeck, onde fora internado com uma infecção respiratória. Prémio Nobel da Literatura em 1999, 40 anos após ter publicado um dos mais extraordinários primeiros romances da literatura universal, O Tambor de Lata (1959), Grass foi, mais do que nenhum outro autor alemão seu contemporâneo, a memória e a consciência crítica da Alemanha do século XX.

Tinha acabado há poucos dias de terminar um livro de contos, poemas e desenhos, estava “cheio de planos literários” para o futuro próximo, e a sua morte apanhou os mais próximos de surpresa, disse ao PÚBLICO a directora do Instituto Alemão de Lisboa, Claudia Hann-Rabe, que logo após a morte do escritor falou com a secretária de Grass. “Estava de férias, voltou a Lübeck [onde há muito se radicara] para se tratar desta infecção respiratória, tomou antibióticos durante um dia ou dois, e morreu de forma completamente inesperada”, diz Claudia Hann-Rabe.

Ainda segundo as informações recolhidas pela directora do Instituto Alemão de Lisboa, o funeral de Günter Grass será uma cerimónia “muito privada”, mas está já a ser preparada uma sessão oficial de homenagem ao escritor, que deverá ocorrer no dia 1 de Maio, data ainda sujeita a confirmação.

Na literatura alemã do pós-guerra, só talvez Heinrich Böll (1917-1985), prémio Nobel em 1972, tenha gozado de um prestígio comparável ao de Grass enquanto criador literário, mas o autor de A Honra Perdida de Katharina Blum nunca teve a mesma relevância como intelectual e figura pública.

Embora tivesse 31 anos quando saiu, em 1959, o seu romance de estreia, e fosse já autor de várias peças de teatro e de um volume de poemas, foi O Tambor de Lata que o transformou instantaneamente numa celebridade literária. Protagonizado por um bizarro alter-ego de Grass – Oskar Matzerath nasce, como o seu criador, em 1927, aos três anos decide que não quer crescer mais e atira-se deliberadamente de umas escadas abaixo, e vem a acabar os seus dias num manicómio –, o romance acompanha a conturbada história alemã ao longo de quatro décadas, abarcando a República de Weimar, a ascensão do nazismo, a II Guerra Mundial e os anos do pós-guerra.

Helena Topa, que traduziu O Tambor de Lata para a D.Quixote – a primeira tradução portuguesa do livro, editada pelos Estúdios Cor em 1964, deve-se ao romancista Augusto Abelaira –, considera-o “um livro explosivo”, não apenas pelo olhar impiedoso que lança sobre a história alemã, mas também pela qualidade e singularidade de “uma escrita a todos os títulos notável para a época”. A partir desse contacto íntimo com a criação alheia que o trabalho de tradução literária implica, Topa descreve a escrita de Grass como “visual, plástica, moldada por um trabalho barroco sobre a linguagem, um misto de força, magia e grandiosidade, por um lado, e delicadeza e humor subtil, por outro”.

A tradutora e professora de literatura alemã lembra ainda que as “cenas muito ousadas de explicitude sexual” que Grass inclui neste seu romance inaugural “provocaram um grande escândalo na época”. Mas o livro não tardou a ser considerado uma obra-prima, e a sua projecção internacional ganhou ainda um novo impulso em 1979, quando o realizador Volker Schlöndorff o adaptou ao cinema, vencendo o Óscar para melhor filme estrangeiro. 

O crítico alemão Hans Mayer (1907-2001) descreve com eloquência o impacto de O Tambor de Lata na Alemanha da época. “Raramente aconteceu, depois da época do classicismo alemão, que toda uma geração de escritores e leitores se reconhecesse na obra de um autor”, escreve. “Foi isto o que sucedeu com o romance do tocador de tambor Oskar Matzerath: Günter Grass tornou-se desde então uma figura central da vida literária alemã”.

O escritor era já septuagenário quando recebeu o Nobel, mas a própria declaração da Academia Sueca sugere que o prémio lhe foi em boa medida atribuído, com 40 anos de atraso, por ter escrito O Tambor de Lata. O júri elogia o modo como Grass assumiu a “enorme tarefa de rever a história contemporânea lembrando os despojados e esquecidos, as vítimas e os perdedores, e as mentiras que as pessoas querem esquecer porque um dia acreditaram nelas”, e vai depois ao ponto de dizer que, com a publicação de O Tambor de Lata, “é como se fosse concedido um novo começo à literatura alemã, após décadas de destruição linguística e moral”. 

Oposição à reunificação
Grass continuou a escavar o traumático passado recente alemão em dois outros romances publicados no início dos anos 1960: O Gato e o Rato, cuja acção decorre na Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial – o tocador de tambor Oskar Matzerath faz uma breve aparição no livro – e O Cão de Hitler. Um dos fios condutores dos três livros é a terra natal de Günter Grass, a então cidade livre de Danzig, que veio a ser a actual Gdansk, na Polónia, e daí que o conjunto seja conhecido como a Trilogia de Danzig.

Mas toda a obra de Grass, incluindo o teatro, a poesia e o ensaio, é indissociável da sua participação cívica e política, observa o ensaísta e tradutor João Barrento. “Nele o lado político, muito intenso, e o literário nunca se dissociam, nunca se afastam sequer: é um escritor visceralmente político, mesmo na poesia.”

Barrento, que se cruzou várias vezes com Günter Grass desde meados dos anos 1970 – também em Portugal, onde o escritor passava frequentes temporadas, na casa que possuía no Algarve –, sublinha que a sua “forte consciência do passado alemão e das suas implicações no presente” não se limita ao nazismo e ao pós-guerra e lembra o livro Uma Longa História (1995), reconstrução ficcionada da Alemanha desde o império de Otto vonBismarck, no século XIX, passando pelas duas guerras mundiais, até à criação da República Democrática Alemã (RDA) e à posterior reunificação alemã. Um percurso histórico que nos vai sendo dado pelos olhares irónicos e acerados de uma dupla que o próprio Grass admitiu dever alguma coisa aos célebres Bouvard e Pécuchet de Flaubert.

Na defesa das suas convicções, o escritor não transigia, e essa “inflexibilidade”, diz Barrento, “valeu-lhe algumas antipatias”. Foi justamente o que aconteceu durante o período da reunificação alemã, à qual Grass se opôs nos moldes em que estava a ser feita. Para o romancista, resume Barrento,“uma Alemanha unida não significava a descaracterização completa da antiga RDA, não implicava que se deitasse fora o bebé com a água do banho, não implicava transformá-la numa espécie de satélite da Alemanha Federal.”

Passado nazi?
No entanto, se as opiniões de Grass eram frequentemente mal aceites dentro e fora da Alemanha – em 2012 foi considerado persona non grata pelo governo israelita após ter publicado um poema em que acusava Israel de ameçar a paz mundial com a sua política agressiva face ao Irão –, é só com a publicação, em 2006, do seu primeiro grande volume autobiográfico, Descascando a Cebola: Autobiografia 1939-1959 (Casa das Letras) que o seu estatuto de consciência moral do país vai sofrer a primeira grande brecha. A poucos dias do lançamento da obra, o escritor antecipa, numa entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ), uma das mais surpreendentes revelações do livro: a de que tinha integrado as Waffen-SS no final da guerra.

O homem que durante décadas obrigara os alemães da sua geração a encarar de frente a cumplicidade que, por acção ou omissão, tinham mantido com o horror nazi, vinha agora confessar que aos 17 anos, em 1944, se alistara voluntariamente nas Waffen-SS. Inicialmente mobilizado, aos 15 anos, como auxiliar da Luftwaffe, Grass contará que a nova ocupação lhe pareceu uma excitante alternativa às rotinas da escola e à miséria da vida doméstica. Daí ter-se depois alistado nas SS, a cerca de meio ano do final da derrota definitiva da Alemanha. Já não teve tempo de participar activamente em “crimes de guerra”, mas reconhecerá que provavelmente se teria visto envolvido neles se fosse um pouco mais velho e se se tivesse alistado mais cedo.

“Assumir que fez parte das SS – foi recrutado ainda muito novo, como muitos jovens alemães – não o iliba de responsabilidade, e ele sabe disso”, comenta João Barrento. “Günter Grass é o primeiro a reconhecer que há um grãozinho [de responsabilidade] que lhe cabe a ele.”

Grass demorou bastante tempo a divulgar este detalhe da sua biografia e foi duramente criticado por isso. Mas muitos saíram também em sua defesa, como o seu amigo José Saramago (seu antecessor imediato enquanto Nobel da Literatura), que lembrou que o escritor estava a ser atacado por algo que fizera aos 17 anos, como se todo o resto da sua vida não contasse para nada.

Siegfried Mews, autor do livro Günter Grass and his Critics, dá um exemplo sugestivo da mossa que esta revelação tardia provocou na reputação do escritor. Num número de 2006 da revista de cultura política Cicero, publicado pouco antes da entrevista de Grass ao FAZ, o romancista é tema de capa, sendo designado como “o mais influente intelectual” no conjunto dos países de língua alemã. Logo a seguir à revelação do seu alistamento nas SS, a mesma revista promove um inquérito junto de críticos literários alemães, indagando quais os seus autores preferidos, e Grass não vai além de um modesto 12.º lugar.

Um resultado que pouco antes seria impensável, apesar de alguns críticos, e em particular o influente Marcel Reich-Ranicki, ter recorrentemente expressado a sua opinião de que o talento literário de Grass estava sobrevalorizado. Detestava particularmente Uma Longa História (1995), e aparece mesmo na capa da revista Spiegel a rasgar um exemplar do livro.

No final da guerra, o jovem Günter Grass foi detido pelas tropas americanas, tendo sido libertado em Abril de 1946. Durante algum tempo trabalhou na agricultura e numa mina de potássio, tendo depois estudado escultura e artes gráficas em Düsseldorf e Berlim, ao mesmo tempo que começava já a escrever, integrado no Grupo 47, dominante na literatura alemã do pós-guerra.

Em 1954 casou-se com a bailarina Anna Schwarz, de quem teve quatro filhos. No final daquela década, o casal, que se separaria em 1972, viveu em Paris, onde Grass escreveu O Tambor de Lata. O romancista teve ainda mais duas filhas de relações posteriores, antes de se casar novamente em 1979 com a organista Ute Grunert.

Amigo do ex-chanceler alemão Willy Brandt, Grass foi um activo apoiante do Partido Social-Democrata alemão, que abandonou em 1993, protestando contra alterações na legislação que regula o direito de asilo na Alemanha.

Além da Trilogia de Danzig e das restantes obras já referidas, publicou, entre outros, os romances O Pregado (1977), A Ratazana (1986), Maus Presságios (1992), e A Passo de Caranguejo (2002), e ainda os volumes biográficos Em Viagem de Uma Alemanha à Outra: Diário, 1990 (2010) e Grimms Wörter. Eine Liebeserklärung, ainda não traduzido em Portugal: um singular dicionário do universo dos irmãos Grimm que é, ao mesmo tempo, um exercício autobiográfico.

Numa entrevista à Spiegel, em 2010, Grass recomenda aos autores mais jovens que “não repitam os erros da República de Weimar e não se retirem para as suas privadas”, exortando-os a abordar temas como “a crise financeira, a pobreza infantil, a deportação de emigrantes ilegais, ou o crescente fosso entre ricos e pobres”.

Com Joana Amaral Cardoso e Lucinda Canelas