Altas doses de ibuprofeno associadas a risco cardíaco

Alerta sobre o anti-inflamatório é feito pelo Comité de Avaliação do Risco em Farmacovigilância da Agência Europeia do Medicamento.

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O risco foi encontrado em doses muito acima do recomendado Nuno Ferreira Santos

A informação diz respeito a tomas diárias do medicamento superiores a 2400 miligramas, esclarece um comunicado no site da EMA. As conclusões do PRAC vão ser remetidas para o Comité de Medicamentos de Uso Humano, também pertencente à mesma agência, e ao qual cabe a palavra final sobre o tema. O medicamento está disponível em Portugal em embalagens de 200, 400 ou 600 miligramas, com a versão de dose mais baixa à venda fora das farmácias. O número de comprimidos que se tomam por dia varia de acordo com a doença, mas em todos os casos a bula do fármaco nas suas várias apresentações frisa sempre que, “em qualquer caso, a dose diária não deverá exceder 2400 mg de ibuprofeno”.

As conclusões da revisão de informação feita pelo PRAC “confirmam um pequeno aumento do risco de problemas cardiovasculares” nos doentes que “tomam doses altas de ibuprofeno”. “A revisão clarifica que o risco de elevadas doses de ibuprofeno é semelhante ao encontrado noutros anti-inflamatórios não esteróides”, explica a nota, na qual se refere como exemplo o diclofenac, conhecido pelo nome de marca Voltaren, e que no passado levou a alertas semelhantes, e os chamados "inibidores selectivos da COX-2".

O regulador europeu ressalva que não se encontrou nenhum aumento do risco cardiovascular nas doses até 1200 miligramas por dia. Em todos os casos, o PRAC defende que os benefícios deste anti-inflamatório campeão de vendas em Portugal ainda são superiores aos riscos, sendo apenas necessário actualizar os alertas relacionados com os perigos de ultrapassar alguns valores diários. Os dados da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) indicam que em 2014 o ibuprofeno representou 5% do total do volume de medicamentos vendidos fora das farmácias. O mais vendido foi o analgésico paracetamol, com 15% do total. Já nas farmácias, o ibuprofeno não surge na lista das substâncias mais vendidas, nem em volume de embalagens nem em valor.

As conclusões tiveram como base a análise de vários trabalhos publicados nos últimos anos sobre os efeitos deste medicamento, num estudo que começou em Junho de 2014 a pedido do regulador do medicamento do Reino Unido. O organismo defende que deve haver um cuidado especial com os doentes que já apresentam doença cardíaca, como historial de problemas circulatórios, acidente vascular cerebral ou ataque cardíaco, assim como todos os casos em que se prevê um uso prolongado do ibuprofeno. A EMA dá ainda exemplos de alguns factores de risco, como o tabaco, hipertensão, diabetes e colesterol.

Alguns dados do PRAC apontam ainda para que o ibuprofeno possa interagir com medicamentos como a aspirina, que muitas vezes é tomada como forma de prevenir acidentes vasculares cerebrais. No entanto, no uso esporádico o PRAC considera que não existem problemas sérios. As recomendações aplicam-se também a um anti-inflamatório semelhante ao ibuprofeno, mas menos utilizado – o dexibuprofeno.